Foi assim que eu senti a presença do pintor holandês Vicent Willen Van Gogh, na palestra em que o médico paulista Armando José China Bezerra proferiu na última sexta feira (14) numa noite deliciosa no Blue Tree Rio Poty Hotel. Ele falou sobre um Van Gogh perigosamente louco, mas igualmente genial. As duas faces de um mesmo Van Gogh: ora louco, ora genial. Ora, ora... mas toda loucura não teria uma pitada de genialidade? Questionei ao palestrante, no final de tudo. Ele afirmou que nem sempre, três dos irmãos do pintor também ficaram loucos, porém sem nenhum traço de genialidade artística ou científica, que seja. Ah, bom! Já pensou três Van Gogh numa família só?
Mas, a loucura de Van Gogh tinha seu traço de genialidade, reconhecida infelizmente somente após a sua morte – num obscuro quartinho de uma obscura cidadezinha francesa (Auvers-sur-Oise) cercado apenas por seu médico e seu irmão Theo, que o acompanhou durante toda a sua vida e respectiva loucura.
O Dr. Armando, renomado psiquiatra morador de Brasília atualmente, e com livros escritos sobre a estreita ligação entre arte e medicina, investigou cuidadosa e carinhosamente os passos de Van Gogh durante os últimos 3 anos de sua vida. Foi este o assunto de sua palestra, promovida pela Academia Piauiense de Medicina do Piauí, sob a direção do Dr. Lauro Filho. E, quando eu digo ‘investigar’, quero dizer investigar mesmo, tal e qual um detetive quando segue os passos de um criminoso. Mas, Van Gogh não cometeu nenhum crime. A não ser o dele próprio.
A orelha decepada e o tiro certeiro que o matou 3 dias depois, fazem do pintor famoso e carésimo um prato cheio para qualquer psiquiatra apaixonado pela sua profissão... e pela arte, mesmo no século 21. O Dr. Armando apaixonou-se pela vida de Van Gogh, pela arte dele e até pela sua loucura. Visitou cidades onde o artista viveu, lugares como a Casa Amarela, onde ele morou na França, num quarto ao lado de Paul Gauguin (esta casa, retratada em um de seus quadros, não existe mais, foi detonada por uma bomba durante a segunda guerra mundial); visitou hospitais onde ele foi internado, e até a plantação de milho onde Van Gogh deu o tiro certeiro que finalmente lhe tirou a vida, em 1890 aos 37 anos.
Sempre comparando os lugares que visitava com as pinturas do pintor e fazendo uma análise (psiquiatra e artística) do 'seu paciente', no final, o diagnóstico preciso: Van Gogh era um bipolar de carteirinha. De médico, o dr. Armando virou botânico para estudar a bebida preferida do pintor famoso, o absinto, derivada de uma planta de nome científico muito complicado que não interessa nesta crônica. Mas, que influenciou decididamente na sua doença.
Em sua palestra, o Dr. Armando falou entusiasmado de um Van Gogh triste e deprimido, sempre às voltas com a vida e a profissão (não acertava uma) e que se apaixonava sempre por mulheres impossíveis (a última foi a filha de seu médico)...enfim, um perfeito fracassado na vida, segundo o nosso atual modelo de fracasso humano. E aí, penso eu, consiste a grande lição de Van Gogh: depois da morte, o sucesso fenomenal em nível mundial. Um quadro do pintor hoje, custa uma pequena fortuna que milionários do mundo inteiro não titubeiam antes de adquirir em leilões de arte.
Ele estava na frente de seu tempo ou valorizamos demais a morte em detrimento da vida? Uma total inversão de valores? Ou é o nosso modelo de sucesso e de fracasso que está completamente fora de moda, desatualizado e precisando urgente de uma completa revisão? Lição de casa: pense nisso.
Abaixo, algumas fotos do palestrante e do público presente ao hotel. Na última foto, no Favorito Grill (mídia grátis, primo!), amigos que estavam na palestra se reuniram para uma aconchegante conversa fechando a noite agradabilíssima. De parabéns, o Dr. Lauro Filho, através da Academia de Medicina que sempre tem trazido pessoas desse nível, para nos enriquecer com a sua loucura...ops! Com a sua genialidade.
