Quatro meses após o início das taxações impostas pelo governo Trump aos produtos brasileiros, os Estados Unidos retiraram a tarifa de 40% de parte das mercadorias exportadas pelo Brasil. A nova lista de isenções inclui café, carne bovina, sucos e bananas. O mel, porém, principal produto da agricultura familiar do Piauí destinado ao mercado norte-americano, ficou de fora, gerando preocupação entre produtores locais quanto ao cenário para 2025.
A retirada parcial das tarifas resultou de um acordo iniciado após conversa telefônica entre os presidentes Lula e Trump. Segundo a ordem executiva publicada pela Casa Branca, as negociações seguem em andamento e poderão incluir novos itens, entre eles o mel. Mesmo assim, a ausência do produto piauiense na lista atual acendeu o alerta no setor.
Sitônio Dantas, diretor-geral da Central de Cooperativas Apícolas do Semiárido Piauiense (Casa Apis), afirma que o mercado norte-americano valoriza o mel orgânico do estado, mas os contratos vigentes se encerram em dezembro de 2025. A incerteza sobre as tarifas e a possibilidade de compradores migrarem para outros fornecedores preocupam os apicultores. Ele explica que ainda não houve impacto financeiro porque os contratos atuais valem até o fim deste ano, mas o próximo ciclo já aponta desafios.
Segundo Sitônio, a tendência é de queda no preço do produto piauiense no mercado externo como forma de compensar o aumento de tributos, o que contraria a expectativa de crescimento da cooperativa. Ele lembra que o setor já enfrenta há três anos uma taxa adicional de 10% aplicada pelos EUA após pressão interna de apicultores norte-americanos, agravada por taxações que chegaram a 50% para o mel brasileiro.
O dirigente destaca que o mel do Piauí se diferencia por ser orgânico e produzido em biomas específicos do semiárido, o que agrega valor e qualidade reconhecida pelos compradores internacionais. No entanto, o mercado interno não é suficiente para absorver toda a produção, e o estado depende fortemente das exportações para os EUA — maior importador mundial de mel.
Para reduzir o impacto das tarifas, o Governo do Piauí chegou a comprar mel para a merenda escolar, mas a aquisição de apenas 5 toneladas foi considerada insuficiente pelos produtores. Sitônio argumenta que um consumo interno mais estruturado poderia fortalecer o setor, citando como exemplo a Turquia, que retém quase toda sua produção no mercado doméstico.
O Piauí conseguiu abrir novos mercados na Europa, com apoio da Apex-Brasil em viagens e prospecções, mas a demanda ainda não compensa as perdas causadas pelas tarifas norte-americanas. A baixa oferta global de mel orgânico, que representa menos de 5% da produção mundial, é outro fator que limita alternativas rápidas.
Além da questão tributária, a estiagem deste ano reduziu a produção piauiense em cerca de 35%. Mesmo assim, o estado segue entre os maiores produtores do país, ocupando a segunda posição nacional. Produtores afirmam que, caso a taxação não seja derrubada, não há solução prática capaz de evitar perdas significativas ao setor em 2025.