*Aécio Neves escolhe ficar calado em depoimento à Polícia Federal

 

Senador prometeu prestar esclarecimentos após ter acesso a outras oitivas

*por Daniel Gullino

 

 

RIO — O senador Aécio Neves (PSDB-MG) preferiu ficar calado durante um depoimento à Polícia Federal, realizado no dia 22 de julho em Brasília. Aécio alegou que não teve acesso a outras oitivas já realizadas no mesmo inquérito, e se dispôs a "prestar os devidos esclarecimentos" após ter acesso a elas.

 

 

A investigação é baseada na delação premiada de executivos da Odebrecht, que afirmaram que Aécio teria intermediado o pagamento de R$ 7 milhões para a campanha do senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) ao governo de Minas Gerais, em 2010.

Também fazem parte do inquérito o próprio Anastasia, Oswaldo Borges da Costa, assessor de Aécio, e Paulo Vasconcelos do Rosário Neto, marqueteiro dos dois tucanos.

 

O relator do inquérito, ministro Gilmar Mendes, determinou que a investigação seja prorrogada por 90 dias, em decisão do dia 10 de agosto. Entre as diligências que faltam ser realizadas está o depoimento de Anastasia.

DELATORES REAFIRMAM ACUSAÇÕES

Três executivos da Odebrecht também foram ouvidos: Benedicto Júnior, ex-presidente da empresa; Sérgio Luiz Neves, diretor-superintendente, e Hilberto Mascarenhas, responsável pelo Setor de Operações Estruturadas (SOE), conhecido como "departamento de propina" da Odebrecht.

Em seu depoimento, Benedicto Júnior reafirmou que Aécio lhe pediu doações para a campanha do seu aliado em duas ocasiões: em junho 2009, quando ele ainda era governador, e no segundo trimeste de 2010, nas vésperas da eleição.

No primeiro episódio, o executivo afirmou que o tucano pediu o pagamento de R$ 1,8 milhão para a empresa de Paulo Vasconcelos. O dinheiro seria destinado para a pré-campanha de Anastasia que, na época, era vice-governador.

Já em 2010, Benedicto disse que o valor solicitado foi "entre R$ 5,5 a R$ 6 milhões". O repasse foi associdado ao codinome "Dengo", que seria referente a Anastasia.

De acordo com o ex-presidente, o dinheiro saiu do Setor de Operações Estruturadas (SOE), conhecido como "departamento de propina" da Odebrecht. Nas duas ocasiões, Sérgio Neves foi apontado como o responsável por viabilizar os repasses, primeiro com Paulo Vasconcelos e depois com Oswaldo Borges.

 

Benedicto afirmou que a doação "tinha uma correlação com a perspectiva de aproximação" com Anastasia e com a "manutenção de um bom relacionamento" com Aécio. O empreteiro ressaltou, no entanto, que "não houve qualquer defesa de interesse ou empreitada da Odebrecht" no governo de Anastasia.

Em seu depoimento, Sérgio Neves confirmou que, em 2009, acertou com Paulo Vasconcelos a criação de um contrato fictício para viabilizar o pagamento de R$ 1,8 milhão. Já em 2010, os repasses foram combinados com Oswaldo Borges, que recebia uma "senha" para receber cada parcela do dinheiro.

Hilberto Mascarenhas afirmou que não conhecia o codinome "Dengo" ou beneficiários dele. Sobre o codinome "Mineirinho" — apontado por Sérgio Neves, em sua delação, como referente a Aécio —, ele disse que o beneficiáripo recebeu "muitos recursos", mas que não sabia a quem o apelido se referia.