Opinião: Impeachment, um espetáculo degradante

Por Miguel Dias Pinheiro, advogado

Não defendo governo petista. Mas, confesso, o que assisti neste domingo foi muito nojento. Em Teresina, por exemplo, onde vivo e convivo com a família e desfruto de amizades, desculpem os incomodados, assisti pessoas que se dizem politicamente instruídas vibrar com a possível assunção de Michel Temer à Presidência da República como se fosse uma final de copa do mundo. Ouvi da boca de falsos moralistas a palavra de ordem de que Eduardo Cunha foi um “verdadeiro herói”. Amanhei triste nesta segunda-feira! Sinceramente! Não pela possibilidade de Dilma cair na República, mas pelo que assisti e ouvi. Além de assistir um “espetáculo degradante”, fiquei degradado intimamente.

Não vi um só voto, uma ação sequer na Câmara dos Deputados defendendo com honradez uma reforma política profunda com um discurso convincente e, para o momento, com viés emotivo. Ao contrário, assistimos parlamentares usando nomes de familiares para sensibilizar a população, invocando, inclusive, o nome de Deus em vão para justificar votos e atitudes inconfessáveis tomadas na calada da noite. Uma verdadeira degradação moral!

“Acho estarrecedor, em um país republicano, que tem princípios de laicidade do Estado, levantar argumentos religiosos e a família. Pouquíssimos levantaram os motivos reais que são julgados no processo. É entristecedor ver a qualidade de argumentos, todos arregimentados para seu entorno, em questões de seu interesse. Há pessoas caricatas, como Bolsonaro, que não contam. Mas deveria ser pedagógico, fica muito claro que o problema não é a presidenta Dilma Rousseff, o PT. Temos um problema muito mais sério, mais grave. Ficou explícita a falência do sistema representativo brasileiro”, disse a professora do Departamento de Ciência Política e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marlise Matos.

Para o professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Jorge Almeida, em nenhum momento ficou caracterizado o crime por parte da presidenta Dilma Rousseff. “Raros foram os parlamentares pró-impeachment que argumentaram a existência de crime de responsabilidade. Falaram sobre questões econômicas, políticas, sociais, religiosas, lembraram as famílias e os próprios familiares. Isso mostra a fraqueza desse argumento e que foi realmente um julgamento político” - disse.

Por sua vez, o professor do programa de pós-graduação de ciência política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Rodrigo Gonzalez, diz que cada um está aproveitando seus 30 segundos de fama. “Porque é bom lembrar que, fora poucas lideranças, a maioria tem poucas oportunidades de aparecer na mídia nacional. É a oportunidade que os deputados pouco conhecidos têm, e vale qualquer tipo de manifestação”.

Uma coisa a votação do impeachment contribuiu para o Brasil. Sobretudo para as classes menos favorecidas e para aqueles que não leiam a imprensa e são alienados politicamente. O Brasil mostrou a “cara ridícula” do nosso Parlamento. Enfim, o país viu e ouviu em quem realmente votou em 2014, em um palco que se ouviu de tudo, menos a legalidade e sustentação dos princípios democráticos. Vergonhosamente, uma Casa Legislativa de “parlamentares pornográficos”! Houve até “cusparada” e enaltecimento de torturados da ditadura militar.

Para o professor Jorge Almeida, “foi um processo muito rebaixado do ponto de vista político. O Congresso virou uma feira de varejo. Grande parte dos votos foi fruto de interesses particulares”.

Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP), disse que para muitos brasileiros foi um choque conhecer o Parlamento. “Ele é muito ruim, muito desqualificado. É muito assustadora a qualidade dos nossos deputados. Os nossos parlamentares são muito ruins, mas o baixo clero é muito inferior. Não é programático, não é ideológico”.

Foi mesmo humilhante Eduardo Cunha abrir aquela sessão de votação do impeachment invocando o nome de Deus para milhões de brasileiros incrédulos e atônitos: "Sob a proteção de Deus e em nome do povo brasileiro, iniciamos nossos trabalhos".

Não consigo entender como uma pessoa instruída possa aplaudir uma tomada de poder chefiada por Eduardo Cunha. Não posso compreender que um cidadão ou uma cidadã possa apoiar e aplaudir uma cassação de uma presidente arquitetada pelo político mais corrupto da história da política nacional. No impeachment do Collor, pelo menos tínhamos o baluarte e histórico político Ulysses Guimarães chefiando o processo com sua honradez e sua sabedoria incomparável. Com Cunha foi demais! Para mim, uma blasfêmia!

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