Por Nayene Monteles
Se nos anos 60, o movimento Tropicália tinha representantes como Gilberto Gil, Caetano Veloso e o piauiense Torquato Neto, dentre tantos outros nomes da música, cinema e poesia que se tornaram marcantes nesse movimento, nos anos 2011, os goianos Diego de Moraes, Camila Leite e Kleuber Garsez representam a forma libertária e indefinida que representou o tropicalismo. Os três fazem parte do “Projeto Mascate- Poesia e Música, a vida em versos e acordes ", que recentemente foi contemplada com a Bolsa Funarte de Circulação Literária e estará durante todo este final de semana em Teresina espalhando arte para àqueles que não tem tanto acesso a ela.
O grupo esteve na manhã desta sexta-feira (22) no
Portal AZ para dar uma entrevista que se assemelhou mais a uma conversa informal em que as duas partes podiam conversar horas e horas a fio sobre música, história e poesia. Enfim, em entrevista ou bate-papo, seja lá o que for definido, os três integrantes do grupo falaram sobre a arte, as inspirações, os objetivos do Projeto e muita mais! Então, vamos ao que interessa!
Então, conta pra gente um pouco o que é o “Projeto Mascate” e qual a programação aqui em Teresina?
Diego- O Projeto Mascate- Poesia e Música foi aprovado pela Bolsa de Circulação Literária da Funarte, que tem o sentido tanto de possibilitar a circulação do projeto, como também faz uma pesquisa na cidade, um levantamento do que tá acontecendo na cidade. Aqui, por exemplo, tivemos contato com a Academia Onírica. Então, é dividido em três dias. Nesta sexta-feira é mais uma apresentação inicial, um convite, explicar como é o projeto pra quem for. Amanhã e domingo são os dias mais importantes, a tarde tem uma palestra que eu mais o Kleuber vamos ministrar, chama “O que é uma canção” e “Tropicália-Poesia e Música”, a gente fala sobre o tropicalismo, pois a tropicália foi um movimento artístico tanto pra música quanto pra poesia. Depois da nossa fala, a Camila vai falar sobre a poesia marginal, a poesia chamada de marginal pela Heloísa Buarque de Holanda, irmã do Chico Buarque. Inclusive, foi escolhido Teresina pelo Torquato Neto, porque ele simboliza muito o poeta que procurou na música uma forma de levar adiante a sua poética, é o cara que passa pelo tropicalismo e poesia marginal. Aqueles que participarem das atividades será doado o livro da Heloísa que tem poesias de Torquato.
Kleuber- O Projeto Mascate é a poesia e música, como os poetas foram levados a compor músicas, acabou que levou a gente também para tentar entender e a fazer isso também.
No caso, as atividades são shows e palestras?
Diego- Amanhã á tarde é uma palestra, inclusive, é com som de vinil. E à noite, vai ter o nosso show e e também da banda daqui Roque Moreira. O nosso show são nossas composições. Temos um trabalho em Goiânia, a banda Pode Ser, músicas nossas, que fazem parte eu e Kleuber.
O que mais provoca curiosidade em conhecer o trabalho de vocês, é, sem dúvida, o nome. Por que Mascate?
Diego- De início, foi um apelido que eu tinha, há uns dez anos atrás. Depois, como sou formado em história, eu fui lendo e percebi como que os mascates foram importantes na história do Brasil em um período que não tinha internet, eles andavam, eram andarilhos e levavam informações. Entravam em contato com diferentes populações. Por trás da mercadoria, tinha um mundo ali.
Kleuber- O mascate além de levar as coisas, ele absorve, é uma troca. A gente veio e estamos vendo como é, funcionam as coisas pra cá. Mais ou menos como a gente.
Mudando um pouco de rumo da conversa, explica pra gente o porquê ministrar e apresentar a Tropicália? O que esse movimento significa para vocês?
Kleuber- Porque a Tropicália foi um movimento que surgiu primeiro com o cinema, depois foi para as artes plásticas, literatura, teatro e depois chega à música e para os poetas marginais. Aquele pessoal que faz o rompimento com a bossa nova, então é a hora que a coisa eclode no Brasil, pulveriza todas as manifestações do Brasil, há também um resgate, Dominguinhos, Luís Gonzaga, Carmem Miranda, ao mesmo tempo em que absorvia a música pop, então a gente achou que seria a parte mais interessante de falar, Quando tudo se espalha, porque antes os movimentos eram fechados, e esse não, atinge todas as partes possíveis e ainda dentro do contexto da ditadura militar, o que é mais interessante.
Diego- Ao mesmo tempo em que é um tempo e repressão forte, é um movimento libertário que surge nesse contexto. Um movimento que grita “é proibido proibir”. A Tropicália retoma um debate que vem desde o modernismo. Inclusive um disco vinis que a gente trouxe tá lá o Torquato, o Tom Zé, o Caetano segurando o quadro de Oswald de Andrade tudo muito emblemática. A tropicália jogou alguns assuntos que ainda continuam, principalmente em um momento em que o mundo real é o virtual, em que todo cidadão é cidadão do mundo, a Tropicália talvez seja isso. A gente pode pensar a Tropicália como a fronteira, apesar de que eles se opunham o Geraldo Vandré, por exemplo, é um intercâmbio, eles vêm disso. Tem uma frase do Gilberto Gil que resume e eu me identifico muito: há várias maneiras de fazer música e eu prefiro todas. Acho que é bem isso, é um movimento que se define pela indefinição. Hoje é mais diferente, porque a Tropicália era um movimento de embate, em que os jovens queriam liberdade, hoje nossa briga é outra, nós temos nossa briga, mas continuamos brigando pela liberdade.
Estão sentindo a receptividade dos teresinenses? Em termos de trabalho de vocês, de trazer um retorno para o trabalho de vocês?
Kleuber- 100%, maravilhosa. Trocamos telefones, estamos com várias ideias. O pessoal da Academia Onírica tem uma revista, eles sugeriram pra gente colaborar com o número dois da revista. E, além disso, aqueles que participarem do Sarau de domingo terão os seus poemas publicados e dois deles musicados pelo Diego.
Camila- É bom explicar que a Bolsa Funarte é um mapeamento. Eles fazem uma lista chamada ‘território da cidadania’. A gente vai nessas cidades, que para eles, nesse mapeamento, são aquelas que não tem muito acesso a cultura, que tem dificuldade. E para nossa supressa uma capital, Teresina.
Kleuber- Foi mais surpresa por ser a cidade de um grande poeta, Torquato. Dentro da Funarte, eles falam de cidades de grande carência de acesso a cultura. Na cidade de Itaberaí, que a gente teve, em Goiás, lá é muito culturalmente pobre. Não tem acesso e a gente tenta levar isso. Tem que chegar a quem não tá tendo acesso. O processo de difusão, distribuição, popularização da poesia, a gente deixa um legado, as pessoas depois que a gente vai embora ficam discutindo tudo isso, abrimos uma janelinha, de ver o mundo diferente do que lhes é condicionado. De cada cidade, o Diego vai pegar esses poemas e musicar, vai disponibilizar no blog e fazer download. Estamos construindo um blog permanente,. Os lugares que passarmos, a história continue.
O “Projeto Mascate- Poesia e Música, a vida em versos e acordes " se apresentará em Teresina nesta sexta (22), sábado (23) e domingo (24), todos os dias no Teatro João Paulo II, no bairro Dirceu, zona sudeste da capital. Toda a programação é gratuita!
Confira a programação detalhada:
Dia 22 de julho, as 19 horas - Apresentação do Projeto com o tema "Que música te toca?"
Dia 23 de julho, as 14 horas - Palestras " O que é uma canção? " e "Tropicália - Poesia e Música
No dia 23 de julho, a partir das 20h, acontecem shows com Don Diego de Moraes, Kleuber Garcês e com a banda piauiense Roque Moreira. Haverá também intervenções com a Academia Onirica e palco aberto.
Dia 24 de julho , a partir das 18 horas - Sarau Poesia e Música, a vida em versos e acordes. Todos os poemas apresentados neste sarau serão publicados numa coletânea do Projeto Mascate.