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Marta Tajra

Apelo à Prefeitura de São Paulo e à coletividade libanesa e síria no Brasil

Tuesday, 09 de September de 2014 • 00:01

Na semana de comemoração da Independência do Brasil, a cidade de São Paulo testemunha a depredação de um monumento dedicado ao país pela colônia síria e libanesa. Leia abaixo o artigo de Roberto Khatlab, escritor, historiador e pesquisador da emigração libanesa.

Em 1922, quando o Brasil comemorou o Centenário da Independência (1822-1922), foi erigido no bairro Ipiranga o grande Monumento à Independência do Brasil. Obra realizada pelo famoso escultor e pintor italiano, Ettore Ximenes (1855 –1926), autor de várias obras na Itália, Estados Unidos e Argentina, entre outros. Nesta mesma época, membros da coletividade libanesa e síria se reuniram para  angariar fundos para fazer uma homenagem ao Brasil e aos brasileiros no Centenário da Independência. Conseguindo fundo, encomendaram ao mesmo escultor Ettore Ximenes um monumento para esta mesma comemoração e que seria um presente da “Colônia Síria e Libanesa”.

O resultado foi um belíssimo monumento, verdadeira obra de arte e história. Um pedestal de granito rosa com medidas grandiosas: 9,15m x 8m x 8m e  escultura em  bronze medindo 4m x 2,17m x 2,17m. No primeiro plano do monumento, um barco fenício, com vários personagens, simbolizando os antepassados dos libaneses e sírios, grandes navegadores e comerciantes pelo mundo. No alto do pedestal, três personagens: uma mulher  síria-libanesa oferecendo algo a um indígena brasileiro e, no centro, uma outra mulher,  representando a República do Brasil, com um gesto de abraçar os dois personagens, o árabe  e o indígena,  no sentido de confraternização, de acolhimento. Este monumento foi instalado e inaugurado com pompas no Centenário da Independência do Brasil, nos jardins do Palácio das Indústrias, atual Museu Catavento Cultural e Educacional. Depois, foi transferido, com o argumento de evitar que fosse depredado, para a Praça Ragueb Chohfi, no final da Rua 25 de Março, paralelo à Rua Jorge Azem. Local excelente, pois a região foi base para o progresso de muitos lojistas libaneses e sírios, um local histórico para esta coletividade.

A violação não foi evitada, pois hoje o monumento está depredado e, se não forem tomadas providências, não só o monumento, mas todos os esforços  e memória dos que tanto fizeram para erigi-lo desaparecerão. O monumento já não tem mais as duas placas comemorativas, em português e árabe, onde estava escrito que se tratava de “uma homenagem ao Brasil”. Pressuponho que foram roubadas. Quanto aos personagens em bronze, alguns já estão 'decapitados', faltando cabeças, dorsos, braços, pernas…. O pedestal em granito rosa está pichado. Isso tudo aconteceu, mesmo o monumento estando em uma praça cercada e com o portão fechado, o que impede a visita de turistas, mas não a invasão dos depredadores. 

Esta é uma obra de arte da colônia libanesa e síria, mas tambem de São Paulo e do Brasil. O Brasil tem a maior colônia de imigrantes e descendentes libaneses e sírios no mundo, assim como personalidades desta colonia no  governo, nos negócios, nas artes. Existem inúmeras associações, clubes e instituições libanesas e sírias  em São Paulo e no Brasil. Será que não conseguimos, como conseguiram os antepasados libaneses e sírios, restaurar, proteger e iluminar esta grande obra de arte que a colônia libanesa e síria ofereceu ao Brasil no seu Centenário da Independência?  

Roberto Khatlab é diretor do Centro de Estudos e Culturas da América Latina da Universidade Saint-Esprit de Kaslik e pesquisador no Centro de Estudos da Emigração Libanesa da Universidade Notre Dame, no Líbano. Autor de vários livros sobre as relações Brasil-Líbano, entre eles Mahjar, Saga libanesa no Brasil (bilíngue português-árabe), Editora Mukhtarat, Beirute, Líbano. É também o autor do importante Guia Turístico e Cultural do Líbano (o único em português), que será relançado em outubro próximo em Teresina, pela Editora Zahle. 

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