Viagem curta de uma semana a São Paulo. Avião lotado com conexão e baldeação em Brasília. Tarde de segunda feira linda, perfeita para um vôo tranqüilo... de repente, a surpresa. Da cabine da Gol, um rabo de cavalo balançava freneticamente chamando a atenção de um amigo que viajava comigo, antes de entrar no avião. O “comandante” era uma mulher. Não, ela não era a co-piloto. Era a própria comandante da aeronave que ia nos levar até Brasília.
Meu amigo sorriu da própria descoberta, entre desconcertado e nervoso. Para me certificar, perguntei aos comissários de bordo que trataram logo de confirmar a notícia acompanhada de rasgados elogios à sua comandante. Também tratei de tranqüilizá-los dizendo que me sentia muito segura com uma mulher no comando.
Isso porque sei muito bem que quando uma mulher assume uma função que geralmente é relegada ao gênero masculino, ela trata de fazê-lo com muito mais cuidado e dedicação.
Também já tinha lido uma vez que, no começo da aviação mundial, eram as mulheres quem mais gostavam de voar. Ou de flanar, como dizem os franceses. Depois que a aviação tomou rumos comerciais e o caminho dos lucros, os homens assumiram o comando e as mulheres sumiram de rota.
Eu mesma, quando mais nova, tive vontade de fazer um curso de pilotagem, incentivada por uma tia que tinha o mesmo desejo. Mas desistiram por nós, dizendo que não era coisa de mulher. Não sei se é coisa de mulher ou de homem, mas posso garantir que este vôo foi perfeito. Flanamos até Brasília – que estava com tempo meio fechado – com aterrissagem suave e firme, driblando algumas nuvens pesadas, como me disse depois Elisa Rossi (foto acima), que está com 18 anos de profissão.
Tenho certeza, a maior parte dos marmanjos que estavam dentro daquele avião não percebeu qualquer diferença durante o vôo. Nem que estavam todos nas mãos de uma mulher. Qual a reação quando ficam sabendo? Perguntei a ela, depois. De surpresa, me disse. No Brasil, informou-me ainda Elisa, existem cerca de 18 mulheres entre comandantes e co-pilotos de aeronaves comerciais e na rota de Dubai, via Emirates, uma co-piloto também brasileira.
Surpreso também ficou o meu amigo em São Paulo (aliás, a viagem toda foi uma caixinha de surpresas) durante a Feicon, a maior Feira Internacional da Indústria da Construção, realizada no Anhembi. No comando de algumas das empresas que estavam com seus estandes ali expostos, mais algumas mulheres.
Algumas bem idosas como no caso do Grupo Aliança. Do alto de seus 80 anos, a presidente do grupo, uma simpática senhora elegantemente vestida e apoiada numa bengala com detalhe em ouro, comandava uma reuniãozinha no lounge da empresa. Um pouco mais adiante, no Conselho da Sasazaki, grupo de origem japonesa, outra mulher (foto abaixo) que ajudava a organizar e a atender pessoalmente o apressado zigue zague de pessoas no estande de sua empresa.
Claro que a maioria ainda é de homens. Aliás, o mundo dos negócios ainda é dos homens, diga-se de passagem, mas as mulheres aqui e acolá, emprestam seu brilho, graça e leveza a este mundo geralmente sisudo e inflexível. Mulheres à frente dos negócios dão um ar especial porque elas não visam somente o lucro e o poder. Acostumadas a gerar e criar gente, elas dão prioridade aos relacionamentos pessoais. O que faz com que este mundo se torne mais colorido e humano.
Durante a Feira, notei que o mundo masculino circulava apressadamente entre um estande e outro. Homens com seus paletós escuros como o céu de São Paulo tabulavam negociações à boca pequena nos lounges dos estandes criados especialmente para isso. No meio deles, as mulheres engenheiras, arquitetas, jornalistas e assessoras de imprensa... e
também as mulheres objeto, quase nuas, que faziam a festa dos olhares masculinos nas demonstrações das duchas e banheiras de hidromassagem. Ou nos showzinhos, dançando como chacretes para atrair clientes.
Além da loira de pernocas de fora, a Paipaz colocou um carro de corrida, tipo DKV Kandago alemão, modelo 1963, em seu estande com o mesmo objetivo: atrair peregrinos do mundo inteiro, já que a feira era internacional. O carro pertenceu ao filho do dono da empresa que gostava de corridas automobilísticas em meados do século passado. Fomos literalmente atraídos pelo design histórico do gracioso carrinho, que chamava mais atenção do que a loira, no estande da empresa.
A Feicon, que acontece todos os anos em São Paulo, movimenta milhões de reais em negociações e mostra as últimas tendências e novidades deste mercado. Com quase 800 expositores e mais de dois mil lançamentos em vários segmentos da cadeia produtiva, ela atrai também pelos eventos paralelos como as palestras e visitas.
Paralela à Feicon, uma outra feira, a Revestir - Feira Internacional de Revestimentos – com mais de 180 expositores e movimentando negócios de mais de US$ 145 milhões no Hotel Transamérica, reuniu a nata do mundo fashion da arquitetura nacional e internacional. Crise? Esta palavrinha passou longe dali. A imponência dos estandes dizia tudo. E fazia a festa dos expositores e visitantes. Aguarde os detalhes das duas feiras no próximo número da Revista Mercado do Imóvel, que fechou boas parcerias com as empresas ali representadas.
O único problema foi o cansaço que fez com que voltássemos algumas vezes ao hotel antes do horário previsto. São Paulo estava um forno de quente na semana passada. São Pedro deu uma trégua aos visitantes da Feira e arrasou na radiação solar junto com a poluição.
Bom, São Paulo, para quem não conhece, é aquela metrópole literalmente escura, cinza e poluída (o Rio Tietê é uma vergonha) com céu sempre cinza e concreto armado para todos os lados. Nada poética a cidade. Feia mesmo, que me desculpem os paulistanos. E suja também. É claro que em algumas poucas regiões como os Jardins, Moema e Higienópolis, Morumbi tudo é um primor lembrando ligeiramente as cidades européias. Mas é só.
Alguns prédios antigos tombados pelo Patrimônio Histórico fazem contraponto com metros e mais metros de arranha-céus futurísticos que são o orgulho do paulistano bairrista. Assim como aqueles engarrafamentos gigantescos e inexplicáveis. Além do mais, os pedestres não andam em São Paulo, voam, comprometendo seriamente a qualidade de vida.
É a cidade “do depressa”, como bem caracterizou Billy Blanco em versos da Sinfonia Paulistana e onde convivem harmoniosamente (se é que se pode falar de harmonia em São Paulo) pessoas de mais de 70 nacionalidades. É como disse o japonês do táxi que pegamos na Paulista, São Paulo é a cidade para se ganhar dinheiro. Pode até ser senhor Nakazaki. Mas, para morar, jamais. Apesar dos pombos alegres e faceiros que emprestam graça à cidade.
Só para lembrar: o vôo de volta à Teresina foi terrivelmente turbulento. Mas é claro que isso não tem nada a ver com o comandante que era homem. Mas acho que tem tudo a ver com um outro homem chamado Pedro que, gaiatamente, resolveu abrir as torneiras do céu da paulicéia desvairada bem na hora da nossa decolagem.
PS- Este artigo vai em forma de homenagem à comandante Elisa Rossi, que cruza diariamente os céus de brigadeiro do Brasil com a graça, a coragem e a desenvoltura da mulher brasileira. Para os homens inteligentes que estão lendo este artigo, o meu conselho: antes de dar ouvidos àquele dito popular “mulher no volante perigo constante”, olhe para a cabine do avião na sua próxima viagem e relaxe, como bem fez o meu companheiro de viagem depois do pequeno “susto” que levou. Se perceber uma mulher no comando da aeronave você estará em boas mãos. Pode acreditar.