Engraçado! A simples menção dessa palavra já deixa qualquer ser humano de cabelo em pé. Não entendo o por que disso, pois desde que nascemos, sabemos que a mudança é a única coisa certa na famosa ‘ordem das coisas’. O Universo muda quando se expande, a Terra muda de estação, o dia muda da luz para as trevas (e vive versa), as flores mudam de cores e de perfume, o arco-íris de lugar... Tudo muda, está previsto na lei da vida. Mudança prevê fim. Fim de algo e recomeço de outro algo. Essa é a beleza da mudança. Ela não nos deixa estagnar. Nos força a evoluir, sempre. Por isso, para mim, ela é sempre bem-vinda. Mas, eu sei que, para a maioria é um terror.
Há 15 dias mais ou menos, mudei de endereço pela terceira vez em apenas cinco anos. Minha mãe diz que eu sou uma beduína legítima. Vai ver, sou mesmo. Só falta a tenda. Gosto de mudar, gosto de mudanças. Elas trazem algo novo na vida da gente. Tira o mofo e o gosto pela acomodação. Somos seres de hábitos e, às vezes, hábitos tão arraigados que repetimos seguidamente, como meros robôs , os mesmos gestos, as mesmas palavras, o mesmo itinerário (tanto na vida, como no trabalho e nos relacionamentos...tire a prova e observe isso em você mesmo, amanhã). Parecemos criaturas sonâmbulas, previsíveis, apavoradas com qualquer coisinha que saia da rotina programada do dia a dia.
Nada contra a rotina, às vezes é até necessária e saudável. Mas, tem limite também. Se bobear, viramos escravos dela e...lá se vai a vida embora! Mas, voltando ao assunto, percebo em cada mudança que faço uma série de coisas impossíveis de se observar nas armadilhas do dia a dia. Estamos tão envoltos à nossa rotinazinha diária que não reparamos, o mais importante: o tanto de tralhas (sim, são tralhas mesmo!) que acumulamos. E quando acumulamos tralhas em nossos ambientes é porque estamos acumulando tralhas na mente e no coração também. .
Aí vem a seleção darwiniana, a parte mais difícil. Impera a lei do mais forte quando precisamos, inclusive, nos desfazer de coisas de valor sentimental...mas, que não tem mais nenhuma praticidade na vida da gente. O que é necessário e o que não é mais necessário? O que levar e o que deixar? E a seleção continua... Geralmente, em cada mudança dessas (estou virando uma expert nisso), me livro de 80% dessas tralhas. Não, menos... digamos 50%, ou talvez um pouco menos.
Mas, nem sempre foi assim. Inicialmente eu dava um jeito de levar tudo e, pior, acomodar tudo, mesmo que o espaço fosse menor. A pior parte eram os livros, era como se eles fossem parte de mim. Até que descobri o óbvio. Alguns desses livros eu nunca ia ler na vida (tinha mania de comprar livros), outros eram livros que eu já tinha lido, mas não ia mais reler, e o mais óbvio de tudo: agindo dessa forma, estava privando outras pessoas de ler. Então resolvi doar. Deu certo.
Apliquei a mesma teoria aos móveis, roupas, sapatos, bijuterias... quis provar o velho jargão da arquitetura, onde ‘o menos é mais’. Deu certo. Menos tralhas, mais espaço para o novo. Lembro que quando fui conhecer a Turquia (ia passar apenas três dias), levei ...uma mala. Sim, uma mala, cheia de coisas que eu sabia de antemão que não ia precisar. Tá certo que não era uma mala grande, mas mesmo assim, era uma mala e eram apenas 3 dias. Uma sacola de mão quebrava muito bem o galho. Meu guia se assustou (quando viu a mala) e perguntou se tinha prolongado o itinerário da viagem.
Achei que estava de sacanagem comigo (ele era um arqueólogo acostumado a passar dias em escavações no meio do deserto, com o mínimo necessário), mas hoje eu compreendo o que ele quis dizer. Não usei nem a metade do que estava naquela bendita mala. Mas, tudo bem, a rainha de Sabá, em visita ao rei Salomão, foi seguida de uma caravana enorme de homens e camelos...todos carregadinhos de ouro,incensos, jóias e pedras preciosas para dar de presente ao rei. E, claro, perfumes, roupas suntuosas e jóias pessoais... para impressionar o rei, que - diz a lenda - ficou realmente impressionadíssimo. Mas, como eu não sou a rainha de Sabá e nem pretendo impressionar o rei, vou tirando o desnecessário da minha vida (incluindo pessoas ...sim, há pessoas que às vezes pesam muito na nossa vida também).
Os verdadeiros beduínos, homens e mulheres que vivem no deserto, carregam o mínimo necessário para a sua sobrevivência, e isso inclui, além da tenda e dos tapetes, pouquíssima roupa, armas e alguns utensílios domésticos para a preparação do pão, chá, e outras comidas básicas. É uma filosofia interessante e que nos faz pensar: por que precisamos acumular tanta coisa na vida?
Meu guia da Turquia me convenceu de que a experiência de passar alguns dias no deserto numa tenda de beduínos é única, inesquecível e maravilhosa. Sabe que ele pode ter mesmo razão? No meu caso, quem sabe, eu não adquiro mais know how e viro uma beduína de verdade. Só não poderei dispensar neste ‘tour exótico’, meu computador (a velha mania de registrar tudo). Mas, acho que uma pequena caderneta e um lápis quebrariam o galho. Afinal, muito melhor do que registrar e acumular conhecimento é sentir a vida e tudo que ela nos oferece, em vez de estarmos loucamente preocupados em acumular tralhas. É ou não é?