A entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Flow Podcast ultrapassou 1,5 milhão de espectadores simultâneos no YouTube na noite desta última quinta-feira (1º). A transmissão ocorreu no mesmo horário em que seria realizado o debate presidencial da TV Globo, cancelado pela emissora após uma sequência de decisões judiciais e a desistência de candidatos.
Lula abriu a entrevista justamente explicando por que decidiu não participar do debate. Questionado pelo apresentador Igor Coelho, respondeu, em tom descontraído, que estava no Flow “porque gosto mais de você do que da Globo”. Em seguida, criticou o formato adotado nos debates com vários candidatos.
“Eu sinceramente acho que esses debates são infrutíferos, não produzem nada, não dão sequência”, afirmou. Lula argumentou que os candidatos dispõem de pouco tempo para falar e precisam esperar longos intervalos até voltar a participar. Para ele, a dinâmica acaba estimulando “gracinha”, piadas e provocações.
“Quando você está numa disputa para a Presidência da República, é uma coisa mais séria. Você está discutindo o país, está discutindo o povo brasileiro, a soberania brasileira. Você não está discutindo quem vai lacrar”, declarou.
Proposta para mudar os debates
Lula defendeu um modelo diferente para os debates eleitorais. Segundo ele, os candidatos poderiam responder às mesmas perguntas, permitindo uma comparação mais direta entre as propostas.
“Eu preferia que fosse feito um debate em que uma televisão ou você mesmo fizesse a mesma pergunta para vários candidatos”, afirmou. Também questionou a participação, no mesmo espaço, de candidatos com diferenças muito grandes nas intenções de voto, defendendo maior equilíbrio na composição dos confrontos.
O presidente lembrou ainda que participou de diversos debates ao longo de sua trajetória eleitoral e afirmou que já é conhecido pelo eleitorado.
Desenrola para pessoas endividadas
Entre os temas econômicos, Lula destacou a terceira fase do Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas criado pelo governo federal.
A nova etapa prevê que a União compre, por meio de leilões, carteiras de dívidas inadimplidas e repasse ao consumidor o desconto obtido na operação. Podem ser incluídas dívidas bancárias e não bancárias com valor original de até R$ 10 mil, observados os critérios estabelecidos pelo programa.
Lula afirmou que a iniciativa poderá permitir que milhões de brasileiros renegociem seus débitos e retomem o acesso ao crédito. O governo estima que até R$ 150 bilhões em dívidas sejam elegíveis e que aproximadamente 15 milhões de pessoas possam ser alcançadas.
Antes da entrevista no Flow, Lula havia afirmado que o governo poderia adquirir até R$ 157 bilhões em dívidas, com descontos que poderiam chegar a 95%, dependendo das condições negociadas nos leilões.
Críticas a Flávio Bolsonaro
A disputa presidencial também esteve entre os principais assuntos da entrevista. Lula criticou o senador Flávio Bolsonaro (PL), seu principal adversário na corrida presidencial, e fez referências ao episódio envolvendo o Banco Master.
Ao comentar o caso, Lula defendeu que as investigações alcancem todos os envolvidos. Também afirmou que Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, mantinha relações com diferentes setores políticos e econômicos.
As afirmações sobre pessoas e instituições foram feitas pelo próprio presidente durante a entrevista e são apresentadas nesta matéria como declarações de Lula, não como comprovação independente das acusações.
Banco Master e investigação
Lula voltou a defender a apuração do caso Banco Master e afirmou que não cabe a ele exercer funções de juiz ou delegado. O presidente disse que as autoridades responsáveis pelas investigações devem esclarecer as relações financeiras e políticas que eventualmente estejam relacionadas ao caso.
A crise envolvendo o banco ganhou espaço no debate eleitoral nas últimas semanas e passou a ser utilizada pelos candidatos para questionar adversários e instituições. Lula, durante a entrevista, relacionou o episódio ao grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Críticas ao formato da eleição
Além dos debates, Lula falou sobre a disputa presidencial e voltou a defender uma campanha centrada na discussão de propostas. Para o presidente, a eleição deveria permitir que o eleitor comparasse projetos para o país, em vez de transformar os debates em confrontos baseados em provocações.
A participação no Flow ocorreu enquanto a TV Globo anunciava o cancelamento do debate que estava previsto para a mesma noite. A emissora informou que decisões judiciais tomadas nas horas anteriores modificaram as condições originalmente estabelecidas para o programa. Entre elas estavam uma determinação do TSE relacionada à exibição do púlpito reservado a Lula e outra, do STF, que determinou a participação de Renan Santos, do Missão.
Flávio Bolsonaro também desistiu de participar do debate e anunciou uma transmissão própria nas redes sociais. Outros candidatos que estavam no evento criticaram as decisões judiciais e o cancelamento.
Audiência
Com o debate fora do ar, a entrevista de Lula passou a concentrar a atenção de parte do eleitorado que acompanharia o confronto pela televisão. A transmissão ultrapassou 1,5 milhão de espectadores simultâneos, transformando o Flow em um dos principais espaços de exposição política da noite.
A entrevista também marcou uma estratégia já utilizada por Lula durante a campanha: participar de uma entrevista em plataforma digital no mesmo horário de um debate televisivo do qual decidiu não participar.
O episódio colocou em evidência, além da disputa entre os candidatos, o debate sobre o próprio formato dos confrontos eleitorais e sobre como as campanhas estão utilizando televisão, podcasts e redes sociais para alcançar o eleitorado na reta final antes do primeiro turno.
Às 00h30 desta sexta-feira (2), a entrevista do presidente Lula no Flow Podcast já havia ultrapassado a marca de 3,4 milhões de espectadores simultâneos no YouTube, ampliando ainda mais a audiência registrada durante a transmissão. O programa se tornou o principal foco de atenção digital da noite após o cancelamento do debate presidencial da TV Globo.