Quando eu nasci, ela tinha quarenta anos. Primeira médica formada do Piauí, a minha tia Rosa Amélia escolheu se especializar em pediatria pela antiga Faculdade Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro. Foi assim que eu fui parar em suas mãos e sob seus cuidados logo ao nascer. E assim como eu, toda uma geração, principalmente da colônia árabe, que ela cuidava com muita firmeza e devoção.
Aprendemos, assim como as nossas mães, a confiar e obedecer cegamente seus comandos, seja dentro dos conceitos da Medicina que ela passava, seja dentro do seio da própria família. Ela é a primogênita dos 11 irmãos do meu pai (que era o caçula) e mesmo sendo uma mulher, o meu avô - que era sírio de nascimento - investiu em sua carreira quando se decidiu pela Medicina.
Numa época (década de 40) em que o destino da mulher era apenas o casamento (ou, no máximo tornar-se normalista), ela desmanchou um noivado já dado como certo e partiu para sua grande aventura no Rio de Janeiro junto com os primos e irmãos. Depois da formatura, casou-se com um colega médico paulista, e convenceu-o a vir morar no Piauí. O resto dessa história todo teresinense conhece.
Domingo passado fui visitá-la na casa de sua filha, com quem mora hoje depois que ficou viúva. Minha tia está com 94 anos , mas é a prova viva de que, quando se tem um ideal e gosto pela vida, a idade importa muito pouco ou quase nada. Ao chegar (a visita foi surpresa...mas, quem ficou surpresa foi eu), encontrei uma senhora elegantemente trajada (sim, a elegância sempre foi seu forte), jantando aristocraticamente ao lado de sua cuidadora.
Depois disso, veio ‘fazer sala’’ para mim querendo saber das últimas novidades. Como fazia algum tempo que não a via, resolvi testar seus reflexos sob a orientação de minha prima. Na mesinha em frente, algumas revistas espalhadas aleatoriamente. Escolhi a Veja que trazia como manchete de capa o Caso Cachoeira. Perguntei o que achava daquilo. É lógico que ela não destrinchou o fato em seus pormenores, mas a seu modo e dentro de suas limitações, não poupou críticas à política brasileira.
Em seguida, perguntei sobre a vida, de um modo geral. Está ótima, disse-me ela do alto de sua sabedoria e com os olhos brilhando de vivacidade. Relatando um pouco a sua rotina diária, ela me deu uma ideia de como sua mente ainda funcionava de modo espetacular. Surpresa quando lhe falei de alguns cabelos escuros que ainda conservava junto aos grisalhos os quais ela nunca escondeu, ralhou comigo (sim, ela ainda faz isso, gente!) dizendo que não era tão velha como eu estava pensando. Para mim, foi o melhor momento da visita.
Fiquei pensando depois: quando é que a nossa mente consegue nos convencer de que estamos velhos? O que é necessário para que acreditemos nisso, ou não? Numa época em que a Medicina já evoluiu ao ponto de descobrir que filamentos cerebrais (os dendrites) continuam se reproduzindo mesmo numa idade avançada, ligando as células nervosas umas às outras e fazendo com que a função cerebral não diminua, o que faz algumas pessoas se sentirem velhas, sendo ainda tão novas e vice versa?
Talvez, a percepção de que o comando da vida esteja, ou não, em nossas próprias mãos. (Talvez também os ciganos estejam certos ao leem as linhas das mãos).
Para mim, a visita a minha tia serviu principalmente para concluir que a vida não tem nenhum compromisso com padrões de tempo ou de espaço. Ela é um permanente estado de graça. Assim como o mar é fonte infinita de vida e inesgotável beleza. Com olhos de poeta, podemos encontrar vida (e beleza) em qualquer hora e em qualquer lugar, e mesmo que, algumas vezes, ela rime com a tristeza (porque ela sempre passa) e com a solidão (porque ela não tem dono), a vida é inebriante porque está sempre a nos lembrar do seu fluxo e refluxo em seu eterno, melancólico e misterioso fluir.
Em nome dessa mulher surpreendente eu homenageio hoje (Dia das Mães) as minhas outras tias, cada uma a seu modo também importantes em minha caminhada,minha mãe e todas as mães e mulheres do mundo, fontes criadoras da vida.
