Aécio e o luto da esquerda, por Ascânio Seleme

 Ninguém acha que Aécio é uma ideia

*Ascânio Seleme é colunista de O Globo

23/04/18 - 08h48 | Atualizado: 23/04/18 - 09h33

Quando despontou na política, secretário particular de seu avô, Aécio Neves era o retrato perfeito do político jovem e moderno. Claramente destinado a uma carreira brilhante, não foi surpresa quando, sucessivamente, se fez deputado federal, presidente da Câmara, governador de estado, senador da República — e, quase, presidente da República.

Mas era tudo aparência. Não era jovem, era moleque. Parecia moderno, era modernoso. Não encarnava o novo, mas o novidadeiro. Não era inteligente, era calculista. Não tinha ambição, tinha ganância. Não era interessado, e, sim, interesseiro. Parecia altivo, era vaidoso.

À fortuna da família, preferiu as gorjetas dos arrivistas, e trocou a estirpe de Tancredo Neves pela laia de Joesley Batista. Herdeiro da melhor tradição, escolheu ser representante do que há de mais atrasado. Desonrou a si mesmo, ao sobrenome e ao país.

Como o Dorian Gray de Oscar Wilde, Aécio manteve a aparência jovem e impoluta durante anos, enquanto seu caráter, oculto pela hipocrisia, apodrecia em silêncio. Como Gray, assassinou-se a si mesmo — e expôs sua decrepitude em praça pública.

Muitos políticos, talvez a maioria, têm excelentes motivos para tentar salvar o ex-presidente do PSDB, mas, a seis meses da eleição, ninguém o fará. Infinitamente mais digno e inteligente do que o neto, Tancredo dizia que político acompanha o féretro até a beira da sepultura, mas não entra na cova com o defunto.

Aécio está morto e só. E não deixa saudades.

A reação à aceitação da denúncia é emblemática. Ninguém reclamou de falta de provas, nem que eleição sem Aécio é fraude. Ninguém vandalizou casa de ministro do Supremo, nem acampou em frente à casa do réu, nem organizou coro de bom dia. Ninguém incluiu “Aécio” em seu nome, nem afirmou que ele é guerreiro do povo brasileiro. Ninguém acha que Aécio é uma ideia.

Os eleitores de Aécio, cientes de que foram traídos, não lhe dedicam amor, mas desprezo, e a esmagadora maioria comemora que mais um criminoso será punido. Uma minoria, cujos gritos de “e o Aécio?” cessaram, está atônita, e de luto, pois a morte de Aécio inviabiliza a narrativa do “golpe”.

A cada passo, torna-se mais desconfortável defender Lula. Ignora-se a “direita” na cadeia. Descarta-se um oceano de provas. Defende-se o fim da Ficha Limpa. Não se enxerga que Lula foi dos últimos a ser presos, o único a ficar solto até a segunda instância. Não se percebe que o Supremo quase o libertou. Combate-se a prisão na segunda instância. Joga-se fora o ideal de igualdade, razão de ser da esquerda há 200 anos. Faz-se que não se vê Paulo Preto na cadeia, nem aonde isso vai dar. E eis Aécio réu.

A narrativa mais uma vez se adapta: Aécio é um boi de piranha, a denúncia serve para dar a impressão de que a lei é para todos, mas, na verdade, é só para inglês ver: ele jamais será condenado. A cada nova etapa, mais intrincada e espaventosa se torna a teoria da conspiração. Para calar a própria consciência, que brada “acorda para a realidade, companheiro, Lula é culpado!”, é preciso gritar “Lula livre” e xingar os outros de fascistas a cada minuto.

Mas uma hora a realidade se impõe. Quanto maior for o esforço para ignorá-la, maior será a ressaca.