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Airton Franco

Nossa índole macunaímica de ser

terça, 05 de abril de 2011 • 13:55
Não raras vezes taxamos nossos políticos de cínicos. Tantas são suas atitudes desavergonhadas que, não raro, induz-nos a pensar que o crime compensa, pois entre eles - nossos políticos - tudo parece ser normal, sobretudo nos embates eleitorais quando tudo é válido como modo de prevalecer a melhor versão pública - sempre no interesse deles, que, em sua imensa maioria, fazem da política (com o “p” em minúsculo) um meio de vida - pouco importando se falsa ou se verdadeira tal versão. O que importa é que eles vençam ainda que por efeito dos inúmeros crimes cometidos.

Em suma, quando a questão é política o cinismo é disfarçado pela versão pública “marqueteira” controlada por interesses econômicos e midiáticos que fomentam a discórdia e, paradoxalmente, mantêm o ego da esperança vivo, pois o ser humano é, em essência, desarmônico e contraditório.

É por isto que a história só conhece os loucos e só registra, em regra, as situações que dão errado. Eis nosso eterno modo neurótico de ser!

E assim, atônitos, assistimos, no Brasil, aos frequentes tsunamis de corrupção que se acentuam na incorrigível síndrome do cinismo eleitoral. Felizmente, apesar dos pesares, não temos um mandante eterno da Nação e tampouco um Armageddon autoritário ameaçando o sagrado direito de criticar, apregoando um falso rigor sem se dar conta de sua própria falta de rigor.

Tanto é assim que, a propósito de nota jornalística incisivamente ofensiva contra o Poder Judiciário de Santa Catarina, o ministro Celso de Mello, em recente decisão, com singular acerto, pontuou: “... assegura, a qualquer jornalista, o direito de expender crítica, ainda que desfavorável e mesmo em tom contundente, contra quaisquer pessoas ou autoridades”, e, “... o direito de crítica encontra suporte legitimador no pluralismo político, que representa um dos fundamentos em que se apoia, constitucionalmente, o próprio Estado Democrático de Direito.”.

Entende-se, por conseguinte, o porquê da eleição de nossos Tiriricas. Eis uma forma de evidente protesto. No fundo eles são iguais aos deslavados e cultos, mestres da enganação em dizer sempre que o povão mais quer ouvir e da versão pública conveniente aos reais interesses, raramente legítimos...

Dizemos isto para dizer que, a bem da verdade, não temos razão alguma para reclamar de nossos políticos desonestos. Pois eles nada mais são do que o retrato de nossa índole macunaímica de ser.

Explicamo-nos:
Quem não fala ao celular enquanto dirige; Quem, diante da carga tributária abusiva, não registra no, Cartório, imóvel com um valor abaixo do comprado; Quem, diante do caos de nosso trânsito, não estaciona seu veículo bem debaixo de placas proibitivas; Quem, do modo mais natural, não oferece seu voto pela obtenção (ou sua promessa) de cargo comissionado em favor de pessoa da família; Quem, achando que é perfeitamente normal, não fura fila ou vangloria-se de toda sorte de vantagem camuflada na famosa lei de Gerson; etc...

Bem de vê que o bom exemplo é coisa de se exigir dos outros; de nós não!

Neste sentido, nossos políticos, agora, na ânsia de melhorar sua imagem pública, propalam urgente necessidade das reformas política e tributária.

Não nos iludamos, portanto, que esse negócio de lista fechada é um despautério. De igual modo, o financiamento público de campanha só faz sentido se se mudar a essência do sistema. Como eles não podem legislar em causa própria, qualquer mudança que venham a adotar deve valer, prospectivamente, para, no mínimo, daqui a dez anos.

A questão, em mais, é saber se é possível mudar a essência do sistema político-tributário? A resposta é afirmativa. Basta vontade moral e política. Não foi possível mudar, com amparo na informática, a essência do nosso sistema bancário? Quem não se lembra - acerca de quinze anos passados - de nossa absoluta dependência à burocracia e às filas em Bancos; e hoje resolvemos tudo com um simples cartão eletrônico... Nosso mundo, depois da reforma do sistema bancário, ficou mais fácil e cômodo.

Neste sentido, pensamos que a informática pode automatizar e mudar, por exemplo, com eficiência e segurança, nosso sistema tributário arrecadando e distribuindo automaticamente os tributos conforme as competências constitucionais, acabando, enfim, com essa espúria atuação de políticos, em Brasília, de Ministério em Ministério, correndo atrás da liberação de recursos para atendimento, segundo sustentam, de suas bases ou mesmo de emendas orçamentárias que fomentam inevitável desvio de recursos como modo de assegurar, por tal conduta maquiavélica, suas reeleições...

O reajuste anual do imposto de renda pela internet, afinal, não é um sucesso, sem volta!

Se isto, em essência, não for mudado, nada efetivamente mudará. Tudo quedará como antes. Tudo redundará em discurso de enganação e de versão pública equivocada destinada a manter, incólume, interesses, inda que espúrios...

Enquanto isto, ou seja, enquanto a verdade das palavras não impera, finalizo este artigo com uma frase lapidar de Confúcio: “Quando as palavras perdem seu significado, as pessoas perdem sua liberdade”.

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