Daqui a cem anos, por * Frei Betto

A ideia da imortalidade é fardo ridículo de vaidade póstuma. Importam os aplausos após os atores deixarem o palco? 

*FREI BETTO- Colunista de O Globo

20/01/18 - 04h30

 

Daqui a cem anos já não serei. O punhado de cinzas que restar da cremação estará integrado ao útero fértil da terra. De minha obra talvez figure, em um catálogo de alfarrábios, não mais que um ou dois livros. Nos arquivos de um convento, um frade curioso saberá que um dia o precedi nas sendas de São Domingos.

A ideia da imortalidade é fardo ridículo de vaidade póstuma. Importam os aplausos após os atores deixarem o palco? A notoriedade não me adula. Mineiro, me convém a discrição, poder parar anônimo em uma esquina.

Bastam-me as letras a me desnudarem frente ao leitor, e a fé de que me aguarda um fim infindo. Quero o colo de Deus. E não mais.

Agora sou um entre mais de 7 bilhões. Como cabe tanta pretensão em tão diminuta pequenez? Por que o coração se infla de ambições? Pra que essa sofreguidão insana, a corrida contra o relógio, a irrefreável gula frente ao mundo circundante?

Fecho os olhos para ver melhor. A meditação me devolve àquele Outro que não sou eu e, no entanto, funda a minha verdadeira identidade. Renova meu oxigênio espiritual. Revolve esse canteiro que trago no mais íntimo de mim, sempre à espera da inefável semente divina.

Porque o verdadeiro amor é sempre (e)terno.

Daqui a cem anos terá sido inútil toda a minha pressa. Essa voracidade d’alma será apenas um definitivo silêncio no tempo. Estarei emudecido pela deslembrança. Não colherei flores da primavera, nem ouvirei o som da flauta em minhas manhãs orantes. Transmutado no ciclo implacável da natureza, serei o que já fui: multidão de bactérias, húmus de um caule que brota, alimento de um réptil.

Tenho 13,7 bilhões de anos. Sei que, como toda matéria, comungo a perene transubstanciação de todas as coisas criadas. Existo, coexisto e subsisto em Universo.

Dentro de poucos anos serei tragado pelo ritmo da entropia. Minhas células se condensarão em moléculas integradas no baile alquímico da evolução. De novo, serei um com o todo, como o oceano resulta da interação de pingos d’água.

Essa certeza recata-me ansiedades. Volto a mim mesmo, ao recôndito do espírito, atento à delicadeza da vida. Tudo é liturgia, basta ter olhos para crer: o pão sobre a mesa, a água derramada no copo, a janela assediada pelo vento, a roda pétrea do amolador de facas, a luz da vela consumindo-se junto ao sacrário, o cheiro doce de manga, o mistério do momento exato em que o sono me sequestra, o grito alegre de uma criança ao colher uma flor no que restar de jardim daqui a 100 anos.

O melhor da existência são as contas de seu colar, as diminutas miçangas que formam belos desenhos, os cacos do vitral. A busca da utopia, a conversa inconsútil com os amigos, a língua perfumada pelo vinho, os salmos recitados na cadência do gregoriano, a sesta de domingo, o gesto de carinho, o cuidado solidário.

Daqui a cem anos o mundo estará, como sempre, entregue a si mesmo, porém sem o concurso de minhas ambições, pretensões e inquietações.

Meditar no futuro longínquo me aquieta. Impregna-me de algo muito importante: um profundo sentimento de desimportância.