A eleição para o governo estadual em outubro, segundo as intenções de votos expressas nas pesquisas de opinião dos diversos institutos de pesquisa, vem seguindo uma trajetória diferente de pleitos anteriores nas disputas para o Palácio de Karnak.
O padrão de competição assumiu um contorno diferenciado. Se em eleições anteriores a lógica das disputas girava em torno de duas candidaturas, atualmente um terceiro ator político (o tucanato teresinense) adentra ao quadro eleitoral e partidário do subsistema político piauiense. A estrutura política bipartidária vigente na fase anterior (PFL versus PMDB) estrutura-se hoje sobre outro alicerce: PTB e PSB. Além disso, incorpora esse terceiro bloco político.
A grande questão posta por analistas da política piauiense é saber se o bloco partidário montado na capital Teresina teria robustez suficiente para se viabilizar como uma opção concreta na disputa de 3 de outubro. Muitos duvidam dessa possibilidade. Outros parecem acreditar que o tucanato se constituiu como uma real alternativa aos dois outros blocos políticos dominantes na política piauiense.
Do ponto de vista de uma análise mais rigorosa e sistemática, como se poderia interpretar essa questão? As evidências empíricas do quadro eleitoral e partidário estadual corroboram, ainda que parcialmente, qual leitura? Ou os dados são insuficientes para se afirmar algo definitivo nessa direção?
Um primeiro ponto para se responder tais indagações é destacar a estabilidade das preferências políticas do tucanato na capital. Por quase duas décadas o PSDB foi capaz de manter uma hegemonia política nas eleições para prefeitura de Teresina. Em virtude disso, elegeu sucessivamente candidatos com um perfil descrito como “técnico”. O pleito de 2008 consolidou esse “modelo” de recrutar os candidatos tucanos para prefeitura teresinense.
Contudo, outra questão relaciona-se a essa: porque o tucanato não ultrapassou os limites da capital nesses quase 20 anos. Como conseguiria isso agora em 2010 com uma candidatura de perfil semelhante? Como o tucanato deixaria de ser “munipalista” para se tornar num bloco político de “feição estadualista”?
A hipótese aventada para se responder o problema acima é: a estrutura do processo decisório no PSDB é extremamente centralizada. As lideranças políticas, excetuando-se os casos de sempre, monopolizam as decisões impossibilitando a entrada de novos atores políticos ao centro do núcleo partidário tucano. Assim, a margem de manobra para se ampliar a articulação política seria extremamente limitada. A cartelização do processo decisório impediu o tucanato teresinense de ser uma força política de âmbito estadual.
Se assim o for, como explicar então a liderança do pré-candidato peessedebista nas pesquisas de intenção de voto ao governo estadual? Quais variáveis teriam poder explicativo para se entender esse fenômeno sem nenhuma explicação aparentemente plausível? A provável resposta reside na história política do Piauí nessa segunda fase democrática, o pós-1985.
O comportamento político do eleitor piauiense desde 1982 apresenta uma característica marcante. Excluindo-se os anos de reeleição (1998 e 2006) o eleitorado piauiense não elege o candidato indicado pelo partido do governador. Por tal linha de raciocínio, a liderança provisória nas preferências de votos do pré-candidato tucano, encontraria uma explicação. O eleitor piauiense comportou-se dessa maneira nesse período.
O teste deste argumento se dará agora em 2010 precisamente pelo fato de que o governador concorrerá à reeleição. A depender do resultado deste pleito, um diagnóstico preciso sobre a existência de um novo padrão de competição política no estado poderá ser auferido. Do contrário, e se a competição política no pleito estadual manter a rota do bipartidarismo para o Karnak eliminando o ex-prefeito da capital, a “bolha tucana” estourará.
Cleber de Deus
Cientista Político e Professor do Mestrado em Ciência Política da UFPI.