Uma promessa não cumprida pelo regime democrático era evitar o governo de minorias sobre a maioria. Tal objetivo se mostrou inatingível. Em regra, o processo decisório, na implementação de políticas de todos os tipos (econômicas, sociais, financeiras, etc.), compete a um número pequeno de representantes.
Um discurso manipulado por um setor que se autodenomina esquerda, no estado do Piauí, é precisamente esse: “as oligarquias piauienses e brasileiras já tiveram suas oportunidades e governaram o Piauí por mais de dois séculos”. Essa elite preconiza o novo negando qualquer contribuição doutros setores às mudanças que ocorreram na estrutura social e politica piauiense.
Não obstante o discurso de “oligarquia nunca mais”, o que realmente mudou na composição dos governos petistas em 2002 e 2006? O padrão familístico foi substituído por outro diferente? Ou no mundo político petista a lógica assemelha-se a períodos anteriores? O que os pleitos eleitorais realizados entre 1982 e 2006 e a montagem desses dois governos nos informam?
Um primeiro ponto diz respeito aos candidatos a governador: das sete eleições realizadas no período de 1982-2006, o petismo apresentou Nazareno Fonteles duas vezes (1986 e 1994) e Wellington Dias (2002 e 2006) outras duas candidaturas. O ex-secretário de fazenda Antônio Neto concorre ao Palácio de Karnak em 1990. A renovação nas disputas não apresenta nenhum padrão de alternância quanto aos demais partidos políticos. Freitas Neto (PSDB), apresentado como o “grande oligarca piauiense” pelo petismo, disputou em 1986, quando perdeu, e 1990, consagrando-se vencedor.
Analisando-se os dados para prefeitura de Teresina, verifica-se uma enorme semelhança: Nazareno Fonteles (PT) concorre duas vezes (1996 e 2008), Wellington Dias disputa em 2000 e a deputada estadual Flora Isabel concorreu em 2004. Para comprovar empiricamente a hipótese da “oligarquia vermelha” note-se mais a montagem do secretariado do segundo governo de Wellington Dias e cargos ocupados por petistas no executivo estadual. Nesse ponto, existe uma prova concreta da “oligarquização vermelha” em solo paiuiense.
A Secretaria Estadual para Inclusão da Pessoa com Deficiência (SEID) é ocupada pela esposa do governador e candidata a ocupar uma vaga na ALEPI, Rejane Ribeiro Sousa Dias. A Secretaria Estadual de Educação (SEDUC) fica sob o comando de Antônio José Medeiros, pré-candidato ao governo do estado. Antônio Medeiros, por sua vez, é cunhado do Presidente da Agespisa, Merlong Solano. Solano é irmão do vereador Décio Solano (PT). Na Agespisa aloca-se ainda o tio do governador, José Araújo Dias, gerindo a Diretoria de Gestão Comercial. Viviane Moura, ex cunhada do governador, é ocupante das Diretorias Administrativa e Financeira da Agespisa. A irmã da deputada estadual Floral Isabel, Gilvana Nobre Rodrigues Gayoso Freitas, é secretária de Estado da Assistência Social e Cidadania (SASC). Na mesma linhagem, Jesus Rodrigues Alves, presidente do DETRAN é, também, primo da mesma deputada.
Há mais “laços vermelhos”. Marcelino Fonteles ocupa a Agência de Desenvolvimento de Habitação do Piauí (ADH). Marcelino Fonteles é irmão do deputado federal Nazareno Fonteles. Juntando-se as disputas para governo do estado e prefeitura de Teresina, o cardeal Fonteles foi quem mais concorreu a cargos majoritários no período entre 1982-2006, superando até o senador Mão Santa (PSC). Continuando, o ex-secretário de fazenda e candidato a deputado federal Antônio Neto é esposo da vereadora Rosário Bezerra (PT). A fundação CEPRO é dirigida por Oscar de Barros, esposo da secretária estadual de segurança alimentar, Rosângela Maria Sobrinho Sousa.
Diante do exposto, parece difícil aceitar a tese petista da existência de outro padrão de recrutamento para a classe política piauiense e gestão administrativa no Piauí. Os laços de consanguinidade e parentesco, talvez, tenham sidos critérios determinantes para ocupar postos, secretarias, coordenadorias e agências na montagem dos gabinetes nestes dois mandatos do governador Wellington Dias (PT).
Logo, o bordão “oligarquia nunca mais” soa somente como uma tediosa e cansativa cantilena que esconde a face fisiológica dum partido que se rotula como o mais “avançado e progressista” do Brasil e Piauí. A oligarquia se metamorfoseou: se era amarela, agora se tornou vermelha. A questão central para os cientistas políticos é entender a “continuidade na mudança”.
Cleber de Deus – Doutor em Ciência Política e Professor da UFPI.