BC identificou crise no Banco Master ao encontrar só R$ 4 milhões em caixa

Depoimento à PF aponta contradição entre liquidez e carteira de R$ 80 bilhões declarada

O Banco Central identificou a crise de liquidez do Banco Master poucas semanas antes da intervenção ao constatar que a instituição mantinha apenas R$ 4 milhões em caixa, apesar de declarar uma carteira de cerca de R$ 80 bilhões em ativos. A informação foi prestada à Polícia Federal pelo diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, em depoimento no fim de dezembro.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
BC identificou crise no Banco Master ao encontrar só R$ 4 milhões em caixa

Segundo Aquino, o dado chamou a atenção da autoridade monetária por ser incompatível com o porte informado pelo banco controlado por Daniel Vorcaro. “Um banco de R$ 80 bilhões com liquidez tem R$ 3 bilhões ou R$ 4 bilhões livres. O Master, antes da liquidação, só tinha R$ 4 milhões em caixa”, afirmou o diretor à PF. A intervenção no banco ocorreu em 18 de novembro, após a constatação do problema.

O depoimento também aponta fragilidades no Will Bank, integrante do conglomerado do Master. De acordo com Aquino, a instituição vinha enfrentando dificuldades recorrentes para honrar compromissos. Após a liquidação do Banco Master, o Will Bank passou a operar sob o Regime Especial de Administração Temporária (Raet) do Banco Central, até ser igualmente liquidado em 21 de janeiro.

Outro ponto destacado pelo diretor do BC foi o impacto potencial da situação sobre o Banco de Brasília (BRB). Aquino afirmou que o banco ligado ao governo do Distrito Federal possuía em sua contabilidade diversos ativos do Will Bank. Nesse contexto, uma eventual tentativa frustrada de manter esses ativos em funcionamento poderia resultar em um rombo ainda maior nas contas do BRB.

No âmbito da mesma investigação, Daniel Vorcaro reconheceu à Polícia Federal que o Banco Master enfrentava uma crise de liquidez, caracterizada pela dificuldade de transformar ativos em recursos disponíveis em caixa. O banqueiro, no entanto, sustentou que a instituição sempre honrou seus compromissos e que mantinha mais ativos do que passivos.

Vorcaro atribuiu o agravamento da situação a mudanças nas regras do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que, segundo ele, teriam sido motivadas por pressão de grandes bancos. “O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso. Essa era a regra do jogo. Quando começamos a crescer, a regra mudou”, declarou no depoimento.

Os relatos colhidos pela PF reforçam o foco da investigação sobre a real situação financeira do banco antes da intervenção e sobre o papel da supervisão no processo que levou à liquidação da instituição.

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