Um áudio atribuído ao advogado Ciro Rocha Soares, divulgado nesta quarta-feira (2), trouxe um novo capítulo para o caso envolvendo o Banco Master e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Na gravação, enviada ao empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, o advogado diz que Mendonça gostaria de recebê-lo e afirma ter conversado com o ministro sobre um assunto ligado ao empresário.
“O André quer te receber. Acho que eu dei uma balançada nele naquele assunto”, afirma Ciro no áudio. Em outro trecho, segundo a reprodução publicada pela CartaCapital em 2 de setembro, o advogado diz que Mendonça sabia da situação de Vorcaro com o Banco Central e que ele próprio e outra pessoa, identificada como Cezinha, já tinham falado com o ministro sobre o tema.
Ainda assim, o simples fato de ter havido essa conversa não permite concluir, por si só, que houve tráfico de influência, favorecimento ou qualquer outro crime. O material divulgado também não explica qual era exatamente o “assunto” citado por Ciro nem qual seria o objetivo de um possível encontro. A própria reportagem da CartaCapital afirma que as mensagens analisadas não deixam claro se Vorcaro tinha um contrato formal com o advogado.
O episódio chama atenção porque acontece no meio da investigação da Polícia Federal sobre o Banco Master. Em 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo de um relatório de 218 páginas feito pela PF a partir da análise do celular de Vorcaro. O documento mostrou conversas do banqueiro com várias autoridades e reacendeu o debate sobre as relações dele com integrantes do Judiciário.
Mas há um ponto que pede cuidado na análise. Uma reportagem do Poder Paraná, publicada em 1º de setembro, informou que a perícia da PF não encontrou, nas mensagens analisadas, registros de pagamentos, transferências ou pedidos de dinheiro feitos por Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes. O mesmo material diz que parte das conversas entre os dois tinha sido apagada ou enviada como imagens de visualização única, que não puderam ser recuperadas.
O relatório também reúne conversas entre Moraes e Vorcaro, incluindo referências a contratos do Banco Master com o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. A CNN Brasil informou em 1º de setembro que Vorcaro tratava os pagamentos ao escritório como prioridade. Mesmo assim, esses registros precisam ser entendidos dentro do contexto contratual e jurídico antes de qualquer conclusão sobre possível irregularidade.
No caso de André Mendonça, a pergunta principal agora é direta: qual foi o assunto tratado pelo advogado com o ministro, em que situação essa conversa aconteceu e o encontro com Vorcaro realmente ocorreu? As respostas importam porque Mendonça é o relator do caso no STF e foi quem determinou a divulgação do material produzido pela Polícia Federal.
O áudio, portanto, não fecha o caso. Ele abre ainda mais perguntas. Em uma investigação que envolve um banco sob apuração, um empresário preso e pessoas ligadas ao alto escalão do Judiciário, é essencial deixar claros os encontros, os interlocutores e os assuntos tratados. Só assim fatos comprovados não serão confundidos com suposições — e eventuais dúvidas poderão ser esclarecidas pelas próprias autoridades envolvidas.