Quando encontrei Zuenir Ventura

Um encontro no SALIPI que hoje se transforma em memória

Conheci Zuenir Ventura em junho de 2009, durante a 7ª edição do Salão do Livro do Piauí, o SALIPI, realizado no Complexo Cultural da Praça Pedro II, em Teresina. Eu estava diante de um dos grandes nomes do jornalismo e da literatura brasileira. Hoje, depois de sua partida, aquela lembrança ganhou outro significado.

Foto: Reprodução

Zuenir tinha uma voz mansa, calma, quase como se cada palavra viesse acompanhada do tempo necessário para ser compreendida. Era a voz de quem parecia enxergar o mundo de forma plena, com a serenidade de quem passou a vida observando pessoas, acontecimentos e contradições do Brasil.

Naqueles dias, entre 8 e 14 de junho, Zuenir participou da programação do SALIPI. No dia 10, recebeu o Título de Cidadão Piauiense em uma sessão solene na Assembleia Legislativa. Mais do que uma homenagem formal, aquele momento parecia traduzir a relação afetiva que ele demonstrava ter com o Piauí.

O que ficou para mim, entretanto, foi mais do que a lembrança de um escritor consagrado. Ficou a presença de um homem inteligente, culto e dono de um conhecimento construído ao longo de décadas de jornalismo e literatura.

Há pessoas que a gente conhece. E há aquelas que, depois de conhecê-las, permanecem de alguma maneira dentro da nossa memória.

Zuenir foi uma delas.

Como jornalista, sempre admirei aqueles que compreendem que a profissão não consiste apenas em registrar acontecimentos. É preciso saber olhar, ouvir, interpretar e compreender o tempo em que se vive. Zuenir fez isso com singularidade.

Autor de 1968 – O Ano que Não Terminou e Cidade Partida, entre outras obras, construiu uma trajetória marcada pelo jornalismo, pela literatura e pela capacidade de interpretar o Brasil. Em 2014, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Mas hoje não quero lembrar apenas o escritor consagrado, o jornalista premiado ou o acadêmico. Prefiro lembrar o homem que conheci no SALIPI. Aquele da voz mansa e calma, da conversa inteligente, da presença serena. Alguém cuja experiência parecia não produzir arrogância, mas uma espécie de compreensão mais generosa sobre o mundo.

A notícia de sua morte fez o passado voltar.

E talvez seja esse um dos sentidos mais bonitos da memória: devolver-nos pessoas, lugares e momentos que o tempo havia guardado.

Naquele junho de 2009, eu tive a oportunidade de conhecer Zuenir Ventura. Não sabia que, tantos anos depois, aquele encontro seria também uma forma de despedida.

Zuenir partiu.

Ficam o jornalista, o escritor, a obra e a memória de um homem que soube olhar o Brasil com profundidade.

E fica, para mim, aquela voz mansa e calma, como se ainda dissesse que o mundo, apesar de todas as suas contradições, merece ser observado com atenção.

Alguns encontros duram minutos.

Outros permanecem por toda a vida.

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