Nova espécie de anfíbio recebe nome Maria em homenagem às brasileiras

Batizada de Siphonops maria, espécie foi identificada no Rio e homenageia mulheres e pessoas escravizadas

Uma nova espécie de anfíbio descoberta a partir de exemplares coletados no Rio de Janeiro recebeu o nome científico Siphonops maria. A escolha homenageia Maria, um dos nomes femininos mais populares do Brasil e também bastante utilizado em outros países. Conhecido popularmente como cobra-cega, o animal pertence ao grupo das cecílias, anfíbios pouco conhecidos pela população e até mesmo por especialistas. Segundo os pesquisadores envolvidos no estudo, a iniciativa busca ampliar a visibilidade desses animais e destacar a importância de conhecer a biodiversidade brasileira. A descoberta foi descrita em um trabalho publicado na revista científica Zoological Journal, com participação de pesquisadores de instituições brasileiras.

Foto: Miguel Relvas Ugalde
As cecílias vivem principalmente debaixo da terra, onde escavam túneis e câmaras com a cabeça para depositar seus ovos. Com visão limitada, esses anfíbios utilizam órgãos sensoriais localizados na cabeça para perceber o ambiente ao redor.

A escolha do nome também carrega um significado histórico. Inicialmente, a denominação Siphonops maria foi pensada como homenagem a uma mulher chamada Maria que fez parte de um grupo de 11 pessoas escravizadas responsáveis pelo plantio de mais de 100 mil árvores na Floresta da Tijuca, entre 1861 e 1874. A área recuperada posteriormente passou a integrar o Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, considerado uma das maiores referências mundiais de floresta urbana replantada. Ao resgatar essa história, os pesquisadores também buscam reconhecer a contribuição de pessoas escravizadas para a recuperação ambiental de uma região que se tornou importante patrimônio natural.

Foto: Miguel Relvas Ugalde

A homenagem foi ampliada para representar as mulheres brasileiras que compartilham o nome. De acordo com Adriano Oliveira Maciel, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, e primeiro autor do estudo, existem mais de 12 milhões de pessoas chamadas Maria no Brasil. O pesquisador explicou que a escolha permite associar a descoberta científica a uma referência familiar e cultural presente na vida de milhões de brasileiros. Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp), apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e coautor do trabalho, também ressaltou como as cecílias são animais pouco observados, mesmo por especialistas que estudam anfíbios.

As cecílias apresentam características que tornam sua identificação um desafio para a ciência. Diferentemente de sapos e rãs, esses anfíbios têm hábitos fossoriais, vivendo principalmente debaixo da terra. Seus olhos são reduzidos e a visão é limitada, característica associada à origem do nome cecília, derivado do latim caecus, que significa “cego”. Para perceber o ambiente, esses animais contam com órgãos sensoriais localizados na cabeça. Além disso, as semelhanças físicas entre diferentes espécies dificultam a distinção apenas pela aparência. A descrição da Siphonops maria contribui, portanto, para ampliar o conhecimento sobre a diversidade de anfíbios e reforça a importância das pesquisas científicas para identificar espécies e preservar a biodiversidade.

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