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Marta Tajra

Je suis.. uma tragédia anunciada.

Sunday, 18 de January de 2015 • 03:04


No ano de 1985, uma matéria na Le Figaro Magazine, revista francesa que faz parte do conservador e mais antigo jornal francês ainda em circulação, Figaro, publicou em sua capa o busto de uma mulher com uma coroa, as cores da bandeira francesa e um chador (o véu usado pelas mulheres árabes) cobrindo seu rosto. O instigante e temeroso título dessa matéria “Nós ainda seremos franceses dentro de 30 anos?” (Serons nous encore français dans trente ans?), abordava o velho tema da imigração – assunto que rivalizava com problemas de segurança, a defesa dos direitos dos contribuintes e a desarmonia política entre a esquerda e a direita na política, no próprio Figaro.

Achei a matéria interessante e resolvi guardar para ver o que ia dar. Estava no começo da minha carreira, mas confesso que, ao guardar a revista, não estava prevendo nenhum tipo de tragédia dos moldes como se deu na ultima semana. Mas, o seu editorial, assinado pelo editor da revista, Louis Pauwel, escritor teórico de direita, parece que sim. Ele preparava o coração de seus leitores, avisando: “Este numero traz um dossiê explosivo”.


Em nove páginas, a revista ‘provava’ que a França seria completamente tomada pelos árabes e norte-africanos em 30 anos. Pior: estatísticas feitas por Gerard François, presidente do Instituto de Demografia Política (em projeção para o ano de 2015), sustentavam as profecias do Figaro dizendo que os “ene” (estrangeiros não europeus) seriam 17% da população francesa e não mais de 5%, como era na época: “Enquanto no ano de 2015 a taxa de fecundidade dos franceses será de 1,7%, a do “ene” será de 4,69%”, afirmava com intenções alarmantes a revista.

A reação foi realmente explosiva, como esperava o editor da revista. Na segunda feira – já que não existiam edições dominicais dos grandes jornais franceses – todos os cotidianos falavam do tal dossiê-Figaro. A tal ponto que fez a Ministra dos Assuntos Sociais e da Solidariedade Nacional (sim, é este mesmo o nome do ministério), Georgina Dufoix, lançar um comunicado afirmando que o Figaro “adotou o método Le Pen de manipulação de estatísticas para incitar o ódio racial”.

 Marine Le Pen, do Partido de Extrema Direita (Frente Nacional), famosa pelo discurso  antiestrangeiro,  declarou recentemente que é preciso ‘proteger’ a França e suas fronteiras dos imigrantes. Em 2013, segundo jornal da UOL, ela causou polêmicas ao comparar a presença de muçulmanos no país à invasão nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Resumo da ópera: duas semanas após, Figaro Magazine repetiu a mesma capa – a francesa de chador – que causara tanta indignação e, sob o título “Duas semanas de calúnias”, o jornal respondeu a cada uma das acusações dos jornais concorrentes, agradecendo-lhes pela “publicidade gratuita”.

Resumo da opereta: estamos testemunhando hoje a o anuncio de uma tragicomédia (desculpa o trocadilho de mau gosto) anunciada há trinta anos. Por uma estranha e sinistra coincidência, estamos em 2015. Mudaram apenas os atores, os protagonistas e os endereços dos veículos que anunciaram e/ou foram protagonistas do fato principal. Que como se pode ver claramente, não passa necessariamente pela tal liberdade de imprensa, de expressão, de religião ou seja lá que liberdade for essa.

Mas por uma rigorosa política de defesa de uma identidade francesa (ou/e talvez europeia) seriamente ‘ameaçada’ hoje por estas levas de imigrantes.  Nesse aspecto, o livro do historiador francês Fernand Braudel  - L’Identité de La France (1986) – não deixa nenhuma dúvida de que os últimos acontecimentos na França passam pela defesa do próprio umbigo, mesmo que através de um olhar enviesado.

E não constituem apenas uma mera coincidência histórica.


 

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