"Não Passaremos Pano": campanha nacional mobiliza trabalhadoras domésticas

Iniciativa da Themis e da FENATRAD, utiliza distintos canais decomunicação digital, ações de mobilização e ocupação de espaços urbanos

São Paulo, setembro de 2026 – “Não passaremos pano. Nem para o assédio, nem para anviolência”. É a partir de uma expressão popular, ressignificada por quem tem o pano também como instrumento cotidiano de trabalho, que trabalhadoras domésticas de diferentes regiões do Brasil, entre elas diaristas, mensalistas, babás, cuidadoras de pessoas idosas e passadeiras, estão sendo mobilizadas em uma campanha nacional pela garantia de um trabalho digno, livre debviolências e com pleno exercício de direitos. 

Foto: Fabricio Menicucci
Não Passaremos Pano campanha nacional mobiliza trabalhadoras domésticas pelo enfrentamento à violência e ao assédio no trabalho

Com uma perspectiva feminista e antirracista, a campanha parte do reconhecimento de que as desigualdades de gênero, raça e classe atravessam historicamente o trabalho doméstico remunerado no Brasil. A proposta é dar visibilidade a essas desigualdades e contribuir para abdesnaturalização de violações de direitos e de diferentes formas de violência e assédio vividas pela categoria. 

Foto: Fabricio Menicucci

O conceito da campanha parte de três significados integrados do pano: o instrumento presente no cotidiano de trabalho; a expressão “passar pano”, usada para falar daquilo que é encoberto, disfarçado ou deixado passar; e o tecido que, quando erguido coletivamente, se transforma em bandeira de luta. A integração desses sentidos expressa a luta das trabalhadoras pelo fim da violência e do assédio no trabalho doméstico remunerado. 

Foto: Fabricio Menicucci

A campanha integra o projeto regional Mulheres, Dignidade e Trabalho, promovido pela CARE e cofinanciado pela Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD). Desenvolvido na região desde 2019, o projeto é realizado em parceria com organizações sociais que atuam na defesa dos direitos humanos e com entidades sindicais de trabalhadoras domésticas de cinco países da América Latina e do Caribe: Equador, Colômbia, Brasil, México e Honduras, além da atuação regional da Conlactraho. No Brasil, a iniciativa é realizada pela Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos e pela Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (FENATRAD). 

O movimento acontece em um setor marcado pela informalidade e por relações de trabalho que se desenvolvem, em grande parte, dentro das residências. O Brasil reúne cerca de 6 milhões de trabalhadoras domésticas remuneradas, das quais 91,6% são mulheres, 67,4% mulheres negras e cerca de 70% atuam na informalidade. Além disso, 30% já relataram ter sofrido algum tipo de violência relacionada ao trabalho ou ao empregador. Diferentemente de outras relações de trabalho, grande parte dessas situações ocorre no espaço privado das residências, longe de testemunhas e dos mecanismos tradicionais de fiscalização, o que contribui para a invisibilização das violações. 

Entre as principais bandeiras da iniciativa está a defesa da ratificação da Convenção 190 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) pelo Brasil. A norma internacional reconhece o direito de todas as pessoas a um mundo do trabalho livre de violência e assédio e estabelece parâmetros para prevenção e enfrentamento dessas práticas. Adotada pela OIT em 2019, a Convenção ainda não foi formalmente ratificada pelo Brasil, onde o processo tramita no Legislativo desde 2023.

Informação que chega pelo WhatsApp

Para alcançar as trabalhadoras em diferentes realidades e regiões do país, a campanha aposta principalmente no WhatsApp. O canal de transmissão “Não Passaremos Pano” concentra conteúdos em diferentes formatos, incluindo áudios, para ampliar a acessibilidade das informações e alcançar trabalhadoras com diferentes níveis de escolaridade e letramento. 

A estratégia segue três eixos: informar, interagir e incidir. Além de disponibilizar informações sobre direitos, a proposta é criar espaços de participação e mobilização para que as próprias trabalhadoras contribuam com a construção da campanha e fortaleçam coletivamente a defesa de seus direitos.

Neste mês, uma das mobilizações é o Prêmio Sindicato Que Não Passa Pano, iniciativa que estimula cada sindicato participante a engajar ao menos 500 trabalhadoras domésticas e aliadas no canal da campanha. Outra ação é uma gincana que convida trabalhadoras domésticas a enviarem, até 18 de setembro, áudios de até um minuto contando suas histórias de quando “não passaram pano”.

Das redes para as ruas

Depois do lançamento do vídeo-manifesto, em 24 de agosto, a campanha se prepara para ocupar também os espaços urbanos. Entre 13 e 26 de outubro, peças da campanha “Não Passaremos Pano” serão veiculadas em mídia out of home em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Porto Alegre, incluindo espaços em ônibus, sistemas de transporte e totens.

As peças serão protagonizadas por trabalhadoras domésticas e lideranças da categoria, retratadas como sujeitas de direitos e sem o uso de uniformes ou aventais, em linha com a proposta da campanha de romper estereótipos historicamente associados à profissão.

Também em outubro está previsto o lançamento do Guia Ratifica 190, material voltado a sindicatos e organizações para apoiar ações de informação e incidência relacionadas à Convenção 190. Como ferramenta complementar, a campanha também apresenta o aplicativo Laudelina, que reúne informações sobre direitos trabalhistas, recursos para cálculo de direitos e orientações para registro e encaminhamento de situações de violação.

Mais do que denunciar situações de violência e assédio, “Não Passaremos Pano” busca fortalecer uma rede de informação, acolhimento e mobilização. O pano que antes poderia simbolizar aquilo que é escondido passa a ser levantado coletivamente como uma bandeira: pelo direito ao trabalho doméstico digno, seguro e livre de violências.

Sobre a Themis 

A Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos, com mais de 30 anos de atuação, desenvolve ações voltadas à promoção de direitos, à igualdade de gênero e à justiça social, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, especialmente para meninas e mulheres. 

Sobre a FENATRAD

A Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (FENATRAD) reúne organizações sindicais da categoria em diferentes regiões do Brasil e atua na defesa e ampliação dos direitos das trabalhadoras domésticas.

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