Polícia diz não ter suspeitos de fazer jornal com insultos a gays na USP

O Parasita
O jornal 'O Parasita' (Foto: Reprodução/TV Globo)

A Polícia Civil de São Paulo ainda não sabe quem são os alunos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP responsáveis pelo jornal "O Parasita", que recentemente distribuiu pela internet um texto homofóbico.

A delegada Margarette Barreto, da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), diz que investigadores foram à universidade e conversaram com três alunos do centro acadêmico e da atlética do curso, mas nenhum deles soube dizer quem responde pelo jornal.

Os alunos também não conseguiram dizer quem escreveu o artigo, assinado por “Joãozinho Zé Ruela”, pseudônimo do autor, convocando outros universitários a jogar fezes em gays em troca de ingressos gratuitos para a tradicional “Festa Brega” da farmácia.

A Decradi instaurou inquérito na segunda (26) para apurar a suspeita de o jornal ter incitado demais alunos ao crime de injúria. “O Parasita” ainda é investigado por homofobia pela Comissão Processante Especial da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania. A secretaria também afirma ter encaminhado um ofício ao Ministério Público pedindo para acompanhar o caso.

A quebra dos sigilos de e-mail e do Orkut de “O Parasita”, que serão pedidos pela polícia, poderão ajudar a desvendar o mistério. O objetivo da Decradi é identificar e localizar os responsáveis pelo periódico eletrônico. "Vamos localizar quem fez a publicação a partir da quebra do sigilo destas contas do correio eletrônico [e-mail] do jornal e da página de relacionamentos [Orkut] que ele mantém", diz a delegada Margarette Barreto.

Os policiais também querem ouvir o depoimento dos dois alunos da faculdade que foram hostilizados pelo jornal. Os dois foram xingados por se beijarem numa festa universitária em 2009. No artigo do periódico eletrônico, os jovens são descritos como “2 viadinhos” (leia íntegra abaixo). Os nomes deles não são citados.

“Precisamos localizar esses dois alunos que foram insultados pelo jornal por se beijarem numa festa. Ninguém pode discriminar ninguém que beija outra pessoa do mesmo sexo em local público. Isso é homofobia e foi deste modo que ‘O Parasita’ tratou esse casal homossexual”, afirma Margarette.

Leia na íntegra o polêmico artigo publicado pelo "O Parasita":

"Lançe-merdas e Brega será na Faixa - Ultimamente nossa gloriosa faculdade vem sendo palco de cenas totalmente inadmissíveis. Ano passado, tivemos o famoso episódio em que 2 viadinhos trocaram beijos em uma festa no porão de med. Como se já não bastasse, um deles trajava uma camiseta da Atlética. Porra, manchar o nome de uma instituição da nossa faculdade em teritório dos medicus não pode ser tolerado. Na última festa dos bixos, os mesmos viadinhos citados acima, aprontaram uma pior ainda. Os seres se trancaram em uma cabine do banheiro, enquanto se ouviam dizeres do tipo "Aí, tira a mão daí." Se as coisas continuarem assim, nossa faculdade vai virar uma ECA. Para retornar a ordem na nossa querida Farmácia, O Parasita lança um desafio, jogue merda em um viado, que você receberá, totalmente grátis, um convite de luxo para a Festa Brega 2010. Contamos com a colaboração de todos. Joãozinho Zé-Ruela".

Aluno hostilizado


No sábado (24), a reportagem do G1 conseguiu localizar e conversar com um dos alunos citados no texto acima e que a polícia também pretende ouvir. Por telefone, o jovem, que tem mais de 20 anos e só aceitou falar com a reportagem sob a condição de anonimato, estuda farmácia e, apesar de ter sido hostilizado no jornal, afirma que vai continuar na faculdade em São Paulo.

“Quem escreveu essas coisas deve ser punido. Não gostei do que foi escrito. Eu sou revoltado com preconceito. Isso, no entanto, não vai impedir que eu continue a estudar farmácia na USP porque amo a faculdade”, diz o estudante, que beijou outro homem na Cervejada da farmácia e medicina no ano passado.

Pedido de desculpas

O jornal "O Parasita" chegou a divulgar uma nota posterior, pedindo desculpas pelo comentário contra os gays, classificando o fato como “exagero cometido na última edição”. O texto diz que o jornal é feito de humor, e pede ainda desculpas aos alunos da faculdade. A identidade dos editores do periódico ainda é desconhecida.

O assunto da discriminação feita pelo jornal também chegou à Coordenadoria do Núcleo de Combate à Discriminação, Racismo e Preconceito da Defensoria Pública, que protocolou um pedido de instauração de inquérito policial para saber quem são os responsáveis pelo jornal.

Na esfera criminal, os responsáveis pelo artigo podem ser presos por até seis meses, caso sejam considerados culpados. Na comissão, poderão ser multados. O valor mínimo é de R$ 15 mil.

A reportagem enviou dois e-mails para o correio eletrônico de "O Parasita", mas não obteve resposta.

Outro lado


A Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP diz que uma sindicância administrativa também vai apurar os responsáveis pelo jornal “O Parasita”. De acordo com a assessoria de imprensa da instituição, a abertura da sindicância é orientada pela consultoria jurídica da USP. Além disso, a faculdade ressalta em nota que “não apoia o artigo publicado recentemente pelo jornal ‘O Parasita’ e desconhece seus autores”.

“Repudiamos o que ocorreu. Apesar de não sermos responsáveis pelo jornal, queremos discutir uma maneira de pedir desculpas aos alunos. Não vamos delegar punições aos responsáveis. Isso caberá à faculdade e à polícia”, afirma Guilherme Loverbeck, de 20 anos, segundo anista do curso de farmácia, representante da atlética.

Em nota, o centro acadêmico da faculdade informa que não apoia "atitudes homofóbicas, machistas, racistas ou que expressem qualquer outro tipo de preconceito". O texto diz ainda que as diferenças são respeitadas, pois pensamentos distintos representam "crescimento pessoal" e "aperfeiçoamento da sociedade".

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