UE e Índia fecham acordo histórico de livre-comércio

Pacto reduz tarifas, amplia mercados e exclui agricultura por sensibilidade política

A União Europeia (UE) e a Índia anunciaram, nesta terça-feira, a conclusão de um acordo de livre-comércio considerado histórico por autoridades dos dois lados. O pacto reduz de forma significativa os impostos cobrados sobre produtos europeus vendidos ao mercado indiano e cria uma das maiores zonas de comércio do mundo, com cerca de 2 bilhões de consumidores.

Foto: AP Photo

O acordo foi fechado após meses de negociações intensas e divulgado durante uma visita oficial de altos dirigentes europeus à Índia, incluindo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Segundo ela, o entendimento marca “um novo capítulo” nas relações entre as duas regiões.

Na prática, o tratado prevê a redução ou eliminação de tarifas sobre aproximadamente 96% das exportações da UE para a Índia. A expectativa de Bruxelas é dobrar as vendas de mercadorias ao país asiático até 2032, o que pode gerar uma economia anual de cerca de 4 bilhões de euros em impostos de importação.

Entre os setores mais beneficiados está o da indústria automobilística europeia. As tarifas indianas sobre carros, hoje em torno de 110%, deverão cair gradualmente para 10%. Outros segmentos, como máquinas, produtos químicos e farmacêuticos, também terão quase todas as tarifas eliminadas.

Bebidas como vinho e destilados, importantes para países como França, Itália e Espanha, terão impostos reduzidos de até 150% para cerca de 20% a 30%. O azeite passará de 40% de tarifa para isenção total.

Por outro lado, produtos agrícolas considerados sensíveis ficaram fora do acordo. Carnes, arroz, açúcar e frango não foram incluídos, atendendo tanto a preocupações de agricultores europeus quanto a exigências do governo indiano. Laticínios e cereais também permanecerão protegidos no mercado da Índia.

O tratado ainda traz um capítulo sobre desenvolvimento sustentável, com compromissos ligados à proteção ambiental e às mudanças climáticas. Questões como indicações geográficas — que protegem produtos típicos europeus contra imitações — ficaram para um acordo separado.

O momento do pacto é visto como estratégico. Tanto a UE quanto a Índia buscam reduzir sua dependência do mercado dos Estados Unidos, após o aumento de tarifas imposto pelo governo do presidente Donald Trump. A Índia, por exemplo, enfrenta atualmente taxas de até 50% sobre suas exportações para os EUA.

As negociações entre UE e Índia começaram em 2007, mas ficaram paradas por anos e só foram retomadas em 2022. O avanço mais recente ocorreu diante das tensões comerciais globais e do retorno de políticas protecionistas em grandes economias.

Antes de entrar em vigor, o acordo ainda precisa ser aprovado pelo Conselho Europeu e pelo Parlamento Europeu, um processo que pode ser demorado. A Comissão Europeia espera que a implementação comece em janeiro de 2027.

Se confirmado, o tratado deverá reforçar os laços econômicos e políticos entre duas das maiores democracias do mundo, ao mesmo tempo em que amplia o comércio em um cenário global marcado por incertezas e disputas tarifárias.

Leia também