O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE), negociado há mais de duas décadas, voltou a enfrentar resistência. A ministra francesa da Agricultura, Annie Genevard, afirmou neste domingo (9) que a França não assinará o tratado nas condições atuais, reacendendo as dúvidas sobre a concretização do pacto.
A declaração ocorre a poucas semanas da data prevista para a assinatura formal do acordo, marcada para 20 de dezembro, no Rio de Janeiro. O tratado foi anunciado em dezembro do ano passado, após 25 anos de negociações entre os dois blocos.
Durante encontro recente em Belém (PA), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, demonstraram otimismo e afirmaram acreditar que o acordo de livre-comércio finalmente seria concluído.
Apesar do entusiasmo, a França voltou a se colocar como o principal obstáculo. Segundo Genevard, o governo francês quer “proteger os agricultores nacionais”, exigindo uma cláusula de salvaguarda agrícola que impeça a entrada de produtos sul-americanos que não sigam os padrões sanitários e ambientais europeus.
Na prática, a medida busca evitar que produtos do Mercosul — especialmente carne, soja e açúcar — concorram com a agricultura francesa em condições mais baratas, o que poderia gerar prejuízos ao setor.
A posição francesa, porém, coloca em risco a ratificação do tratado, já que ele precisa da aprovação dos 27 países da UE e de todos os integrantes do Mercosul.
As falas da ministra vieram poucos dias depois de o presidente francês Emmanuel Macron declarar, durante visita ao Brasil, que via “perspectivas positivas” para o acordo. Ele, contudo, frisou que permaneceria “vigilante” quanto às exigências ambientais.
Analistas avaliam que Macron tenta equilibrar o discurso, sem confrontar diretamente o poderoso lobby agrícola francês, que tem grande influência política e já se opôs a outros tratados comerciais.
Além da França, setores da esquerda europeia também têm se posicionado contra o acordo. Eurodeputadas francesas e belgas questionaram o tratado na Corte de Justiça da União Europeia, alegando que ele poderia enfraquecer regras ambientais e criar concorrência desleal para os produtores europeus.
O texto do acordo já foi aprovado pela Comissão Europeia em setembro de 2025, mas ainda aguarda ratificação pelo Parlamento Europeu e pelos Estados-membros para entrar em vigor.
Com a pressão crescente da França e a oposição de parte dos parlamentares europeus, o futuro do acordo Mercosul-União Europeia volta a ficar incerto, mesmo após quase três décadas de negociações.