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Marta Tajra

Dando um tempo no calendário

domingo, 01 de janeiro de 2012 • 20:45

Não sei se o leitor pensa como eu, mas existem alguns momentos na vida da gente, onde tudo que queremos é sumir, desaparecer, dar um tempo... não só dessa vida agitada, trabalho, filhos, trânsito, como de tudo que significa compromisso. Mais do que ganhar na mega da virada, era este o meu maior desejo desse final de ano. Dar um tempo de tudo e de todos. Quer dizer... de quase todos. Queria sumir, sim, mas, de preferência muito bem acompanhada. Não, não estou falando de uma turma legal (aquela que a gente curte o ano inteiro), e nem de familiares ou de colegas de trabalho. Estou falando em sumir com alguém que acalente a solidão que sentimos no fundo da alma, mesmo vivendo cercada por uma pequena multidão, hospedeira do nosso dia a dia. Final de ano é prato cheio para sonhar com este sumiço previamente desejado e acalentado nos 365 dias em que a Terra dá seu giro completo. 

Mas, a questão é: para onde e com quem? Ora, para uma praia paradisíaca ou um chalezinho aconchegante na serra...diria o meu leitor, que já deve estar ficando curioso com o final dessa história. Mas, eu rebato prontamente. Nada disso. A preferência seria por um lugar ultra secreto onde eu pudesse me sentir protegida e ao mesmo tempo refugiada. 

Protegida de quem? Perguntaria o leitor mais curioso ainda - Do meu computador, do meu carro, da minha televisão, celular...e de tudo que faz parte da ‘civilização dita moderna’.
 
Fácil, diz novamente o leitor achando agora que já sabe tudo a meu respeito. Volte para as suas origens. De preferência para o meio de um deserto e fique acampada numa tenda tuareg onde só as estrelas - bem visíveis a olho nu - fariam parte desse mundinho ultra secreto. 

É uma boa idéia, respondo eu admirada com a criatividade do meu leitor. E aí lanço mais um desafio para ele: o mais difícil seria encontrar alguém da minha inteira confiança e que quisesse me acompanhar numa aventura, digamos assim, tão diferente. 

É, pensa o leitor intrigado. Realmente para essa jornada nas estrelas, não poderia ser qualquer um não. Teria que ser alguém, digamos assim, muito especial. 

E corajoso, complementa eu. O deserto decididamente é um lugar para pessoas fortes, apaixonadas, destemidas e corajosas (Puxa! será que eu exagerei neste perfil, agora?).
 
Bom, admito que voltamos ao ponto zero caro leitor , mas enquanto este ‘guerreiro do deserto’ (risos) não aparece, continuo pensando neste lugar secreto e planejando essa fuga estratégica, onde eu, aliás, nós (eu e meu acompanhante invisível) possamos nos refugiar de uma realidade tão previsível e quase sem nenhum encantamento, como se transformou a nossa, atualmente.  
 
Uma semana seria o suficiente para renovar a alma, o espírito e até o corpo. Uma semana sem compromisso nenhum, a não ser com a alegria de espiar as estrelas que, de tão próximas, poderíamos até pegá-las. A alegria de descobrirmos um ao outro, sem a interferência de buzinas tresloucadas tocando sem parar, celulares cobrando compromissos de trabalhos, televisões anunciando o fim do mundo, aviões explodindo no ar, etc , etc e tal. Uma semana pertinho de Deus, ouvindo e sentindo o silêncio altíssimo do deserto, quente de dia e gelado a noite. Uma semaninha, eu e este guerreiro corajoso, completamente envolvidos pela magia de um lugar como esse... e nada mais.! 

Você adivinhou? Sim, meu coração é como um beduíno solitário que perambula num grande deserto a uma distância considerável de um oásis. E, enquanto este oásis não surge, voltamos ao ano 2012 da nossa Era Cristã. E para acalentar os 365 dias de meu querido ou querida leitor(a), deixo outra pérola de um dos meus escritores favoritos: 

"Para sonhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre." (Carlos Drummond de Andrade).

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