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Marta Tajra

Uma Semana Santa diferente

Monday, 21 de April de 2014 • 05:22

Diferente sim, mas nem tanto assim. Na verdade, seria uma semana santa normal para uma cristã verdadeira (ou pelo menos que se diz assim), mas como nunca fui de seguir regras (prefiro reinventá-las, na maioria das vezes), passar a Semana Santa em Teresina e acompanhar a procissão do Senhor Morto, para mim foi como quebrar todas as regras do catecismo desde que eu fiz a primeira comunhão.

Bom, na verdade, a história está mal contada, ou meio contada. Não saí de casa com a intenção de ir para nenhuma procissão na sexta feira da paixão. Fui a convite da jornalista Genu Moraes, para nos reunirmos (juntamente com outro jornalista) e aprovarmos (ou não) um texto que eu tinha preparado para a contra capa de sua biografia. O jornalista em questão era o Kenard Kruel, autor do livro, que só foi aparecer muito tempo depois do combinado.

Para minha surpresa, em vez do Kenard, outros jornalistas e pessoas de áreas afins estavam reunidas na casa de Genu Moraes, que do alto de seus 87 anos, consegue reunir numa sexta feira da paixão, um grupo de intelectuais e artistas da terra com o intuito de apreciar um ato religioso em desuso para a grande maioria da cristandade: a procissão do Senhor Morto. Para quem não sabe, o casarão onde ela mora fica exatamente a poucos metros da Igreja de São Benedito, passagem obrigatória da procissão, no Centro de Teresina.

Bom, já que eu estava ali, não havia nada de mal em esperar e apreciar a famosa procissão que logo passaria. Alguns gatos pingados rodeavam a igreja à espera da procissão que já começava a demorar mais do que o jornalista Kenard. As janelas do casarão onde morou o ex-governador Eurípedes de Aguiar estavam iluminadas de velas e – parafraseando Machado de Assis – acolchoadas e atapetadas de santos (em vez de moças e velhas, como na crônica do bruxo do Cosme Velho). Exatamente como antigamente. Ou mais exatamente, como em 1894, ano dessa crônica de Machado.

Mas nada de procissão. Resolvi então subir o adro da Igreja de Benedito para tentar entender o que estava acontecendo. Se não comigo, com a procissão que não chegava nunca. No interior da igreja, mais alguns gatos pingados que não pareciam preocupados com a chegada da procissão, mas em conversar e rever velhos amigos. Eu mesmo encontrei uma tia que não via há tempos. Gostei do encontro. Assim como de rever a igreja, e até da procissão, que enfim, chegou, provando que, apesar de tudo, a semana santa não se resume apenas a chocolate, bacalhau e vinho. Uma pequena multidão lotou a menor avenida do mundo, em frente ao Palácio de Karnak. E a cerimônia começou... triste e cheia de lamentos, como requer o ritual cristão, ano após ano.  

Depois da procissão, um alegre lanche oferecido pela jornalista Genu aos presentes não lembrava o ato fúnebre do lado de fora do casarão. Falou-se de tudo e de todos. Acertamos o texto da contracapa de sua biografia autorizada e voltamos para casa, todos empanturrados de chocolate e outras guloseimas oferecidas pela anfitriã, elegantemente trajada com seu chapéu cor de rosa de abas largas.

E a vida continuou normalmente. Como requer o ritual cristão. Ou seria dos bruxos?

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