Jesus comanda vitória do Brasil sobre o Chile em São Paulo

Dentro da frieza em que se transformaram os estádios brasileiros em jogos da seleção, nesta terça-feira com recorde de renda e ingresso médio de R$ 365, tudo o que aconteceu seguiu o roteiro previsto: o público festejou os gols do Brasil, "secou" a Argentina a distância e, no fim, divertiu-se com a eliminação do Chile. Tudo dentro dos limites da rivalidade.

Em campo, a seleção foi de um primeiro tempo apenas razoável a uma segunda etapa em que desfilou virtudes, mas claramente se aproveitando de um rival desencontrado. Apareceram capacidades coletivas que o time ganhou com Tite, mas o fato é que muitas soluções se originaram do outro grande patrimônio da equipe: individualidades acima da média. Assim o Brasil construiu os 3 a 0 que permitiram encerrar as eliminatórias mantendo intacta a confiança reconquistada na caminhada.

Gabriel Jesus comemora um de seus dois gols diante do Chile - Edilson Dantas
Gabriel Jesus comemora um de seus dois gols diante do Chile - Edilson Dantas

O mais curioso na Arena Palmeiras era a atmosfera do jogo. Como se a partida que interessasse ao público não fosse apenas a disputada diante de seus olhos, o Brasil x Chile. A cada vez que o sistema de som tocava o trecho do hino nacional que serve como vinheta para as informações do telão, todos os olhares abandonavam o campo.

Se fosse gol do Equador, delírio. Se fosse da Argentina, vaias. Se a informação não tivesse nada a ver com o jogo de Quito, ecoava um "ah", uma interjeição de lamentação. Não era só, na arena cheia de torcedores que pagaram caro, havia silêncio demais. Os coros que realmente se faziam ouvir eram dos chilenos, minoria absoluta.

Classificado, o Brasil faz de cada jogo um cenário de observações e de testes em condições distintas, de acordo com o que oferece o adversário. Não é o mesmo Brasil que começou a trabalhar com Tite o que termina as eliminatórias. O 4-1-4-1, esquema que caracteriza o treinador, agora só aparece em algumas passagens do jogo. O Brasil varia mais, opera em grande parte do tempo no 4-3-3, com Jesus, Neymar e Coutinho claramente destacados à frente. Até na hora de atacar, já que os três atacantes tendem a pressionar a saída rival.

Outra mudança é na hora de atacar e tem sido cada vez mais visível: Coutinho abandonando o lado direito para ocupar o lugar do meia ofensivo, formando com Casemiro, Paulinho e Renato Augusto um meio-campo de quatro homens. Ou permitindo que Paulinho penetre pela meia-direita.

São bons sinais, mas o fato é que a seleção teve dificuldades no jogo. A marcação avançada do Chile impôs dificuldades e foi só a partir dos 25 minutos que a seleção assumiu o controle, ficando com a bola e dando continuidade às trocas de passes. Mas faltava algo de profundidade, de penetração. As duas primeiras chances vieram de roubadas de bola, como no lance em que Jesus deu a Neymar meio gol, mas o craque parou em Bravo. Aos 30 minutos, veio a primeira jogada realmente trabalhada desde a defesa, que terminou em finalização de Neymar.

Não que seja algo alarmante, não é tão fácil controlar o Chile, apesar de sua campanha irregular nas eliminatórias. E conforme o telão anunciava resultados ruins para os chilenos, mais eles se cercavam de cuidados, reduziam riscos.

Foi um gol fora do roteiro que mudou a cara do jogo. Do chute de Daniel Alves numa falta, logo após o intervalo, veio a falha de Bravo e a finalização de Paulinho. Desnorteado, o Chile não sabia bem que objetivo buscar. Ficara no limite da classificação, não tinha poder ofensivo, mas já não marcava tão bem.

E o Brasil se fartou de achar espaços, mesmo sem brilho. As trocas de passes voltaram, a saída desde a defesa melhorou, mas, principalmente, a tarefa passara a ser lançar bolas às costas dos zagueiros adversários. E vieram lances de notável qualidade individual, uma virtude que acompanhará a seleção na Copa. Por exemplo, quando Coutinho fez lançamento primoroso, seguido de um domínio igualmente notável de Neymar e o toque para Jesus: 2 a 0.

Um Chile tenso fez surgirem lances ríspidos e a preocupação passou a ser uma expulsão que tirasse um brasileiro da estreia no Mundial. Tite fez suas observações. Terminou o jogo com Casemiro e Fernandinho juntos, tirou Neymar para colocar Willian e lançou Firmino. Este perdeu um gol quase feito e reforçou a impressão de que não é tão dono assim do posto de reserva de Jesus.

Um novo capítulo começou aos 37 minutos, quando um gol do Peru deixou o Chile fora até da repescagem. A comissão técnica mandou o time à frente e, nos acréscimos, Bravo foi para a área num escanteio. A jogada terminou em passe de Willian para Jesus fazer o terceiro.

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