O suspeito de estuprar uma servidora dentro da Delegacia Geral de Teresina apresentou versões contraditórias, admitiu a prática de ato sexual e tentou responsabilizar a vítima ao alegar consentimento. A Polícia Civil, no entanto, considera a versão inconsistente e apura o caso como crime de extrema violência, com possível tentativa de feminicídio.
Segundo o delegado-geral da Polícia Civil, Luccy Keiko, o investigado foi ouvido em três ocasiões e alterou seu relato ao longo dos depoimentos. Inicialmente, afirmou que a servidora teria sofrido um mal súbito e caído. Em seguida, passou a admitir a relação sexual, sustentando que teria sido consensual — hipótese descartada pelos investigadores diante dos elementos reunidos.
A vítima foi encontrada desacordada, com sinais de violência, incluindo sangramento e possível lesão no punho, dentro de uma sala da Delegacia Geral, no bairro Ilhotas, na última quinta-feira (19). O estado em que foi localizada, segundo a polícia, é incompatível com a versão apresentada pelo suspeito.
Durante os depoimentos, o homem também chamou a atenção pela postura. De acordo com o delegado, ele demonstrou frieza e apresentou inconsistências em pontos centrais da narrativa. Em um dos momentos, já na Casa da Mulher Brasileira, chegou a abordar uma familiar da vítima para perguntar sobre o estado de saúde dela — comportamento que passou a ser analisado como possível tentativa de intimidação.
Diante das circunstâncias, a prisão em flagrante foi convertida em preventiva. A Polícia Civil também solicitou exame toxicológico para verificar a possibilidade de a vítima ter sido dopada.
O caso ganhou ainda mais gravidade após a inclusão da Delegacia de Feminicídios na investigação. A linha de apuração considera a hipótese de tentativa de assassinato, em razão do estado clínico da vítima e da dinâmica do crime.
A servidora permanece internada em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Urgência de Teresina (HUT). Ela chegou a ficar entubada por cerca de três dias e, conforme relatos da defesa e de familiares, apresenta episódios de confusão mental, agitação e crises de pânico ao recobrar parcialmente a consciência.
A investigação está sob responsabilidade das delegadas Lucivânia Vidal, da Casa da Mulher Brasileira; Nathalia Figueiredo, do Núcleo de Feminicídios do DHPP; e Bruna Verena, diretora de Proteção à Mulher e aos Grpos Vulneráveis da Polícia Civil do Piauí. O inquérito tramita sob sigilo parcial para preservar a identidade da vítima.
O suspeito é um trabalhador terceirizado vinculado à Polícia Civil desde 2018, com atuação anterior no Instituto Médico Legal (IML). Ele havia sido transferido para a sede da Delegacia Geral há cerca de três meses. Após o crime, foi determinado o desligamento imediato.
As apurações seguem em andamento e incluem análise de laudos periciais, exames médicos e coleta de novos depoimentos. A polícia também verifica se havia algum vínculo prévio entre vítima e investigado, embora ressalte que isso não altera a caracterização da violência.