Reflexões de uma Cadela Vira-Lata
domingo, 15 de janeiro de 2012 • 23:47
Uma cidade chamada Sem nome, situada no interior do agreste nordestino e uma cadela de nome Sabiá. Este é o principal cenário que norteia o livro do colunista social, o jornalista Rivanildo Feitosa, lançado recentemente pela Editora Mirabolante, do Rio de Janeiro. Nada demais até aqui, se não fosse um pequenino detalhe. Sabiá, a cadela protagonista passa toda a trama do livro querendo ser gente, mais especificamente querendo ser mulher. Não se conformava em ser apenas uma simples cachorrinha, e ainda por cima, uma vira lata. Onde já se viu isso...
Decididamente não. Ela tinha que usar de seu “livre arbítrio” concedido pelo Criador (afinal, tinha pés, mente criativa e fogo no rabo, como diz o autor) e passar por tudo aquilo que um ser humano normal passa na vida, ou seja, sofrer, desejar, chorar, trair, roubar...amar. Ao longo das quase trezentas páginas do livro, vão surgindo personagens que dão o tom e um colorido especial ao texto, tais como a Velha Enfezada, as Maria Faladeiras, Chico Cabeludo, as rezadeiras, a Mulher Macho, Madalena ( a mulher valente), Kaká( o menino das sessões fogosas do ‘troca troca’ ), a vizinha Marineide, Jeremias (o velho professor que introduziu Sabiá no mundo das letras), Bubu (a noiva morta de Zeca Macho), Maria Bandeira (a rezadeira que era uma bruxa também)... e até São José, que aparece no texto com a missão quase impossível de fazer chover naquele pequeno pedaço de chão nordestino.
Esses personagens vão desfiando sua ‘via crucis’ numa linguagem bastante acessível, às vezes engraçada, e narrando as peripécias de uma cidadezinha pobre e esquecida do mundo, com fatos como a chegada da eletricidade, da televisão, os preconceitos, a religiosidade a flor da pele, o sexo irracional... tudo em uma linguagem metafórica, fruto da própria vivência do autor.
É claro que a sonhada viagem ao sul do país, povoa o imaginário de Sabiá. Afinal, qual o nordestino do interior não sonha em ‘fazer a vida’ em São Paulo¿ A dura realidade do imigrante na cidade grande, porém, é retratada no livro, através dos ‘puteiros’ onde geralmente, eles acabam caindo. Principalmente as mulheres, digo as cadelas. Sabiá volta para a cidade natal com a mente virada e a lenda do lobisomem a transforma, no final, naquilo que eu nao vou contar aqui para não perder a graça.
Numa linguagem surrealista onde cadela vira gente, o sonho se confunde com a realidade e o sexo, narrado com cores bastante fortes, é retratado em toda a sua crueldade, chegando a ser impróprio para menores de 25 anos, caso houvesse censura para livros também neste país. E assim, a gente vai ‘navegando’ nesta lira despretensiosa de escritor de primeira viagem.
O final, revelado sutilmente já nas primeiras linhas do livro, revela a alma do menino pobre, triste e discriminado do interior do sertão nordestino que precisa desesperadamente se refugiar em seus sonhos o tempo inteiro, para não ser tripudiado, esmagado pela realidade dura e fria da vida do imenso agreste, sempre seco e sem encanto quase nenhum.
No texto, todos os anseios e desejos que fazem parte do coração humano foram transferidos para o coração de uma cadela, que tem nome de passarinho e pensa como gente. Se Sabiá, conseguiu realizar seus sonhos, só o autor pode revelar isso. E ele revela no final da trama. O livro não deixa de ser um convite para o leitor refletir sobre nossa própria condição humana, presa fácil da engrenagem de uma realidade dualista e efêmera. Como a própria vida.
Reflexões de uma Cadela Vira-Lata – está sendo vendido nas principais livrarias da cidade. Tem ilustrações de Fernanda Barreto e editoria de Márcio Trigo.
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