
A tese segunda a qual a política é dinâmica e refratária a previsões mais duradouras é decantada por número expressivo de líderes e comentaristas políticos. Em tal lógica, o jogo político jamais se enquadraria em qualquer modelo analítico e, em decorrência, a competição política entre os atores partidários não se submeteria aos ditames duma pretensa interpretação científica.
Certamente, quando se analisa o fenômeno da política e do poder nenhuma previsão determinista é crível e a possibilidade de errar é altíssima. Entretanto, como algumas regularidades se apresentam, parece possível se vislumbrar alguns passos e estratégias dos competidores envoltos na disputa pelo poder.
As eleições de 2010 no Piauí levantam inúmeras suposições quanto à formação de candidaturas e composições de alianças eleitorais visando à conquista do Palácio de Karnak. Uma, contudo, destaca-se: na visão dalguns “çábios” da política piauiense, o PSDB, através do prefeito Sílvio Mendes, conseguiria com notável margem de segurança, conquistar o governo estadual. Discrepo!
A suposição dos “çábios” parte do seguinte: Sílvio Mendes (PSDB) se elegeu com mais de 70% dos votos válidos em 2008 e repetiria desempenho semelhante em 2010. Agregaria, além disso, o capital político do PTB de João Vicente, pois deixaria o controle da capital sob o comando do vice-prefeito Helmano Férrer (PTB). Tudo aconteceria conforme o planejado. A eventualidade do erro está ausente. Tal interpretação, todavia, é manca e inconsistente.
A eleição de 2008 para prefeitura da capital foi completamente atípica. O candidato da oposição Nazareno Fonteles (PT) não obteve apoio do bloco governista estadual e a maioria dos “aliados” votaram contra o cardeal ou não participaram da campanha. O cenário de 2008 não se repetirá ao menos por uma razão óbvia: a lógica dum pleito majoritário para governador é inteiramente oposta a duma de prefeito. Em 2010 todos os partidos relevantes no plano estadual ativamente participarão da disputa eleitoral. Com interesses opostos, diga-se.
Mas, onde “a tese do cavalo selado para tucano ver” é mais delicada está noutro norte. Acreditar que o senador João Vicente (PTB) renuncie à disputa do governo estadual em nome do candidato tucano, com menos chances e condições objetivas, é algo, no mínimo, surpreendente. Seria um ato de altruísmo político jamais visto na história política deste país ou Estado. Preferir ser governado a governar não consta na racionalidade de nenhum político.
Desse modo, quais motivos ou razões levariam um candidato com potencial de crescimento eleitoral e sem muito desgaste político a renunciar a uma disputa onde poderia liderar diversos atores e segmentos políticos? O medo de sair pela oposição? Confrontar um governador sem a chamada “perspectiva de poder”? Não faz sentido algum.
Outro fundamento real parece enfraquecer mais ainda a “tese do cavalo selado para tucano ver”. Na hipotética situação duma candidatura de Sílvio Mendes (PSDB) ao governo do Estado, o PSDB se encontraria na mesmíssima situação vivenciada por Firmino Filho em 2002: o governo estadual ou nada. O risco é altíssimo e o tucanato teresinense é avesso a estratégias ousadas.
No fundo, a conjuntura política se encaminha para o fortalecimento da candidatura do senador João Vicente (PTB). Se o mesmo aproveitará tal oportunidade é questão diferente. Desse modo, os estrategistas políticos tucanos e, também petistas, deveriam interpretar adequadamente os padrões ou regularidades políticas esboçados nestes últimos tempos na política estadual.
Veja-se esse hipotético cenário: se o prefeito Sílvio Mendes (PSDB) candidatar-se ao governo estadual em 2010 e perder as eleições, o que resta ao tucanato teresinense? Quase nada. A renúncia do governador Wellington Dias (PT) buscando uma vaga no Senado Federal, beneficiará quem? Ao petismo, dificilmente.
Tucanos e petistas, no processo sucessório de 2010, viverão semelhante situação para o futuro de seus interesses partidários. Aos emplumados e vermelhos toda a cautela será pouca. Ou do contrário, estarão prestes a patrocinarem e reeditarem o folclórico “Acordo de Oeiras”. Sumariando, a política tem sua lógica e é, no limite, minimamente previsível.
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