Entre crenças e evidências, por* Hélio Schwartsman

 
Hélio Schwartsman é bacharel  em filosoia pela USP,Escreve às terças, quartas, sextas, sábados e domingos no jornal  Folha DE São Paulo
  Marcus Leoni/Folhapress  
Separação de medicamentos por robôs em hospital de São Paulo
 
 
Entre as crenças e as evidências, parte significativa dos humanos fica com as primeiras. Exemplos disso é o que não falta.

Como já demonstraram várias grandes metanálises, a homeopatia não funciona melhor do que placebos e ainda pode colocar em risco a vida do paciente, ao atrasar o início de tratamentos efetivos. Não obstante, esse é um mercado que movimenta cerca de US$ 4 bilhões por ano no mundo todo e tende a crescer. A esperança de que existam remédios que não fazem mal e não estão sob controle dos malvados laboratórios supera as evidências científicas.

Algo parecido ocorre com as vitaminas. Apesar da farta literatura a mostrar que a suplementação pode ser perigosa para quem não tem deficiências nutricionais, complexos vitamínicos vendem como água, com o aval de médicos, que teriam o dever de estar mais bem informados. A ideia dessas pílulas é oferecer a "vis vitalis" dos alimentos —o segredo para uma vida longa e próspera.

Por que esses e outros mitos não vão embora? O homem não aprende com as evidências? A capacidade de aprendizado existe, mas é mais restrita do que se supõe. Somos bons em assimilar as coisas quando os efeitos negativos se sucedem imediatamente às ações. Não precisamos de mais do que uma experiência negativa para aprender que não devemos pôr a mão no fogo. Mas, quando o intervalo de tempo entre a causa e a materialização do efeito é de anos ou depende de sutis interpretações estatísticas, ficamos desamparados.

Para formar crenças mais abstratas, fiamo-nos no que nos é contado, mas como uma irresistível tendência a abraçar as teses que mais nos agradam, ainda que não casem muito bem com as evidências disponíveis.

É o que explica o fato de a maior parte da humanidade ainda acreditar que o mundo foi criado e é gerido por algum tipo de papai do céu, mesmo sendo poucas as evidências a corroborar essa hipótese.