O sistema político brasileiro é apresentado como sendo altamente fragmentado. Ou seja, tem um numero excessivo de partidos políticos. Tal característica aumenta os custos de negociação, diz-se, entre o governo e partidos da base aliada produzindo efeitos bastante diferenciados no processo de formulação de políticas públicas.
Aceita essa tese, como interpretar o surgimento de outro partido – o Partido Social Democrático (PSD) - exatamente numa conjuntura que se discute diversas propostas de reforma no sistema eleitoral onde uma das idéias mais defendidas é o “enxugamento” do quadro partidário nacional com quase três dezenas de siglas? Quais são as bases sociais fundadoras, que setores o “novo partido” representará?
O recém-nascido PSD segue o receituário da tradição politica brasileira: surge de dentro do Estado e objetiva reagrupar forças políticas que vêem suas possibilidades de reprodução ameaçadas no médio prazo e sem maiores articulações com grupos e segmentos que expressem concepções políticas, éticas, religiosas, etc., dispersas na sociedade.
Nesse aspecto, o PSD carece de um principio norteador claramente formulado para atuação na atividade eleitoral e parlamentar. É um partido de perfil pragmático, inconsistente do ponto de vista ideológico e com feição fisiológica. Pergunte-se: como esse partido contribuirá para “modernizar” o sistema partidário brasileiro?
Não se defende a construção de um modelo de partido político inexistente mais em nenhuma democracia do mundo: com forte enraizamento social e representador exclusivo de demandas dum único agrupamento político ou societal. A época dos partidos de massa já foi superada.
Entretanto, mesmo num período que prevalece a lógica da valorização da imagem dos candidatos (a “americanização das campanhas eleitorais”) os partidos políticos desempenham funções e cumprem papéis específicos. A questão que o Partido Social Democrático (PSD) precisa responder é se surgiu somente para realinhar forças políticas em fase de decadência ou tem algum propósito diferente no sistema político brasileiro e nos estados da federação.
A maximização das oportunidades eleitorais, em tese, não deve se constituir no elemento fundador de uma sigla eleitoral. Mesmos nas democracias representativas contemporâneas, onde existe “o fenômeno dos partidos sem partidários”, a busca constante de interlocução com a sociedade é meta de qualquer partido político.
A formatação do PSD distancia-se desse pressuposto. A dependência desse partido em relação ao Estado é completa. É da migração exclusiva de parlamentares de outros partidos (PPS, PDT e DEM), sem qualquer consulta as chamadas bases eleitorais, que vem se constituindo tal agremiação política.
O hiato entre a vontade do eleitor, que votou em determinado candidato de um desses partidos, e as atitudes dos parlamentares, cresce exponencialmente. Nesse sentido, a credibilidade das propostas que visam reformular o quadro partidário nacional, paulatinamente, vai se esvaindo. Se em seu nascedouro o PSD comporta-se desse modo, como atuará na atividade legislativa e nas funções de governo?
Assim, a história política brasileira parece reproduzir sempre passos semelhantes. Nas fases propícias às mudanças institucionais, a opção por recuos se constitui na força motora das ações dos atores políticos. A velha tese de conciliar para se estabelecer as condições de reprodução do status quo. A interface entre Estado e Sociedade fica cada vez mais diluída. Quem afinal o PSD representa?