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PMDB perdeu substância, afirma deputado

sexta, 10 de dezembro de 2010 • 07:14

É o que diz o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), insatisfeito com os ministérios que couberam ao seu partido no governo Dilma e com ter de ceder a presidência da Câmara ao PT


Veja OnLine

O deputado Henrique Eduardo Alves, do PMDB, é o candidato natural do partido à presidência da Câmara

O deputado federal Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) está frustrado. Nas últimas semanas, ele lutou com afinco para assumir a presidência da Câmara no primeiro biênio do governo de Dilma Rousseff. A cadeira, no entanto, deve ficar com o PT, dono da maior bancada na Casa, e é por isso que, ao falar desse assunto, ele oscila entre o inconformismo (“o PT precisa me convencer de que merece o primeiro biênio”) e a resignação (“já acato aqui, antecipadamente”). 

Alves também se mostra insatisfeito com o quinhão de ministérios que coube aos peemedebistas no governo Dilma. “O PMDB perdeu substância”, diz ele, numa comparação com o espaço que o partido tinha durante o governo Lula. O deputado sugere, no entanto, que há outros caminhos para o partido exercer sua influência: "O PMDB não precisa disputar espaço no governo, nós somos o governo, o governo é nosso". 

No mesmo dia em que Dilma oficializou os nomes dos peemedebistas que terão lugar garantido à frente de seu ministério, o deputado e líder do PMDB na Câmara conversou com exclusividade com o site de VEJA.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista:


O PMDB fechou acordo com o PT para estabelecer o sistema de rodízio na presidência da Câmara dos Deputados. Qual tática foi usada para convencer o PT a fazer essa alternância com vocês, já que eles têm a maior bancada? Trata-se, simplesmente, de uma fórmula que deu certo. Quando o presidente Lula foi reeleito, em 2006, a maior bancada na Câmara era a do PMDB [com 89 deputados] e a segunda era a do PT [com 83 cadeiras]. Achamos interessante que os dois partidos se entendessem, pois seria bom para a instituição e para o governo. Nós então abrimos mão de um período de quatro anos em favor do PT. Na época, os petistas reivindicaram o primeiro biênio para Arlindo Chinaglia (PT-SP), que assumiu a presidência da Câmara em 2007. A bancada do PMDB concedeu essa oportunidade e o PT foi muito correto durante a eleição de Michel Temer (PMDB-SP) para o comando da Casa, em 2009, apoiando-o integralmente. Agora, quando o quadro se inverteu e o PT fez a maior bancada, propusemos o mesmo critério, com uma autoridade muito grande, já que estamos pedindo o que nós já demos.

A decisão de que o PT ficaria com o primeiro biênio foi tranquila? O PT vai escolher o candidato e sentaremos com ele para definir quem vai ficar com o primeiro biênio e quem vai ficar com o segundo biênio. O PT precisa me convencer de que merece o primeiro biênio, mas também terei que acatar uma prerrogativa que está a favor deles, que é a questão da maior bancada. Se não há um critério, tem que ter o desempate. Não vou criar dificuldades. Mas eu tenho pressa, pois o importante não é ser um candidato do PT ou do PMDB, mas sim um nome que represente a instituição e possa representar uma costura política e parlamentar para ser o candidato da Casa, um candidato que fale por todos – partidos pequenos, médios e grandes. 

A entrega do primeiro biênio ao PT é tida como sacramentada. O senhor está dizendo que não é bem assim? Há uma disputa. Existe um grupo do PT, ligado ao deputado federal Cândido Vaccarezza (SP), que gostaria que o partido assumisse o primeiro biênio, já em 2011, mas há um outro grupo que acha melhor depois. Mas isso é uma decisão do PT. Meu papel é acatar a decisão sem criar dificuldades, porque eles têm a maior bancada. Já acato aqui, antecipadamente.

O senhor chegou a dizer nas últimas semanas que não abriria mão de sua candidatura. Conformou-se em não disputar? Estou aqui há dez mandatos. É como se eu tivesse nascido aqui e vivido toda a minha vida política dentro desta Casa. Queria muito presidir a Câmara nesses dois primeiros anos, porque eu acho que a Casa tem duas obrigações urgentes – a reforma política e a reforma tributária. Queria poder realizar essa demanda, por isso insisti na minha candidatura. São dois desafios que me atraem muito, mas acho que essa frustração eu terei que absorver. 

Em novembro, o senhor capitaneou um movimento para formar um superbloco na Câmara, com PMDB, PTB, PSC, PR e PTB, que surpreendeu o PT. Qual era o objetivo da coalizão e por que ela se desfez? Naquela terça-feira, quando cheguei à liderança do PMDB na Câmara, estavam lá o deputado Sandro Mabel (PR-GO), Hugo Leal (PSC-RJ) e Jovair Arantes (PTB-GO). Todos em clima de guerra. A imprensa estava noticiando que o PMDB queria Henrique Meirelles para o Ministério dos Transportes e Moreira Franco para o Ministério das Cidades, ou seja, como se a gente estivesse avançando sobre o espaço dos aliados. A partir daí, fizemos um pacto: ninguém avança sobre o espaço de ninguém. O PMDB não reivindica Cidades e Transportes e os outros partidos não reivindicam nada que já é do PMDB. Essa foi a motivação. Quero dizer, aliás, que se não há coalizão formal, existe um bloco, na medida em que combinamos votos e nos respeitamos. 

Esse bloco funcionou na divisão dos ministérios entre aliados? Entre nós sim, porque o PMDB respeitou o PR, que ficou com Transportes, respeitou o PP, que ficou com Cidades. O problema é que não respeitaram os nossos ministérios: o PT tomou Comunicações [com Paulo Bernardo], o PSB tomou Integração Nacional, mas isso é uma página virada, vamos pensar no futuro do governo Dilma.

O PMDB está unido em torno do vice-presidente Michel Temer? A maior liderança nacional do PMDB hoje é o Michel Temer. Ele foi eleito e reeleito presidente do partido por quase unanimidade e é o nosso vice-presidente da República eleito. Ele é a liderança que mais une o PMDB. Agora, em relação à composição ministerial, foi um processo com dificuldades para o partido, com avanços e recuos, em que ficamos descontentes em alguns momentos, mas podemos dizer que Michel pode falar tranquilamente pelo partido. 

O senhor defendeu o nome do deputado Pedro Novais (MA) para o Ministério do Turismo, assim como o de Garibaldi Alves (PMDB-RN) para a Previdência Social. Há algum projeto especial para essas áreas ou o PMDB só estava na luta por cargos? O PMDB é um partido novo agora. Queremos nos livrar da pecha de fisiologistas – isso é passado. A gente não disputa espaço no governo, porque nós somos o governo, o governo é nosso. Então, o PMDB propos a Dilma que mantivesse os espaços dos partidos como estavam – no tamanho e na qualidade – para evitar atropelos ou ambições distorcidas. Mas isso não aconteceu. O PMDB perdeu uma pasta importante, a Integração Nacional, perdeu Comunicações, substituídas por Previdência e Turismo.

O PMDB no governo Dilma é menor que o PMDB no governo Lula? Não vou negar que o PMDB perdeu substância. Esse é o primeiro momento de coalizão partidária, quando os partidos que ganharam as eleições – PT e PMDB – definem seu espaço. Nessa hora, o PMDB perdeu sim.

As pastas da Previdência e do Turismo foram impostas pelo PT ou foi o PMDB que reivindicou essas pastas no lugar de Integração Nacional e Comunicações? Nós queríamos manter os ministérios do governo Lula – Comunicações e Agricultura como cotas da Câmara e Integração Nacional e Minas e Energia como cotas do Senado – mas a presidente Dilma explicou que queria fazer mudanças, Michel Temer nos explicou e nós entendemos, porque não queríamos criar um problema para um governo que está começando e que é nosso.

Foram propostas do PT ou da presidente eleita Dilma Rousseff? Foram propostas de Dilma. O PT está lutando pelos seus espaços e até conseguiu ampliá-los generosamente. Queremos virar essa página. As negociações de ministérios acabaram.

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