Quando eu nasci Deus me deu o meu melhor amigo, o livro, que me acompanhou a vida inteira, ensinou-me tudo o que sei, os conhecimentos que adquiri e encheu os meus ócios com a beleza e a força da literatura. Até hoje, nas águas tranquilas dos meus 96 anos, ele não me larga, nem eu largo a ele. O costume tornou-se a minha própria vida. Sempre digo que dois caminhos alimentaram meus dias: o da literatura e o da política. A literatura foi a vocação, e falar de literatura é falar do livro, dessa segunda natureza que me alimentou a cabeça.
A política entrou na minha vida pelos desafios que passei a viver e de que me tornei parte, querendo enfrentá-los para melhorar a sorte do povo dos municípios em que nasci, onde cresci e nos quais lutei. Meu desejo e minha determinação eram aliviar o sofrimento, que testemunhei na minha meninice, na adolescência e na juventude, e meus olhos viam as dificuldades, a pobreza e as injustiças no ambiente em que vivia. Depois, adulto, transportei a minha inconformidade para o Maranhão e, mantendo esta nobre ambição, tornei-me governador e creio ter feito um bom trabalho, separando a sua História em dois momentos, antes e depois de minha administração.
Finalmente, o destino me levou a decidir sobre políticas públicas e lidar com problemas nacionais maiores ainda, gigantescos, e lutar contra soluções demagógicas e simplistas para problemas difíceis e quase insolúveis. A História se contorcia. A democracia renascia em minhas mãos em um momento de grandes obstáculos. Nela e para ela concentrei todos os esforços, de tal modo que hoje podemos celebrar seus primeiros quarenta anos, com uma sociedade democrática de massa e uma Constituição que é das poucas elaboradas nos países que naquele tempo fizeram a transição para a democracia, o que foi ressaltado pelo brasilianista Ronald Schneider ao analisar aquelas transições democráticas.
Mas o que quero mesmo é dizer que, diante da minha frustração de não ter tido a oportunidade de frequentar um grande centro de formação, foi da biblioteca que me socorri para ter êxito na busca de suprir as minhas deficiências por meio do estudo: como não podia adquirir muitos livros, fui atrás deles nas bibliotecas, sendo frequentador delas a vida inteira, a começar pela Biblioteca do Maranhão, que naquele tempo tinha o nome de Benedito Leite, um grande político e intelectual maranhense.
Agora leio, com grande curiosidade, matéria bastante instigante do competente jornalista Irineu Machado, do UOL, sobre a observação diária e empírica que, durante dez anos, com persistência, realiza em suas viagens de metrô, das leituras que os passageiros fazem durante o percurso entre o trabalho e a casa. A primeira percepção dele foi sobre aquilo que é noticiado diariamente, o declínio do hábito de leitura. Em “Frequento uma biblioteca móvel subterrânea”, pela diversidade e quantidade de leitura que presencia no metrô, o jornalista Irineu Machado desmistifica a ideia de que o brasileiro não lê. Em abono de sua tese destaco o êxito da Bienal do Livro de São Paulo, com a presença de cerca de seiscentas mil pessoas, que por ali passaram comprando livros, participando das mesas-redondas e prestigiando palestras e debates com autores. A outra percepção de Irineu Machado é que a “biblioteca móvel subterrânea”, é bastante atualizada com autores clássicos e contemporâneos. Assim Freida McFadden, Kurt Vonnegut, Guimarães Rosa estão juntos na escolha de seus leitores de metrô. É realmente uma diversidade grande: McFadden é uma autora de suspenses, e Vonnegut é um condenador das guerras, como seu livro sobre o bombardeio de Dresden, que deixou centenas de mortos e destruiu a bela e icônica igreja, restaurada com a ajuda do povo do mundo inteiro. Estranho encontrar Guimarães Rosa em companhia dessa gente, ele que divide com Machado de Assis, cada um em seu tempo, serem os maiores autores da literatura brasileira.
Outra constatação, esta minha, sobre o livro, é que ele anda muito: à noite, quando estamos buscando em nossa biblioteca os livros de nossa preferência, nós os retiramos do lugar e, no dia seguinte, eis a nossa procura pelo livro que “andou na madrugada”.
Meus cumprimentos e minha louvação a Irineu Machado pelo ineditismo de sua reportagem, mostrando que encontramos, nesse hábito no metrô, uma extensão da nossa casa e da biblioteca para a leitura, sempre viva.
Mas os livros merecem de nós um carinho muito grande. Temos os nossos amores por eles. Quando tive de separar-me de muitos deles, 24 mil volumes — 90% da minha biblioteca foi doada à Fundação da Memória Republicana, o Memorial José Sarney —, meu coração se apertou. Despedi-me do O Estadista do Império, de Joaquim Nabuco, e do Pesquisas e Depoimentos, de Tobias Monteiro, e quase chorei.
Quando Presidente da República sempre incluía nas minhas viagens visitas a bibliotecas. Foi assim que quando encontrei, entre as raridades que me apresentavam, Os Anais Históricos do Estado do Maranhão, de Bernardo Pereira de Berredo, na 1ª edição, do século XVIII, eu cumprimentei o colecionador e tive orgulho de saber que eu tinha essa mesma edição em meus livros no Maranhão.