EDITORIAL | O prêmio do Data AZ é a vitória da credibilidade sobre a gritaria

O reconhecimento ao instituto de pesquisas pode representar uma virada de página na história de um grupo de comunicação

Há momentos em que os fatos falam mais alto do que qualquer discurso. E há reconhecimentos que valem muito mais pelo seu significado do que pelo dinheiro que representam.

Foto: Reprodução
A marca do instituto.

A premiação de R$ 100 mil concedida pelo Portal 180graus ao Instituto Data AZ, por apresentar a pesquisa mais próxima do resultado das urnas na eleição de 2026 para o Governo do Piauí, é um desses momentos.

Não se trata apenas de um prêmio financeiro. Trata-se do reconhecimento público de um trabalho técnico, de uma trajetória de persistência e de uma credibilidade construída ao longo dos anos, em um ambiente no qual nem sempre a verdade encontra terreno favorável.

Na eleição de 2026, o Data AZ estimou que Rafael Fonteles alcançaria 71,61% dos votos válidos. O resultado oficial foi de 70,90%. Uma diferença de apenas 0,71 ponto percentual. O instituto registrou o menor erro médio entre os concorrentes avaliados na categoria Governo do Estado.

Não foi a primeira vez que o Data AZ demonstrou a qualidade de suas pesquisas.

A trajetória do instituto atravessa sucessivas disputas eleitorais, incluindo os pleitos ao longo de sua trajetória 

e, agora, 2026. Em 2024, especialmente, houve uma demonstração eloquente da importância de distinguir pesquisas de expectativas políticas.

Na disputa pela Prefeitura de Teresina, enquanto algumas sondagens apontavam um cenário favorável a Fábio Novo, inclusive com projeções de vitória no primeiro turno, o Data AZ mantinha Sílvio Mendes na liderança.

As urnas confirmaram a vitória de Sílvio, com 52,19% dos votos válidos, contra 43,26% de Fábio Novo. A última pesquisa do Data AZ havia apresentado números compatíveis com esse resultado, dentro da margem de erro.

O episódio deixou uma lição que deveria ser permanente no mercado de pesquisas eleitorais do Piauí: pesquisa não pode ser instrumento de fabricação de expectativas. Deve ser uma ferramenta de investigação da realidade.

É necessário, inclusive, que o mercado piauiense enfrente uma discussão séria sobre a qualidade dos levantamentos divulgados durante as campanhas. Divergências acentuadas entre pesquisas e resultados eleitorais exigem transparência metodológica, explicações e responsabilidade. A credibilidade de um instituto precisa ser conquistada com trabalho, não com publicidade ou proximidade com o poder.

Mas a importância do prêmio recebido pelo Data AZ vai além das estatísticas.

Ele também projeta uma luz sobre a história do Portal AZ e sobre a trajetória de seu fundador, o jornalista Arimateia Azevedo.

Nos últimos anos, o grupo e seu principal representante atravessaram um período marcado por processos judiciais, condenações contestadas pela defesa, prisões e restrições ao exercício profissional. Episódios que provocaram manifestações de preocupação de entidades jornalísticas e suscitaram debates sobre liberdade de imprensa, proporcionalidade das medidas judiciais e garantias fundamentais.

As controvérsias judiciais possuem sua esfera própria de apreciação. Mas não se pode permitir que elas apaguem uma história de trabalho jornalístico, nem que impeçam o reconhecimento de realizações efetivamente demonstradas.

O Portal AZ, apesar de todas as dificuldades, permaneceu em atividade. Continuou publicando, questionando, investigando e oferecendo ao público informações que muitas vezes contrariaram interesses políticos e expectativas eleitorais.

Pode-se concordar ou discordar de sua linha editorial. Pode-se criticar suas posições, como é legítimo fazer com qualquer veículo de comunicação. O que não se pode é ignorar os resultados de um trabalho cuja qualidade, no caso do Data AZ, acaba de receber reconhecimento público de outro grupo de comunicação.

E há nisso um simbolismo particularmente importante.

O prêmio não foi concedido pelo próprio Portal AZ. Veio do Portal 180graus, que estabeleceu uma competição baseada na proximidade das pesquisas com os resultados oficiais. O reconhecimento partiu, portanto, de outro veículo, a partir de um critério objetivo e verificável.

Isso lhe confere um significado especial.

Para Arimateia Azevedo, depois de tantos anos de embates, dificuldades e decisões judiciais que considera injustas, a premiação pode representar mais do que uma conquista profissional. Pode simbolizar o início de um novo momento, em que o reconhecimento do trabalho desenvolvido pelo grupo passe a ocupar mais espaço do que as controvérsias que marcaram sua história recente.

Talvez seja, afinal, uma virada de página.

Não porque R$ 100 mil tenham o poder de reparar os sofrimentos de uma trajetória, desfazer decisões judiciais ou encerrar conflitos. Mas porque o reconhecimento público de um trabalho bem realizado também constitui uma forma de justiça no sentido mais amplo da palavra: a justiça do mérito, da competência e da dedicação.

O Piauí precisa de uma imprensa livre, plural e independente. Precisa de institutos de pesquisa responsáveis. Precisa, sobretudo, compreender que o jornalismo não existe para confirmar os desejos dos poderosos, assim como a pesquisa eleitoral não existe para produzir o resultado que o contratante gostaria de encontrar.

A função de ambos é procurar a realidade, ainda que ela desagrade.

O prêmio concedido ao Data AZ merece, portanto, ser celebrado não apenas pelo instituto e pelos profissionais que nele trabalham, mas por todos aqueles que reconhecem o valor da informação séria e tecnicamente sustentada.

Que seja o início de um novo ciclo para o Portal AZ, para o Data AZ e para todos os profissionais que ajudaram a construir essa história.

E que deixe uma lição definitiva para o mercado de pesquisas e para a própria comunicação política piauiense:

Pode-se fazer muito barulho, tentar impor narrativas e transformar desejos em manchetes. Mas, quando as urnas se abrem, não é a garganta que decide quem estava mais próximo da realidade. São os números.

No final, a técnica vale mais do que a gritaria. E a credibilidade não se impõe. Se conquista.

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