Economistas estão perplexos com falta de pressa dos líderes europeus

Os governos da zona do euro, e especialmente o da Alemanha, foram criticados ontem (28/04) por adiarem a aprovação de um plano de resgate financeiro para a Grécia, que, segundo os especialistas, deveria ter sido lançado vários meses atrás.

Políticos e economistas dizem simpatizar com o desejo de Angela Merkel, a chanceler da Alemanha, de que haja medidas austeras mais drásticas por parte do governo grego antes que ela forneça mais dinheiro a Atenas.

Mas o caos cada vez maior nos mercados financeiros e as ameaças crescentes à estabilidade da zona do euro e do seu sistema bancário fazem com que uma ação rápida seja essencial, dizem eles.

“Desde janeiro deste ano, ou seja, há quatro meses, a zona do euro tem buscado em vão uma liderança da Alemanha”, diz Poul Nyrup Rasmussen, presidente do partido dos Socialistas Europeus. “No entanto, desta vez Merkel decidiu colocar a política local acima da solidariedade internacional”.

“Nós perdemos muito tempo com a inação”, critica Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

“Nós deveríamos ter intervindo dois ou três meses atrás. Desde então os mercados seguiram um rumo negativo, de forma desnecessária. É por isso que temos que agir agora, rápida e decisivamente”, disse ele à rádio alemã.

Integrantes do grupo dos três mais ricos países da zona do euro, a Alemanha e a França estão pretendendo realizar eleições parlamentares na semana que vem sobre um pacote de resgate financeiro para a Grécia, que provavelmente consistirá de pelo menos 30 bilhões de euros (US$ 40 bilhões, 26 bilhões de libras esterlinas, R$ 70,1 bilhões) de países da zona do euro, e até 25 bilhões de euros do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Enquanto isso, o governo italiano pode evitar um longo processo parlamentar com a aprovação de um decreto de lei instantâneo relativo ao fornecimento de assistência à Grécia. Roma, com a sua dívida pública excepcionalmente alta, tem todo o interesse em presenciar uma ação rápida no sentido de impedir que o contágio se espalhe para o mercado de títulos do governo italiano.

Mas com os dividendos dos títulos gregos saindo de controle e os CDSs (credit default swaps) vinculados a esses títulos disparando para níveis recordes, alguns economistas afirmam que os governos dos países da zona do euro ainda não estão respondendo com urgência suficiente.

“Até mesmo a semana que vem poderia ser muito tarde na atual crise”, opina Julian Callow, do Barclays Capital Research.

Alguns políticos, no entanto, defenderam Angela Merkel. A Alemanha está removendo as dúvidas e questões restantes quanto à sua intervenção e, portanto, quanto à intervenção europeia, disse François Baroin, o ministro do Orçamento da França, durante uma audiência parlamentar.

Especialistas em finanças públicas afirmaram que Angela Merkel está bem embasada ao exigir medidas mais duras do governo da Grécia para que este reduza o seu déficit público, que no ano passado foi estimado em cerca de 14% do produto interno bruto. Até mesmo um exame apressado de um programa econômico que a Grécia apresentou neste ano à Comissão europeia parece justificar a falta de fé dos mercados nas políticas gregas, diz Daniel Gros, do Centro de Estudos de Políticas Europeias, em Bruxelas.

“As opções difíceis e os cortes inevitáveis foram adiados”, disse ele. “Todos os cortes até o momento foram na folha de pagamento do setor público. Este é um alvo conveniente, mas, na realidade, ele não se constitui no principal problema do país”.

Gros afirmou que cortes significantes dos benefícios de segurança social são necessários, porque a maior parte do déficit da Grécia nos últimos dez anos deveu-se a uma aumento dos gastos com esse setor, que saltou de um pouco mais de 20% do produto interno bruto para um patamar de quase 30%.

“A crise grega foi tão mal administrada pelos governos europeus que os mercados agora temem com razão que a situação tenha se tornado irremediável”, diz Alessandro Leipold, ex-diretor do departamento europeu do Fundo Monetário Internacional.

Em uma análise para o Conselho de Lisboa, situado em Bruxelas, ele escreveu: “A procrastinação pode ser fatalmente tóxica para países atingidos por turbulências financeiras. O dano provocado pelos adiamentos no caso grego ficou muito claro... A cacofonia que vem das capitais europeias – e até mesmo dentro de governos individuais – tem sido destrutiva para a confiança do mercado”.

Ainda que o contágio grego esteja se espalhando dos mercados para Portugal e dê sinais de estar infectando outros países, os ministros alemães e franceses insistem que os problemas de Atenas são únicos. “A situação em Portugal é diferente da grega. O nível da dívida é importante, mas os portugueses não mentiram”, afirma Baroin.

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