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O movimento rolezinho

15/01/2014 • 13:18
Por Josenildo Melo
josenildomelo@bol.com.br


Segundo Leandro Beguoci o rolezinho, a reunião de jovens e adolescentes em shoppings que nasceu na periferia de São Paulo e já se espalhou por outras partes do país, virou o assunto do verão deste 2014 de eleições e Copa. Um arrastão de palavras de ordem, à direita e à esquerda, tomou o debate e colonizou as discussões com conceitos confusos, fora de lugar. De repente, festas de funk ostentação viraram manifestações de marxistas culturais contra a civilização ocidental e a reações a elas, vindas de gente tão pobre quanto os jovens, uma prova irrefutável do apartheid brasileiro.

De fato, as reuniões de lazer e a reação a elas foram contaminadas pelo debate político que acontece nas áreas de classe média e classe média alta. Elas foram simplificadas, estereotipadas. O debate se reduz aos exageros, criando adversários irreais e estereotipados: ou as pessoas são elitistas ou comunistas. Mas o mundo real, bem, esse é bem mais complicado. E, no meio desse debate maluco, os sujeitos do rolezinho foram desumanizados e se tornam categorias para defender posições no debate histérico que vem se desenhando para este ano.

Ninguém ouve ou sabe o que esses jovens pensam, mas praticamente todo mundo no Facebook, no Twitter, em algumas colunas nos jornais e nas revistas sabe o que eles deveriam pensar. Ninguém sabe qual a intenção que eles têm com esses eventos, mas, do lado de cá do rio, todo mundo já tomou as decisões por eles. Pouca gente do centro expandido já visitou o shopping Itaquera ou Campo Limpo, mas não faltam pessoas que já decidiram que ou eles são nobres centros contra a barbárie periférica ou símbolos poderosos da segregação à brasileira.

Parece óbvio, mas nem sempre o óbvio é óbvio. Os rolezinhos são uma versão, amplificada pelas redes sociais, do que sempre aconteceu nas periferias da Cidade. E, ao amplificar o volume, eles também chamaram a atenção.

Os novos rolezinhos, portanto, acontecem num novo contexto, mas com um mesmo objetivo. A internet deu visibilidade e tamanho a algo que sempre aconteceu em escala menor, sem ser visto ou noticiado dos rios para cá. O boom do crédito, a diminuição do desemprego e o crescimento da classe C levaram os shoppings até as periferias da cidade. Os rolezinhos aconteceram, todos, da ponte pra lá: shopping Itaquera, shopping de Guarulhos, shopping Interlagos, shopping Campo Limpo. Eles não chegaram nem ao shopping Eldorado, talvez um dos centros comerciais mais híbridos de São Paulo – ele fica ao lado da ponte e recebe gente tanto da periferia quanto das áreas mais centrais da cidade. Além disso, esses jovens têm mais emprego, mais renda e podem comprar bonés de 200 reais em várias parcelas mensais (ou tem pais que querem dar aos filhos o que não tiveram, inclusive bonés de 200 reais. Isso não acontece só da ponte pra cá). Os rolezeiros são os filhos da classe C, do pequeno milagre econômico da segunda metade da década passada. Deng Xiaoping, o homem que introduziu o comunismo com toque capitalista na China, dizia que enriquecer é glorioso. Na periferia de São Paulo, consumir é glorioso.

Só que a classe C e as periferias das grandes cidades não são blocos homogêneos. A desigualdade em São Paulo não se dá apenas na base centro-periferia, no macro. Essa divisão também se dá dentro de cada área da cidade, no micro. Em cada periferia há um centro urbanizado, com uma classe média ou média alta que prefere ficar nestes bairros por razões que só as pessoas que moram lá sabem. Além disso, em algumas áreas do centro expandido, delimitadas pelos rios, há regiões e famílias muito pobres que moram em cortiços, prédios antigos, mas trabalham perto das casas delas.

A reação das pessoas que frequentam os shoppings das periferias aos rolezinhos não passa nem pela tese de luta de classe, como algumas pessoas à esquerda vem dizendo, nem pela resistência à concretização dos projetos malévolos dos marxistas culturais para dominar o mundo, como algumas pessoas mais à direita vem enfatizando. Os argumentos principais das pessoas mais à esquerda é que os rolezinhos são uma manifestação política com o objetivo de ocupar os espaços que são negados aos pobres pela sociedade de consumo.

O problema é que não há nenhuma bandeira ou sinal nesse sentido, como nota Vinicius Torres Freire em um bom texto na Folha de S.Paulo. Os rolezinhos não vêm com faixas ou bandeiras. Não há crítica ao consumo, mas elogio às marcas. Essas pessoas já frequentam os shoppings da periferia, onde os rolezinhos acontecem, em grupos pequenos. É difícil ver reivindicação de espaço em um espaço que elas já frequentam. E isso também complica os argumentos da baderna, à direita. Não há crítica ao sistema. Apenas a vontade expressa em roupas de marcas em participar ativamente dele.

O rolezinho não é uma questão simples, mas acho que podemos descartar facilmente as teses extremadas da esquerda e da direita porque elas não encontram nenhum respaldo da realidade. É difícil ver protesto político na vontade de usar um Mizunão de mil num espaço da periferia da cidade que já é frequentado, individualmente, por essas pessoas. E é ainda mais difícil ver marxismo cultural no funk ostentação. É muito difícil taxar de elitismo uma ação de pessoas da periferia contra pessoas da periferia. Como, afinal, acusar um morador de Itaquera de elitismo contra o filho do seu vizinho, também morador de Itaquera?
Talvez os problemas com o rolezinho passem por outras chaves. A primeira chave é etária. Jovens, sejam eles de onde forem, vão sempre desafiar os pais, os adultos, quem quer que seja.

Outra chave é a que abre as portas da diversidade da periferia. Algumas pesquisas mostram que pessoas que moram no limite de uma favela, mas não no seu coração, querem manter toda a distância possível das pessoas que moram nas áreas mais pobres daquela comunidade. Um emprego, uma roupa, tudo é uma marca de progresso, de ascensão, em áreas todas niveladas pela miséria, pelo esgoto a céu aberto, pela falta de educação. Até a música pode virar uma ferramenta. Em Caieiras, as tribos se organizavam por músicas porque, claro, a música que você ouve determina a que parte da periferia a qual você pertence.
O simples fato de escutar rock e não rap, lá nos anos 1990, te colocava em outra parte da periferia – igualmente pobre, mas talvez mais respeitável.

A última chave de compreensão é a cadeia de preconceito e diferenciação – uma variante da segunda chave. Os vendedores desses shoppings da periferia, tão pobres (ou não suficientemente ricos) quantos os seus clientes que vão comprar os tênis caros com dinheiro vivo, torcem o nariz para aquelas pessoas que são tão próximas – mas de quem elas gostariam de manter distância. Os adolescentes do funk ostentação, por sua vez, compram tênis caríssimos para se distinguir dos colegas de bairro que ainda não conseguiram empregos ou renda para comprar um Mizunão de mil reais.

Aliás, a tentativa de fazer um rolezinho-protesto no shopping JK Iguatemi só mostrou o tamanho da nossa ignorância sobre os rolezinhos. Quem mora longe se sente humilhado num shopping como aquele. Não faz sentido fazer um role de ostentação em um lugar em que você nunca conseguirá se exibir para além da loja da C&A na fachada. A reação do shopping, colocando seguranças privados e pedindo liminar na Justiça, só mostra como também uma parte da indústria do consumo não compreendeu seus clientes e toma reações desmesuradas. As lojas que você coloca, a maneira como organiza o espaço, os acessos aos centros de compras; tudo isso já serve como uma barreira invisível e delimita claramente quem pode ou não frequentar esses espaços.

Afinal, não há nada de novo debaixo do sol, como já dizia um trecho do Eclesiastes, da Bíblia, e como mostram os livros dos escritores ingleses e americanos que viram fenômenos semelhantes no século passado. “Jó”, de Joseph Roth, é um bom retrato dos imigrantes e suas agruras para se distinguir em Nova York. Os primeiros capítulos de “O Chalé da Memória”, do historiador Tony Judt, compõem uma excelente análise sobre a dor e a delícia de viver em uma Itaquera londrina no começo do século 20. E, claro, compre  “Avenida Dropsie”, de Will Eisner. Os quadrinhos mostram de uma maneira bonita, e triste, a lógica da diferenciação no Bronx. Cada leva de imigrante era discriminada pela geração anterior de imigrantes. Sociedades com mobilidade social, em profunda transformação, são interessantíssimas e recusam simplismos – não importa a cor da bandeira ou o volume da gritaria nas redes sociais.

A reação aos rolezinhos, por outro lado, mostra uma história bem mais simples do que o fenômeno, em si. E essa história diz mais sobre o momento em que vivemos do que sobre centenas de adolescentes que organizam uma festa pública no único espaço seguro perto da casa onde eles moram e sobre as pessoas, tão pobres quanto eles, que comem pizza de picanha e tem horror a som com volume alto dentro de um shopping.

Os rolezinhos são grandes festas em espaços privados. Quem conhece a periferia de São Paulo sabe que existem pouquíssimos espaços em que seja possível fazer uma festa, reunir os amigos ou almoçar fora de casa num domingo. O nó é que os shoppings dos rolezinhos são espaços privados e bem organizados no meio de áreas violentas e pobres. E eles são frequentados tanto por jovens querendo fazer um rolezinho quanto por famílias que querem levar a avó para comer no McDonalds pela primeira vez na vida.
Como mostra matéria do UOL, o Brasil é recordista mundial de venda de McDonalds. É uma tensão séria, difícil de resolver porque há poucos lugares – e todos eles são privados e estão sob disputa. Há vários grupos de pessoas querendo fazer vários usos distintos dos mesmos centros comerciais.

Para complicar, esses shoppings dos rolezinhos são bunkers ainda mais fechados do que um shopping como o Cidade Jardim, onde só se entra de carro. São bunkers porque a desconfiança é maior. Porque a violência é maior. Basta ver que, em Campinas, no segundo final de semana do ano, 12 pessoas foram assassinadas na periferia da cidade.

Para garantir o básico, como segurança e algum conforto, esses shoppings são áreas cercadas e fortificadas. E, nesse cenário de desconfiança, as pessoas que esses locais preferem receber são aqueles mais previsíveis – famílias, basicamente. Isso justifica policiais, liminares e barrar a entrada de pessoas? Não. Mas ajuda a entender.

Existe um bom livro sobre isso, da antropóloga Teresa Caldeira, chamado Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. No livro, ela analisa como a desconfiança e a segregação são peças comuns a várias áreas da cidade e acabaram ganhando forma visível em muros e grades. Na periferia, em que a violência é altíssima, isso ganha os famosos “contornos dramáticos”. Em um artigo sobre o livro, a professora de Antropologia da UFRJ, Andréa Moraes Alves, resume bem a obra:> Caldeira apresenta narrativas sobre o crime e os criminosos, mostrando como elas ressignificam a experiência do crime e reproduzem estereótipos sobre a diferença.

O discurso sobre o crime é um discurso classificatório que estabelece fronteiras nítidas entre o bem e o mal. Ponto alto da pesquisa de Caldeira, essa parte do livro consegue, através das entrevistas, mostrar esse princípio classificatório em funcionamento. A fala da senhora de classe média, imigrante da Itália, que se refere a outros migrantes mais recentes, os nordestinos, como responsáveis pelo aumento da criminalidade no seu bairro, é um bom exemplo dessa dinâmica de criação de distanciamentos.

O princípio classificatório é capaz de transformar a categoria que estaria mais próxima do narrador – pela condição de migrante -, mas que é diferente – de outra classe social -, em um outro distante e condenado. Ainda mais interessante no trabalho, é que essa criação de fronteiras não se limita a um universo social, Caldeira mostra como o mesmo mecanismo atua entre moradores da periferia e de bairros de elite da cidade de São Paulo. Em áreas muito violentas, todo mundo é uma ameaça – inclusive o vizinho ou o cliente que escuta som alto. Basta que ele seja um pouquinho diferente. Isso acontece em outras áreas de São Paulo, mas ganha força na periferia. Quando algo parece sair do escopo, a primeira reação das pessoas é apelar para a força. No caso dos shoppings, para a Justiça e para a polícia.

Sem mediação, sem diálogo, sem acordo, sem entender minimamente o que ou quem está acontecendo. Na dúvida, é suspeito. Os conflitos, as diferenças, são resolvidos com base nas reações exageradas. Qual o próximo passo? Os policiais passam a agir da forma como estão acostumados a se comportar: na base da força bruta. Eles se comportam como uma força de segurança preventiva, a mando de uma organização privada, para reprimir pessoas que não cometeram nenhum crime. E cometem descalabros. Há o caso, bizarro, do menino que foi comprar aliança e acabou multado e agredido.

Isso não é novo. Abundam notícias sobre excesso de força policial tanto na periferia quanto no centro – como bem mostraram as reações às manifestações de junho. Não é possível esperar outra reação de uma organização treinada para agir sempre com muita força, ao mínimo sinal de que algo saiu fora do manual. Também não é nenhuma novidade que a relação da polícia pública com organizações privadas é íntima – e complicadíssima. Há centenas de policiais que trabalham como seguranças de shoppings, bares e restaurantes nas horas vagas. Provavelmente, alguns deles ganham mais desses shoppings do que da sociedade – e tem um compromisso maior com o shopping do que com a sociedade.

A Justiça, que precisa responder às liminares pedidas por shoppings que querem controlar o fluxo das pessoas, também está confusa e longe de um consenso. Ao rejeitar um dos pedidos de “proibição do rolezinho” em um shopping de Campinas, o juiz entendeu que “não houve demonstração inequívoca de que os réus poderiam praticar atos que, por si só, fossem aptos a despertar o justo receio de turbação ou esbulho iminentes”. Mas decisões favoráveis aos shoppings foram conseguidas em São Paulo, o que levantou outros questionamentos: Contra exatamente o quê a Justiça está protegendo o shopping? É possível vetar a entrada das pessoas por roupa, faixa etária, aparência? É possível determinar exatamente o número de pessoas que caracterizam um rolezinho? Eu sei que há uma grande discussão sobre a propriedade privada dos shoppings versus o direito à circulação, mas não é esse o ponto. Os juízes que embarcaram no medo dos shoppings parecem ver o problema de longe, distante, como se legislasse do Brasil para um fictício país distante que fala português com sotaque paulistano.

Quando tudo isso chega ao lado de cá da ponte, é filtrado pelas lentes do debate político histérico que tomou conta do país. Tudo parece virar apartheid ou comunismo, direito à livre circulação ou defesa da propriedade privada. Todo mundo tem certezas com base em quase nada. Os blogueiros de direita denunciam a conspiração dos funkeiros contra a civilização ocidental. Os blogueiros de esquerda veem apartheid das elites nos shoppings da periferia. Vira um festival livre de loucura, um campeonato nacional de associação livre, em que cada lado atribui um valor a esse encontro de lazer de acordo com a conjuntura política.
O fenômeno deixa de ser analisado em si, e passa a ser analisado para servir de arma numa briga muito maior. Esses jovens de Itaquera, do Campo Limpo, de Interlagos, são desumanizados e se tornam aríetes de uma luta da qual eles não têm a menor ideia que estão participando. E as decisões da Justiça, difíceis de entender, só mostram o tamanho do desconhecimento.

Não há razão para idolatrar ou demonizar os rolezinhos. Talvez haja furtos, talvez haja arrastões, e não há nada que a polícia possa fazer senão impedir que as pessoas pobres que frequentem esses shoppings sejam roubadas ou furtadas. Mas também não faz nenhum sentido impedir que essas pessoas entrem em shoppings pelo simples fato de usarem um boné de aba reta ou um tênis cheio de cores. Os rolezinhos são o que são. E merecem estudos, debates e reflexões melhores do que vem recebendo até agora.
Porque se tem algo que os rolezinhos legam, com certeza, nesse mar de dúvidas, hipóteses e exageros, é que o nível do debate da ponte pra cá anda bem baixo. E, quando se mete a falar de periferia, esse gigante desconhecido, ganha contornos constrangedores. A periferia é muito mais complicada do que nossos veredictos em 140 caracteres.

Poucas pessoas, hoje, podem dizer que compreenderam as margens da cidade. Quem a entendeu com tino comercial fez dinheiro com ela muito anos antes de qualquer pessoa falar da classe C. Uma delas é Samuel Klein: criou as Casas Bahia e descobriu, quando todo mundo dizia que pobre era caloteiro; que assalariados e remediados pagam prestação em dia. Um Samuel Klein jornalista, acadêmico ou especialista faz muita falta nesse debate sobre os rolezinhos. Eles existem, mas ainda estão quietos. É hora de falar. É preciso mudar os termos do debate antes que os pobres sejam humilhados mais uma vez: perdendo a própria humanidade.

Fonte: http://www.oene.com.br/
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