Aumento nos juros vai derrubar o consumo

É consenso entre os analistas: o aumento da taxa básica de juros, a Selic, vai diminuir o consumo e dar uma esfriada nos gastos das famílias brasileiras. O objetivo do Banco Central é controlar a inflação, que tem subido como reflexo do aumento na demanda , e mostrar que ele está comprometido em atingir a meta de inflação fixada em 4,5% para este ano.

A Selic é a taxa mínima usada pelos bancos e instituições financeiras para definir o preço do crédito que é oferecido no mercado, tanto para o consumidor final quanto para as empresas. O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central anunciou nesta quarta-feira (28) o aumento da taxa de 8,75% para 9,5% - primeira alta desde setembro de 2008.

Em 2009, o BC cortou a Selic para o menor nível da história (8,75% ao ano), o que deixou o “custo” do dinheiro mais barato, a fim de incentivar os investimentos das indústrias e o acesso ao crédito para as pessoas físicas. Ao mesmo tempo, o governo cortou impostos e fez com que os brasileiros comprassem carros, eletrodomésticos e reformassem a casa gastando menos.

Todas essas medidas levaram a uma corrida ao mercado: as vendas de veículos foram recorde, as lojas ficaram lotadas e o excesso de crédito no mercado levou a um aumento de preços. Alcides Leite, professor da Trevisan Escola de Negócios, diz que a inflação já está mostrando sinais preocupantes de alta.

- O objetivo desse aumento é frear o ritmo de crescimento da economia para que a inflação, mais pra frente, não saia do controle. Com o crédito mais caro, as pessoas compram menos.

Ele diz que o BC só quer controlar o “superaquecimento” da economia e segurar o poder de compra para escapar da superinflação.

- Todos os indicadores mostram que a inflação vem aumentando num ritmo relativamente forte. Não há como esperar do BC outra atitude. Não tem ameaça de desemprego ou de recessão. O governo só quer evitar um superaquecimento, mas o aquecimento da economia continua.

Estevão Garcia de Oliveira Alexandre, professor da Faculdade Veris IBTA, ligada à faculdade Ibmec, afirma que essa é uma manobra do governo para adaptar a capacidade instalada da indústria. Ele defende que o governo invista mais em vez de incentivar o aumento dos juros.

- A melhor opção seria fazer investimento na área industrial para crescer mais. Quando se tem uma demanda maior que sua oferta, vai ter concorrência. Se há uma pessoa para comprar dez carros, vai ter promoção. Quando há dez pessoas querendo comprar um carro, vai ter um ágio em cima do carro, um aumento de preços.

Para o consumidor, a decisão pode determinar quais dívidas vão ser quitadas em dia e quais credores vão ter que esperar um pouco mais. Para o gerente de indicadores de mercado da empresa de análise de crédito Serasa, Luiz Rabi, dois fenômenos influenciam a percepção de que a inadimplência poderá voltar a crescer: o número de pessoas endividadas aumentou e o novo cenário de aumento dos juros.

O efeito dessa mudança, no entanto, não será uma interrupção acentuada na demanda por crédito nem uma disparada na inadimplência: os dois movimentos no crédito serão moderados.

- O BC inclusive vai elevar os juros para conter o aumento do crédito, que vinha avançando a 120 km/h. A demanda vai continuar a crescer, mas em ritmo menor; o mercado de trabalho vai continuar a se expandir. O que vai haver é um reajuste.

Para Alcides Leite, o Brasil está num ano bom, de crescimento e de geração de emprego.

- Não vai ser a alta da Selic que vai impedir isso. O Banco Central mira mais pra frente. A medida seria para evitar um desequilíbrio entre oferta e demanda.

Para a Fiesp, um aumento é injustificado. Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da federação, acredita que a indústria tem capacidade de adaptar os próprios investimentos a fim de evitar a inflação no mercado.

- Não há necessidade de subir a taxa de juros, pois existe capacidade instalada para atender a demanda sem pressão de preços. Uma alta de 0,75 ponto vai mudar fortemente o mercado? Se a indústria olhar para isso e entender que pode frear a economia, ela revê seus investimentos.

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