A Prefeitura de Teresina anuncia agora, com ares de novidade, um incentivo de até R$ 12 mil por ano aos professores da rede municipal. A proposta pode parecer, à primeira vista, uma iniciativa de valorização profissional. Mas há uma pergunta incômoda por trás da propaganda oficial: por que apresentar como concessão aquilo que os professores afirmam ter perdido justamente no início da atual gestão?
Segundo relatos de profissionais da rede, a gratificação por mérito vinculada aos resultados educacionais existia anteriormente e foi retirada durante o processo de transição para a gestão do prefeito Silvio Mendes. O modelo anterior considerava percentuais relacionados às metas alcançadas pela escola. Agora, a administração municipal retoma a discussão sob uma nova roupagem, vinculando o pagamento ao desempenho das unidades no Ideb e à participação dos profissionais em formação continuada.
O problema começa quando se olha para a distância entre o anúncio e a realidade. Professores relatam que o valor máximo anunciado dificilmente é alcançado. Segundo eles, mesmo nos casos em que a escola apresenta desempenho elevado, alguns profissionais receberam, no passado, diferenças que giravam em torno de R$ 600. Se a unidade não alcança a meta estabelecida, o professor pode simplesmente ficar sem receber.
E há algo ainda mais grave: qual é o custo humano dessa corrida por resultados?
O Ideb não aparece sozinho. Por trás de cada índice existem professores submetidos a jornadas intensas, salas de aula cheias, cobranças permanentes e, muitas vezes, condições materiais insuficientes. Há escolas em que faltam equipamentos básicos para o trabalho pedagógico, como projetores e notebooks. Para realizar atividades ou acessar recursos necessários à aula, o próprio professor acaba recorrendo ao celular pessoal.
Enquanto os indicadores são apresentados como conquistas administrativas, quem está diariamente diante dos alunos enfrenta desgaste físico e mental. O próprio Portal AZ já publicou, por meio deste jornalista, uma série de três reportagens sobre a saúde mental dos profissionais da educação, mostrando uma realidade que ultrapassa os números e alcançou repercussão na sociedade.
Também chama atenção a percepção manifestada por professores nas redes sociais. Há críticas aos critérios para receber a gratificação, especialmente quando afastamentos por problemas de saúde podem interferir no pagamento. O questionamento é direto: se o profissional contribuiu durante praticamente todo o ano para o resultado de sua escola, por que seu adoecimento deveria apagar essa contribuição?
O mérito do Ideb pertence, antes de qualquer autoridade política, a quem constrói o resultado dentro da escola. Diretores, coordenadores, professores, auxiliares educacionais e demais trabalhadores da educação participam desse esforço. Nenhum prefeito ou governador entra em uma sala de aula para enfrentar, diariamente, as dificuldades que esses profissionais enfrentam.
É preciso, portanto, separar propaganda de valorização. Anunciar até R$ 1 mil mensais pode produzir uma bela manchete, mas não resolve, por si só, uma carreira marcada por cobranças, limitações estruturais e adoecimento. E muito menos transforma uma política de gratificação em favor pessoal do gestor.
Se a intenção é realmente valorizar o professor, a pergunta deveria ser outra: quanto custa ao poder público preservar a saúde, as condições de trabalho e a dignidade de quem sustenta os resultados educacionais?
Porque professor não deveria precisar atingir uma meta para provar que merece ser respeitado. E o reconhecimento de seu trabalho não pode aparecer apenas quando o índice educacional precisa ser comemorado.
Quem está na sala de aula sabe quanto custa chegar ao resultado. Talvez seja justamente isso que os discursos oficiais prefiram não mostrar.