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21/07/2008 - 17:36 - Natália Vaz e Flávia Rocha

Falsidade ideológica

Sem investigação, venda de monografias aumenta nas faculdades de Teresina

A "máfia das monografias", como foi denunciada pela imprensa em maio de 2007, agora é anunciada livremente em universidades públicas e particulares de Teresina. Anúncios detalhados de venda de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) podem ser vistos nos corredores de Instituições de Ensino Superior de Teresina. 

O negócio é feito de forma rápida e o estudante não precisa nem sugerir o tema. O vendedor apenas explica que seja indicado um tema sobre o qual o aluno tenha mais conhecimento, pois será mais fácil na hora de apresentar para a banca examinadora. Por R$ 250,00 um formando pode ter um trabalho de conclusão rico em detalhes, feito com pesquisas de campo e com vasta bibliografia. O prazo de entrega é de dois meses.

A prática de fazer monografias para terceiros não está tipificada como crime no Código Penal Brasileiro, portanto, os vendedores não podem ser enquadrados e punidos por venderem os trabalhos. No entanto, quem compra o TCC pode ser enquadrado no crime de falsidade ideológica e a pena varia de um a cinco anos.

O Ministério Público do Piauí, através da promotora Rita de Fátima Ferreira, pediu, em agosto de 2007, instauraçao de inquérito para apurar as denúncias de vendas de TCC em Teresina, mas a Delegacia Geral alegou que não pode fazer a investigação. 

Vendedor de monografias é entrevistado pelo Portal AZ

Direito é campeão na compra de monografias 

De acordo com um estudante de Direito de faculdade particular de Teresina e vendedor de monografias, o curso que tem a maior demanda na compra de TCCs é Direito. O universitário (que não quis se identificar), afirma que, no último ano, a venda de monografias cresceu algo em torno de 30%. Ele atribui o crescimento ao surgimento de faculdades em Teresina, inclusive faculdades virtuais, e à falta de tempo dos estudantes graduandos. "Acredito que 80% das pessoas que me pedem monografias têm emprego e não têm tempo de fazer um trabalho mais elaborado", afirma. 

O vendedor não atribui as compras de TCCs à falta de capacidade dos estudantes, e sim à falta de tempo do formando, e considera a prática positiva para ele, que faz o trabalho. "Já aprendi muitas coisas fazendo trabalhos para os outros e, quem sabe, um dia passe em algum concurso para o Ministério Público, né?", brinca. 

Falta ética?
Indagado sobre a falta de ética que envolve o processo de compra e venda de trabalhos de conclusão, o estudante explica que "não é algo ilícito. Se não está tipificado no Código Penal Brasileiro, é lícito, mas isso não quer dizer que seja correto. Se vender monografias fosse proibido hoje, eu certamente pararia. Sou estudante de Direito e tenho meus princípios", pondera o vendedor, que, em parceria com um colega, estudante de Biblioteconomia, já desenvolveu mais de 30 monografias.

Combate à prática
A Universidade Federal do Piauí deve promover, após 12 de agosto, início do período letivo, curso de capacitação para professores da instituição. O objetivo é aprimorar as bancas examinadoras na detecção de plágios nos trabalhos acadêmicos.

A UFPI tem registro de cinco trabalhos de conclusão (um de graduação e quatro de pós-graduação) plagiados. "De quando eu entrei, até agora, cinco trabalhos não passaram nas bancas examinadoras por terem feito plágio, mas o número pode ser maior", admite o Prof. Newton Freitas, pró-reitor de ensino e graduação da UFPI.

O pró-reitor ressalta ainda que a prática se deve ao desinteresse dos alunos em seguir carreira acadêmica. "Realmente, a carreira acadêmica é pouco atrativa. O professor universitário de carreira ganha pouco e os estudantes têm dificuldade de se interessar pelo ofício", explica. 

"O Ministério Público e a Polícia Federal deviam investigar mais"
Newton Freitas observa que o Ministério Público e a Polícia Federal deveriam investigar mais a fundo a prática de venda de monografias para ajudar no combate. "A prática deveria ser tipificada no código Penal. A gente tem os melhores professores em banca examinadora do Piauí, mas, infelizmente, alguma coisa ainda pode passar", finaliza.

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