Com trechos de diálogos inaudíveis, Temer demonstra-se aliviado

"A montanha pariu um rato", disse Temer aliviado, com um sorriso no rosto

(Atualizada às 09h08)

O Supremo Tribunal Federal(STF) divulgou na última quinta-feira (18), a gravação onde aparece o presidente Michel Temer (PMDB) dizendo “Temos que manter isso, viu?”. A gravação conta com vários trechos inaudíveis e sem transcrição oficial de diálogo, é quase impossível entender que o presidente fez o comentário dando aval aos pagamentos ao ex-deputado Eduardo Cunha para comprar seu silêncio.

A gravação divulgada pelo STF tem ao todo 38min57s. O trecho onde o empresário Joesley Batista, dono da JBS, trata da compra do silêncio de Cunha, dura cerca de três minutos.

No trecho, Joesley pergunta a Temer como está a relação dele com o ex-deputado. Logo em seguida o empresário diz que fez o “máximo que deu ali”, “zerei tudo”, para explicar as pendências que tinha com Cunha.

Ainda na gravação, o empresário conta como trata dos outros assuntos com o ex-ministro da Secretaria do Governo, Geddel Vieira. Temer comenta, mas o diálogo é incompreensível. Joesley diz que há vazamentos de conversas entre Cunha e Geddel e poderia comprometer o grupo e afirma “O que mais ou menos eu dei conta de fazer até agora: eu tô bem com o Eduardo, ok".

Em seguida, o presidente responde "Tem que manter isso, viu?”, mas a fala a seguir é inaudível. A transcrição oficial da conversa ainda não foi divulgada pelo STF.

De acordo com o blog do Josias, o presidente ouviu toda a gravação acompanhado de ministros e se demonstrou aliviado quando percebeu que parte dos diálogos estava inaudível. "A montanha pariu um rato", disse Temer, com um sorriso no rosto.

Leia na íntegra a transcrição do diálogo:

BATISTA: Queria primeiro dizer o seguinte: "tamo junto" aí. O que o senhor precisar de mim, viu, me fala.

TEMER: Está bom, mas tem que esperar passar essa...

BATISTA: E vim te ouvir um pouco, como é que o senhor está nessa situação toda do Eduardo [Cunha]?

TEMER: O Eduardo resolveu me fustigar. Você viu quê...

BATISTA: Não sei, como que tá essa situação?

TEMER: [inaudível] O Moro indeferiu 21 perguntas dele que não têm nada a ver com a defesa dele. Era pra amedrontar: "Eu não fiz nada, eu não sei o quê", e no Supremo Tribunal Federal, olha só, que fatalidade. E ele está aí, rapaz, mas... 

BATISTA: Queria falar assim: dentro do possível, eu fiz o máximo que deu ali, zerei tudo, o que tinha de alguma pendência daqui pra ali zerou, tal. Ele [Cunha] foi firme em cima, ele já tava lá, veio, cobrou... Pronto, eu acelerei o passo e tirei da frente. O outro menino, o companheiro dele que tá aqui, né... O Geddel sempre tava...

TEMER: [inaudível]

BATISTA: Isso, que o Geddel é que andava sempre ali. Mas o Geddel também, com esse negócio eu perdi o contato, porque ele virou investigado, agora eu não posso encontrar ele...

TEMER: É, tá complicado, tá complicado [inaudível]. Obstrução de Justiça [inaudível]

BATISTA: O negócio dos vazamentos, o telefone lá do Eduardo com o Geddel, volta e meia citava alguma coisa meio tangenciando a nós, a não sei o quê. Eu tô lá me defendendo. O que que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora: eu tô de bem com o Eduardo, ok

TEMER: Tem que manter isso, viu? [inaudível]

BATISTA: Todo mês...

TEMER: [inaudível]

BATISTA: Também. Eu tô segurando as pontas, tô indo. Meus processos, eu tô meio enrolado aqui, né [Brasília]. No processo [inaudível]

BATISTA: Isso, é, investigado. Não tenho ainda a denúncia. Aqui eu dei conta, de um lado, do juiz, dar uma segurada, do outro lado, do juiz substituto, que é um cara que fica.... [inaudível]

TEMER: Tá segurando os dois...

BATISTA: Tô segurando os dois. Consegui um procurador dentro da força tarefa, que tá, também tá me dando informação. E lá que eu tô para dar conta de trocar o procurador que tá atrás de mim. Se eu der conta, tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é que dá uma esfriada até o outro chegar e tal. O lado ruim é que se vem um cara com raiva ou com não sei o quê...

BATISTA: O que tá me ajudando tá bom, beleza. Agora, o principal... O que tá me investigando. Eu consegui colar um [procurador] no grupo. Agora eu tô tentando trocar

TEMER: O que tá... [inaudível]

BATISTA: Isso! Tamo nessa aí. Então tá meio assim, ele saiu de férias, até essa semana eu fiquei preocupado porque até saiu um burburinho de que iam trocar ele, não sei o quê, fico com medo. Eu tô só contando essa história para dizer que estou me defendendo aí, to me segurando. Os dois lá estão mantendo, tudo bem. 

Temer duvidou de cassação e disse que ministros que vão julgá-lo têm ‘consciência política’

Em conversa gravada pelo empresário Joesley Batista, dono da JBS, o presidente Michel Temer afirmou que não acredita que será cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) porque, segundo ele, os ministros da Corte têm “consciência política”. 

O julgamento que analisa a cassação da chapa eleita em 2014, em que Temer era vice da então presidente Dilma Rousseff (PT), foi marcado para o início de junho pelo ministro Gilmar Mendes, presidente do TSE. Recentemente, Temer indicou para o Tribunal os ministros Admar Gonzaga e Tarcísio Vieira em duas vagas que foram abertas.

Joesley, que firmou um acordo de delação premiada já homologado pelo Supremo Tribunal Federal, levou um gravador para um encontro com Temer no Palácio Jaburu, em março. O empresário questionou o presidente sobre a situação no TSE. Caso perca o mandato, Temer ainda poderá recorrer ao próprio Tribunal e ao STF.

— É um troço meio maluco, eu não sei o que vai levar. Primeiro que eu acho que não passa o negócio da minha cassação, isso não passa, porque eles (ministros) têm uma consciência política. Sabe, porra, mais um presidente... (inaudível). Tem também a improcedência da ação. (inaudível) E tem recurso no TSE, recurso no Supremo... Isso aí já terminou o mandato — disse Temer, que fez uma referência indireta ao impeachment de Dilma.

O STF determinou a abertura de um inquérito para investigar a atuação de Temer. Para o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o presidente deu “anuência” quando Joesley afirmou que estava pagando propina mensalmente ao ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB). Em pronunciamento na quinta-feira, Temer afirmou que não vai renunciar ao cargo.

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