A ciência ensina que o DNA é a molécula responsável por transmitir as características hereditárias de uma família. Na política da "Fazendinha Piauí", porém, parece existir um código genético paralelo: o DNA da mamatologia. Não é identificado em laboratórios, não aparece em exames de sangue e jamais será encontrado em um microscópio. Mesmo assim, no imaginário popular, ele parece explicar por que determinados sobrenomes atravessam gerações ocupando espaços de poder como se recebessem, junto com a certidão de nascimento, uma espécie de certificado informal de sucessão política.
O manual dessa herança é surpreendentemente simples. Primeiro conquista-se um cargo. Depois, fincam-se raízes profundas na máquina pública. Em seguida, os galhos começam a se espalhar. Quando chega a eleição seguinte, troca-se apenas o nome da placa. Sai o pai, entra o filho. Sai a mãe, assume a filha. Sai o irmão, entra a irmã. Se o estoque familiar exigir reforço, surgem o genro, a nora, o sobrinho, o primo ou qualquer outro ramo suficientemente próximo para manter a árvore frondosa e permanentemente irrigada pelo poder.
Enquanto escrevia estas linhas, lembrei-me do meu avô, José Felipe (in memoriam). Homem simples, de mãos calejadas pelo trabalho e de rugas desenhadas por uma vida inteira de esforço honesto. Criou quinze filhos e deixou uma família que hoje ultrapassa duas centenas de netos, além de bisnetos e trinetos. Nunca ensinou que o caminho para vencer passava pela sombra do poder. Ao contrário, repetia, pelo exemplo, que dignidade não se herda: constrói-se.
Daquela família nasceram médicos, advogados, professores, empresários, mestres e doutores. Cada um escolheu seu próprio caminho. Nenhum precisou transformar a política em profissão hereditária ou em meio permanente de sobrevivência. Porque política, quando exercida com grandeza, é instrumento de serviço público. Quando passa a existir apenas para preservar sobrenomes, cargos e privilégios, deixa de servir à sociedade para servir a si mesma.
É justamente nesse ponto que a política deixa de ser um espaço de confronto de ideias e passa a funcionar como uma sucessão hereditária. O sobrenome converte-se em capital eleitoral. O mandato muda de mãos, mas dificilmente muda de endereço.
Na "Fazendinha Piauí", a cerca quase nunca aparece. Ela é invisível, mas muitos juram conhecê-la de cor. Cada grupo parece cuidar do seu curral político, proteger seu território e preparar cuidadosamente a próxima geração de herdeiros. O eleitor, quando esquece a força transformadora do voto, corre o risco de ser tratado não como cidadão, mas como rebanho eleitoral, conduzido por favores, dependências e promessas que se renovam a cada campanha.
É preciso fazer uma distinção indispensável. Nem toda presença de parentes na vida pública caracteriza nepotismo. A legislação brasileira e a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal estabelecem critérios objetivos para identificar situações vedadas, especialmente nas nomeações para cargos em comissão, funções de confiança e funções gratificadas, conforme a Súmula Vinculante nº 13. Também reconhecem que cargos de natureza estritamente política possuem tratamento jurídico específico. Em um Estado Democrático de Direito, cada caso deve ser examinado individualmente, com base na Constituição, na legislação e nas provas existentes.
Mas a lei resolve apenas parte da questão. A outra pertence ao campo da ética, da moralidade administrativa e da confiança pública. Afinal, se tudo está rigorosamente dentro da legalidade, por que permanece tão viva a sensação de que a renovação política nunca chega? Por que tantos cidadãos têm a impressão de que alguns sobrenomes ocupam, geração após geração, as mesmas cadeiras do poder?
Talvez porque exista uma diferença fundamental entre aquilo que a lei permite e aquilo que inspira confiança na sociedade. A democracia não sobrevive apenas de normas jurídicas. Ela depende da credibilidade das instituições, da igualdade de oportunidades e da convicção de que o mérito deve prevalecer sobre o parentesco.
Por isso, talvez a primeira página deste imaginário "Manual do DNA da Mamatologia" devesse ser rasgada. República não combina com hereditariedade política. O Estado não foi criado para funcionar como patrimônio familiar, nem cargos públicos foram concebidos para serem transmitidos como uma escritura de imóveis ou uma herança de família. A Constituição desenhou um país onde o poder pertence ao povo, e não aos sobrenomes.
No fim, o verdadeiro exame de DNA não acontece nos laboratórios. Acontece diante da urna eletrônica. É ali que cada eleitor decide se continuará reproduzindo o mesmo código genético da política de sempre ou se permitirá o nascimento de uma nova cultura pública, fundada na competência, na alternância de poder, na responsabilidade e no compromisso com o interesse coletivo.
Porque sobrenomes podem abrir portas na vida. Mas, em uma democracia, somente o voto consciente deve abrir as portas do poder.