Os Correios anunciaram nesta quarta-feira (15) que estão em negociação com bancos públicos e privados para contratar um empréstimo de R$ 20 bilhões, com o objetivo de recuperar a liquidez e reestruturar financeiramente a empresa, que enfrenta forte crise desde 2024. A informação foi divulgada pelo presidente Emmanoel Schmidt Rondon, que assumiu o comando da estatal há menos de um mês.
Segundo Rondon, o contrato de crédito ainda está em fase de negociação e faz parte de um plano de recuperação que inclui redução de despesas, diversificação de receitas e venda de ativos. “A gente precisa recuperar a liquidez da empresa para que possamos, por exemplo, ter capacidade de pagar o Plano de Demissão Voluntária (PDV). Estamos fazendo uma operação com bancos para a tomada de recursos”, afirmou.
O novo empréstimo deve aliviar o caixa da estatal entre 2025 e 2026, auxiliando no pagamento de obrigações atrasadas e na retomada da capacidade operacional. A situação financeira dos Correios se agravou após sucessivos prejuízos: R$ 4,3 bilhões no primeiro semestre de 2025, frente a R$ 1,3 bilhão no mesmo período de 2024.
Durante o último ano, a empresa consumiu 92% do caixa disponível e de aplicações financeiras, cerca de R$ 2,9 bilhões, e ainda precisou recorrer, sob a gestão anterior, a um empréstimo de R$ 1,8 bilhão para cobrir despesas imediatas. A escassez de recursos levou ao atraso de repasses e pagamentos a fornecedores, transportadoras e agências franqueadas.
Desde abril, transportadoras terceirizadas reduziram o ritmo de trabalho ou paralisaram serviços, provocando atrasos nas entregas de encomendas. A empresa também atrasou o repasse de comissões às agências conveniadas e ao plano de saúde dos funcionários, o Postal Saúde, levando algumas redes hospitalares a suspender atendimentos.
Em notas explicativas das demonstrações financeiras, a estatal reconheceu que vem realizando pagamentos conforme “disponibilidades financeiras” e não dentro dos prazos acordados.
Dívidas e obrigações atrasadas
Em julho, os Correios formalizaram o adiamento de R$ 2,75 bilhões em obrigações financeiras para preservar o caixa. Os valores incluem:
INSS Patronal: R$ 741 milhões
Fornecedores: R$ 652 milhões
Postal Saúde: R$ 363 milhões
Remessa Conforme: R$ 271 milhões
Vale-alimentação/refeição: R$ 238 milhões
PIS/Cofins: R$ 208 milhões
Postalis: R$ 138 milhões
Franqueadas: R$ 135 milhões
Mais da metade dessas dívidas (53%) gera multa e juros, mas não compromete diretamente as operações, segundo a própria estatal. Questionado sobre o valor atualizado das dívidas, Rondon afirmou que as tratativas seguem sob sigilo.
Plano de reestruturação
O plano anunciado por Rondon é dividido em três eixos:
Corte de despesas operacionais e administrativas;
Diversificação de receitas e recuperação da geração de caixa;
Recuperação da liquidez financeira.
Entre as medidas previstas estão um novo Plano de Demissão Voluntária (PDV), venda de imóveis ociosos, renegociação de contratos com grandes fornecedores e a criação de novos produtos e serviços para ampliar as fontes de receita. O presidente não detalhou prazos nem metas específicas.
Essas ações dão continuidade ao pacote de contenção de gastos anunciado em maio, que incluiu redução de 20% na estrutura da sede, suspensão temporária de férias, diminuição da jornada de trabalho, venda de ativos, revisão de contratos, otimização da malha logística e captação de R$ 3,8 bilhões com o New Development Bank (NDB) para investimentos internos.
Apesar das medidas emergenciais já adotadas, Rondon reconheceu que os efeitos foram limitados. “As ações anteriores foram paliativas, não estruturantes. Agora buscamos medidas de impacto duradouro”, disse.
Com 12 trimestres consecutivos de prejuízo, os Correios enfrentam uma das piores crises financeiras da sua história. A nova gestão aposta no empréstimo bilionário e no corte de despesas como caminhos para estabilizar o caixa, retomar investimentos e restabelecer a confiança no funcionamento da empresa