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A sociedade brasileira finge que a ditadura não foi com ela

No dia 30 de março de 2014, escrevi, sob o título acima, o texto que segue abaixo, publicado originalmente no Jornal Meio Norte, na coluna Frente Ampla.

Amanhã é um dia para ser lembrado, sem celebração, mas com um extenso exame de consciência sobre o papel da sociedade na política. O golpe de Estado que enterrou a democracia por 21 anos, deflagrado em 31 de março de 1964, como a ditadura que se seguiu, não é “militar” apenas. Foi apoiado por gente do quilate e da grandeza de Ulysses Guimarães – o que evidencia o quanto a sociedade brasileira equivocadamente acolheu o modo antidemocrático como se pôs fim a um governo populista, mas constitucional, o de João Goulart.

Hoje, passados 50 anos, estabeleceu-se uma ideia de que houve no país uma ditadura militar – uma forma sutil de escamoteamento do papel da sociedade civil naquele regime. Felizmente, cresce na Historiografia brasileira a compreensão correta de que o país viveu, entre 1964-1985, um regime autoritário híbrido, civil-militar. Tanto é assim que, ao final dele, alguns dos mais destacados personagens do “ancien régime” fizeram parte da Nova República, um deles na Presidência da República.

O fim do regime autoritário civil-militar fez com que se elegesse um culpado-mor para ele, as Forças Armadas, que por causa disso certamente seguiram sendo tornadas desimportantes, submetidas a uma inanição orçamentária que resultou em um processo terrível de sucateamento. Enquanto isso, o poder civil se consolidou e fez cara de paisagem sobre sua efetiva participação em um regime político que foi como uma doença e deixou graves sequelas no país.

Na semana passada, por duas vezes, o historiador Ronaldo Vainfas, foi felicíssimo na análise do oba-oba em que se converteram a cobertura jornalística e os depoimentos de gente sobre o período autoritário – que em tempos idos teve até o status de “revolução”. Aliás, alguns civis muito safos acabaram mais do que dizendo que estavam do lado oposto ao regime: eles engordaram suas contas bancárias com a bolsa-ditadura.

O que Vainfas propõe em seu texto curto e cortante, disponível em seu perfil no Facebook (aberto a quem quiser ler, felizmente) é que se pare de apontar uma culpa pontual e doentia para o regime. O que parece existir é uma responsabilidade coletiva.

Vainfas grandemente lembrou a banalidade do mal, uma percepção da filósofa Hannah Arendt sobre o fato de que o nazismo não poderia ter prosperado se o mal que impunha não tivesse sido cordatamente aceito pela sociedade alemã. O nazismo foi cevado na rotina de gente comum que docemente aceitava a ordem vigente sem questioná-la. Com a ditadura civil-militar, brasileira, nascida e alimentada em meio a amplo apoio popular, ocorreu a mesma coisa. Seu fim, suave como a morte de um velho bonzinho, deu-se pela redução desse apoio. Isso corrobora as palavras do historiador Ronaldo Vainfas: “Banalidade do mal perpetrado por pessoas normais, não por psicopatas. Aí reside o nó. O perigo”.

Mais do que a banalização do mal, temos no Brasil ainda uma elite política, em todos os espectros ideológicos, que imagina ser um estorvo o exercício regular de escolha pelo voto direto e secreto, conforme anotou Elio Gaspari, na quarta-feira, 26 de março: “1964 continua divisivo porque em 2014 há pessoas que veem nas instituições democráticas a origem e sede dos males. Isso vale tanto para o sujeito que não confia na vontade popular que escolhe presidentes petistas como para comissários que veem nessa mesma vontade uma massa incapaz de eleger um Congresso que vote as leis necessárias para que o partido desenvolva o que chama de projeto estratégico”.

No dia 30 de março de 2014, escrevi, sob o título acima, o texto que segue abaixo, publicado originalmente no Jornal Meio Norte, na coluna Frente Ampla.

Amanhã é um dia para ser lembrado, sem celebração, mas com um extenso exame de consciência sobre o papel da sociedade na política. O golpe de Estado que enterrou a democracia por 21 anos, deflagrado em 31 de março de 1964, como a ditadura que se seguiu, não é “militar” apenas. Foi apoiado por gente do quilate e da grandeza de Ulysses Guimarães – o que evidencia o quanto a sociedade brasileira equivocadamente acolheu o modo antidemocrático como se pôs fim a um governo populista, mas constitucional, o de João Goulart.

Hoje, passados 50 anos, estabeleceu-se uma ideia de que houve no país uma ditadura militar – uma forma sutil de escamoteamento do papel da sociedade civil naquele regime. Felizmente, cresce na Historiografia brasileira a compreensão correta de que o país viveu, entre 1964-1985, um regime autoritário híbrido, civil-militar. Tanto é assim que, ao final dele, alguns dos mais destacados personagens do “ancien régime” fizeram parte da Nova República, um deles na Presidência da República.

O fim do regime autoritário civil-militar fez com que se elegesse um culpado-mor para ele, as Forças Armadas, que por causa disso certamente seguiram sendo tornadas desimportantes, submetidas a uma inanição orçamentária que resultou em um processo terrível de sucateamento. Enquanto isso, o poder civil se consolidou e fez cara de paisagem sobre sua efetiva participação em um regime político que foi como uma doença e deixou graves sequelas no país.

Na semana passada, por duas vezes, o historiador Ronaldo Vainfas, foi felicíssimo na análise do oba-oba em que se converteram a cobertura jornalística e os depoimentos de gente sobre o período autoritário – que em tempos idos teve até o status de “revolução”. Aliás, alguns civis muito safos acabaram mais do que dizendo que estavam do lado oposto ao regime: eles engordaram suas contas bancárias com a bolsa-ditadura.

O que Vainfas propõe em seu texto curto e cortante, disponível em seu perfil no Facebook (aberto a quem quiser ler, felizmente) é que se pare de apontar uma culpa pontual e doentia para o regime. O que parece existir é uma responsabilidade coletiva.

Vainfas grandemente lembrou a banalidade do mal, uma percepção da filósofa Hannah Arendt sobre o fato de que o nazismo não poderia ter prosperado se o mal que impunha não tivesse sido cordatamente aceito pela sociedade alemã. O nazismo foi cevado na rotina de gente comum que docemente aceitava a ordem vigente sem questioná-la. Com a ditadura civil-militar, brasileira, nascida e alimentada em meio a amplo apoio popular, ocorreu a mesma coisa. Seu fim, suave como a morte de um velho bonzinho, deu-se pela redução desse apoio. Isso corrobora as palavras do historiador Ronaldo Vainfas: “Banalidade do mal perpetrado por pessoas normais, não por psicopatas. Aí reside o nó. O perigo”.

Mais do que a banalização do mal, temos no Brasil ainda uma elite política, em todos os espectros ideológicos, que imagina ser um estorvo o exercício regular de escolha pelo voto direto e secreto, conforme anotou Elio Gaspari, na quarta-feira, 26 de março: “1964 continua divisivo porque em 2014 há pessoas que veem nas instituições democráticas a origem e sede dos males. Isso vale tanto para o sujeito que não confia na vontade popular que escolhe presidentes petistas como para comissários que veem nessa mesma vontade uma massa incapaz de eleger um Congresso que vote as leis necessárias para que o partido desenvolva o que chama de projeto estratégico”.

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