*Fenômeno editorial francês vê história do país pelo prisma da globalização

 

 
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mario sergio conti
mario sergio conti

Autor de 'Notícias do Planalto', obra que dissecou as relações entre a Presidência de Fernando Collor e a imprensa, começou sua trajetória como jornalista na Folha de São Paulo em 1977. Escreve quinzenalmente aos sábados.

 

  Bruna Barros/Folhapress  
 
 

O fenômeno editorial francês deste ano é um espanto. "Histoire Mondiale de la France", um tijolo de 800 páginas e 122 autores desconhecidos, vendeu 100 mil exemplares desde janeiro.

O livro foi concebido por Patrick Boucheron, um medievalista do Collège de France, o topo da carreira universitária. Coube a ele escolher 146 anos cruciais da história francesa, que são abordados em artigos de meia dúzia de páginas, sem notas de rodapé e com bibliografia sumária.

A saga começa em 34.000 a.C., quando cro-magnons pintaram as paredes da caverna de Chauvet. E termina em 2015, ano dos ataques terroristas ao "Charlie Hebdo" e ao Bataclan, que fizeram com que, em solidariedade, a bandeira tricolor fosse hasteada pelo Ocidente afora.

Boucheron recomendou que os verbetes fossem lidos fora de ordem. Com isso, mesmo escrito por especialistas, o livro tem um tanto de almanaque de curiosidades. O artigo sobre 1921, por exemplo, fala da criação do perfume Chanel Nº 5.

À esquerda, criticou-se essa desconcatenação. A "História Mundial da França" não seria científica por prescindir de uma articulação condutora, seja econômica ou política –ou com base em dados geográficos e demográficos de longa duração, como nos "Annales" de Braudel.

O livro, porém, tem um eixo, enunciado no prefácio: "Mobilizar uma concepção pluralista da história contra o estreitamento identitário que hoje domina o debate público".

Ele vê a história da França, portanto, pelo prisma da globalização, mostra o impacto dos fatos externos no país, e vice-versa. Celebra o multiculturalismo e a mestiçagem, evidentes em qualquer metrô de Paris.

A direita se insurgiu contra esse internacionalismo nas eleições. Marine Le Pen defendeu o solo sagrado e a pureza do sangue gaulês. Negou que a França tenha mandado judeus para campos de extermínio. Prometeu tirar do currículo o colonialismo e a colaboração com o nazismo.

O que se discute, por meio da historiografia, é o que fazer hoje com a massa de refugiados que chega à Europa. É a situação dos pobres, mormente muçulmanos, que vivem em periferias podres.

O Brasil tangencia esse debate em dois verbetes. No referente ao ano de 1550, é descrito o desfile pelas ruas de Rouen de 250 tupinambás, com os quais os franceses trocavam toras de pau-brasil por utensílios de metal.

O livro enfatiza que alguns dos índios não eram da costa nordestina, e sim marinheiros franceses fantasiados, que traziam a carga colonial da América. A construção idílica visa mostrar um intercâmbio justo e respeitoso entre povos díspares: um outro mundo é possível.

Na entrada sobre 1889, mistura-se a inauguração da torre Eiffel, símbolo modernização autoritária, com o golpe que derrubou a monarquia no Rio. A justaposição está inscrita na bandeira, cujo dístico vem do positivismo francês: Ordem e Progresso.

É festejada a influência das ideias parisienses aqui, bem como a cálida acolhida lá de brasileiros perseguidos. É o caso de Celso Furtado e Fernando Henrique Cardoso, que "frequentaram as carteiras da Sorbonne".

Como a influência foi recíproca, cita-se Braudel, que morou em São Paulo na criação da USP: "Tornei-me inteligente no Brasil. O que tive diante dos olhos era um tal espetáculo de história e de gentileza social que compreendi a vida de outra maneira".

No plano material, contudo, ao fim e ao cabo os tupinambás foram dizimados pela expansão do capitalismo europeu. E a república nacional nascente, antidemocrática e antipopular, teve como álibi ideológico a cultura francesa.

A influência externa continua peremptória, em que pese a favelização à brasileira de periferias europeias. Sobretudo na política. Se Marine Le Pen tivesse vencido as eleições, a situação brasileira seria outra. Se Jeremy Corbyn tomar o poder na Inglaterra, também.