O Brasil e o fenômeno da corrupção “daselites”

Nada do que ocorre em decorrência das operações da Polícia Federal, sobretudo da Lava Jato, é novo no Brasil. Dizer que o PT institucionalizou a corrupção é exagero. Que o PT aumentou e exagerou, não resta a menor dúvida.

A tão decantada institucionalização criminosa vem desde a Arena, passando pelo PDS até chegar ao PFL. E seguiu! Foi sempre um procedimento criminoso histórico. Mesmo com o PT exagerando nas ações criminosas, vejam que os arenistas e seus sucessores continuam todos dentro do mesmo “lamaçal”, conhecidos pejorativamente como “daselites”, termo engendrado para designar vulgarmente “das elites podres”.

No tempo deles, não se investigava e muito menos se denunciava. Aliás, quem se atrevesse era esculachado e perseguido. No Piauí, por exemplo, quantas famílias não sofreram perseguições terríveis. Muitos chefes de famílias morreram e outros partiram para sobreviver em outros lugares. Tudo isso ainda hoje martela na mente de muitos filhos que assistiam a tudo e não podiam fazer nada.

Com raras exceções, evidentemente, porque em toda agremiação partidária tem os bons e os maus, aqueles criminosos “daselites” de tempos atrás eram tão poderosos e malvados que não se satisfaziam apenas em desviar do erário. Partiam para aniquilar quem decidisse desafiá-los. Felizmente, hoje o povo pode denunciá-lo.

No estudo das Ciências Políticas e Sociais, aprende-se que a “Teoria das Elites” surgiu e se desenvolveu pela especial relação mantida entre a classe política e o Estado. Assentou-se na clássica definição de Bobbio, segundo a qual, “em cada sociedade o poder político pertence ao restrito círculo de pessoas que toma e impõe decisões válidas para todos os membros do grupo, mesmo que tenha que recorrer à força, como ultima ratio”.

Não faz muito tempo, a esses grupos descendentes da Arena e do PDS dava-se o nome pejorativo de “oligarquia”. Que na Ciência Política representa “aristocracia”. Para obter e continuar no poder as oligarquias usavam a máxima da “lei férrea”, para representar uma “organização” fantasiada de lícita com a predominação dos eleitos sobre os eleitores; dos delegados sobre os delegantes; e dos governantes sobre os governados”. Não podemos esquecer isso, jamais!

Propositalmente, hoje, cria-se uma "verdade paralela" ou uma “meia verdade”, de que antes não havia corrupção. As ações criminosas contra o erário não podem ser associadas e/ou debitadas apenas ao PT. Que as estendeu em gênero, número e grau. Disso não se tem dúvidas. Mas, também, às entranhas do poder de uma construção deformada durante o regime militar. Os políticos de hoje, com raras exceções, foram produzidos pela estrutura da ARENA. Um fenômeno de caráter degenerativo que passou até chegar ao PT e ao PSDB. Para a infelicidade geral, ninguém escapou!

A ARENA, o PDS, o PFL e o DEM só mudaram de nome. O DEM, fundado em 2007, substituiu o PFL, fundado em 1985, que por sua vez era uma dissidência do sucessor da ARENA, partido mantenedor da Ditadura Militar de 1964 a 1985.

No Brasil, a história comprova fartamente: quando afundam um partido no “mar da corrupção”, apenas trocam de nome. Mas, o produto é o mesmo. Quando “afogados” no crime, dizem: “vamos ‘refundar’ nosso partido”.

Aqui e acolá, vozes vociferam: “No regime militar não havia corrupção. Tanto que os militares que governaram o Brasil morreram à míngua”. Que morreram pobres, tudo bem. Mas, que não havia corrupção na época deles é uma mentira deslavada.

Um relato bem didático e sintético do que os militares fizeram é descrito pelo historiador Carlos Fico, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no livro “Como Eles Agiam: os Subterrâneos da Ditadura Militar”.

Conforme relata Carlos Fico, para moralizar o país criou-se a Comissão Geral de Investigação – CGI. Sua incumbência era investigar os subversivos e os corruptos. Com o andar da carruagem, os subversivos foram “esquartejados”, porém, os militares acabaram se tornando prisioneiros dos corruptos.

“O problema mais grave do Brasil não é a subversão. É a corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar”, admitiu o então ministro Estevão Taurino de Resende, o primeiro presidente da CGI. Suas declarações foram publicadas por Armando Falcão, Ministro da Justiça no Governo Geisel, no livro “Tudo a Declarar”.

Com os civis desviando os objetivos do regime, o então presidente da República, Ernesto Geisel, foi obrigado a se render: “A corrupção nas Forças Armadas está tão grande que a única solução para o Brasil é fazer a abertura”. Declaração fortíssima registrada no livro “História Indiscreta da Ditadura e da Abertura”, do historiador Ronaldo Costa Couto, doutor pela Universidade de Sorbonne, em Paris.

No texto “Falso Moralismo”, publicado na “Revista de História”, a cientista política Heloísa Murgel Starling diz que na ditadura “havia privilégios, apropriação privada do que seria o bem público, impunidade e excessos.” A propósito, o general Glauber Vieira, em depoimento aos professores Celso Castro e Gláucio Ary Dillon Soares, em seu livro “A Volta aos Quartéis - Memória Militar Sobre a Abertura”, foi honesto e incisivo: “houve deslizes de que eu mesmo, na época, tomei conhecimento”.

No tempo em que os escândalos foram se sucedendo, descobriu-se que os civis da Arena e do PDS elevaram a dívida externa de 4 bilhões para 114 bilhões. Geraram uma hiperinflação quando, nas décadas finais do regime, fizeram a coisa mais idiota que se pode fazer em termos de economia: imprimir moeda para custear os rombos da corrupção.

Então, a história comprova que a institucionalização da corrupção no Brasil não é de agora e nem foi insculpida por partidos políticos de agora. Denota, pois, aos tempos da Arena, do PDS e seus sucessores. Foi, enfim, implantada no serviço público pelos civis “daselites” que bajulavam os militares com coquetéis, tendo a sua maioria permanecida até hoje corrompendo e sendo corrompida no poder público.

Como pôde o MDB/PMDB de Ulysses Guimarães se corromper? Por que o PSDB e o PT inverteram seus princípios? O que explica o DEM e o PP continuar envolvido e mergulhado no passado da Arena, do PDS e do PFL? A resposta é simples: o “DNA” da ARENA e do PDS.

Em quase toda lista de corrupção, peculato, escândalos, ficha suja, evasão de divisas, propina e organização criminosa, partidos diversos ainda continuam contaminados pelo tenebroso histórico da ARENA e do PDS. Muitos encerraram a vida política. E os que mudaram de sigla continuam agindo, superando-se como “políticos escandalosos”.