Mortes violentas caem no Brasil, mas feminicídios e letalidade policial sobem
Anuário aponta queda de 8,2% nas mortes violentas, mas registra alta em 2025
O Brasil registrou em 2025 o menor número de mortes violentas intencionais (MVI) desde 2012, mas a queda do indicador não foi acompanhada por uma redução generalizada da violência. Dados da 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que os feminicídios e as mortes provocadas por intervenções policiais cresceram no período.
As MVI recuaram 8,2% em relação a 2024. O indicador, porém, reúne diferentes tipos de mortes, entre eles homicídios, feminicídios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial. Segundo Ariadne Natal, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, analisar os números de forma conjunta pode esconder movimentos distintos entre os diferentes tipos de ocorrência.
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“É preciso abrir a caixinha” das mortes violentas intencionais, afirma a pesquisadora. Para ela, a redução do indicador geral não significa que todos os grupos estejam menos expostos à violência.
Feminicídios avançam
Em 2025, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no país, número 4% maior que o registrado no ano anterior. Em 96,4% dos casos, os autores eram homens.
Os dados também mostram a proximidade entre vítimas e agressores. Em 60,9% dos crimes, o autor era o parceiro íntimo da vítima. Em outros 18,9%, era o ex-parceiro.
Ariadne Natal destaca que os feminicídios estão frequentemente relacionados a relações marcadas por controle, posse e ciúme. Como o agressor geralmente faz parte do círculo de convivência da vítima, a violência pode ocorrer dentro do ambiente doméstico e se prolongar antes de chegar ao desfecho fatal.
Para a pesquisadora, esse contexto dificulta a ruptura dessas relações e exige que as políticas de prevenção atuem antes que a violência atinja seu estágio mais grave.
Mortes em ações policiais também aumentam
Outro indicador que avançou em 2025 foi o de mortes decorrentes de intervenções policiais. Ao todo, 6.602 pessoas morreram nessas circunstâncias, alta de 5,4% em comparação com 2024.
A pesquisadora relaciona o resultado às políticas de segurança pública adotadas no país e cita São Paulo como exemplo de medidas que podem reduzir a letalidade. Segundo ela, o uso de câmeras corporais e mecanismos de monitoramento esteve associado à diminuição desse tipo de morte no estado.
Natal também chama atenção para o impacto da atuação policial mais violenta sobre os próprios agentes, que podem ficar mais expostos ao risco durante operações.
Na avaliação da pesquisadora, os dados revelam um desafio que vai além da redução dos índices gerais: modificar uma cultura em que a violência foi historicamente incorporada como mecanismo de resolução de conflitos e priorizar a preservação da vida nas políticas de segurança.
Fonte: Jornal da USP.