A partir de hoje, o Portal AZ inicia uma série especial de reportagens, assinada pelo jornalista Márcio Felipe Rocha, que se estenderá até a próxima quarta-feira (06/05). O objetivo é investigar, com profundidade e responsabilidade pública, os principais desafios enfrentados pelos profissionais da educação da rede municipal de Teresina.
Nesta primeira etapa, o foco recai sobre a saúde mental dos educadores, tema que emerge como um dos principais indicadores de fragilidade estrutural do sistema. Os relatos colhidos ao longo da apuração revelam um cenário que vai além de dificuldades pontuais e aponta para um processo contínuo de adoecimento, diretamente associado à sobrecarga de trabalho, à precarização das condições de ensino e à distância entre o discurso institucional e a realidade vivida nas escolas.
A diretora da diretoria colegiada do SINDSERM (Sindicato dos Servidores do Município de Teresina), Diana Aquino, descreve um quadro recorrente de denúncias e relatos que chegam à entidade, especialmente por meio do setor jurídico.
“Sim, nós, por meio do nosso atendimento jurídico, temos recebido muitas denúncias, muitos relatos de servidoras, principalmente mulheres, que têm se sentido muito assediadas nos seus locais de trabalho”, afirma.
Segundo a dirigente sindical, o impacto emocional tem sido crescente:
“E também elas relatam que estão com algumas dificuldades psicológicas, um adoecimento mental elevado.”
O fenômeno, no entanto, não pode ser compreendido de forma isolada ou subjetiva. Ele está diretamente relacionado às condições concretas de trabalho. Entre os fatores mais recorrentes está a sobrecarga provocada pela inclusão escolar sem a devida estrutura de suporte.
“Os professores, muitas vezes, têm turmas com cinco ou seis crianças atípicas, sem um auxiliar de apoio à inclusão.”
A declaração expõe uma contradição entre o que é previsto em termos de política pública e o que se materializa no cotidiano escolar. A ausência de apoio técnico transfere ao professor responsabilidades que extrapolam sua formação e sua função legal, ampliando significativamente a carga de trabalho.
Outro ponto crítico refere-se à ampliação indireta da jornada laboral, especialmente no que diz respeito ao tempo de permanência na escola.
“No fim do dia, são 40 minutos a mais. Então, é muito tempo. Quando você soma durante a semana, é mais tempo ainda de trabalho, sem remuneração.”
A dirigente reforça que esse período não pode ser tratado como intervalo passivo:
“Você está no seu local de trabalho, interagindo com as crianças, realizando atividades pedagógicas e educativas, e isso não está sendo considerado como hora trabalhada.”
Sob a perspectiva jurídica, o ponto levanta questionamentos sobre o respeito aos limites da jornada no regime estatutário, sobretudo quando o intervalo deixa de cumprir sua função de descanso e passa a ser incorporado, na prática, como tempo produtivo.
A situação se agrava com relatos de desvio de função, prática que, além de fragilizar o processo pedagógico, expõe o servidor a insegurança profissional.
“Você pega um professor de matemática para dar aula de xadrez, ou uma professora de português para dar aula de dança.”
Segundo Diana Aquino, muitos profissionais acabam aceitando essas condições por receio de retaliações administrativas:
“Ele fica com medo, às vezes, de recusar e ter que mudar de escola.”
Em contraponto às críticas apresentadas pelo sindicato, a Secretária Executiva de Ensino da Secretaria Municipal de Educação de Teresina (SEMEC), doutora Irene Lustosa, com 26 anos de atuação no serviço público municipal, apresenta a posição da gestão.
De acordo com a gestora, a organização da jornada docente segue parâmetros legais consolidados, com carga horária de 20 ou 40 horas semanais, distribuídas em dois terços em sala de aula e um terço destinado a atividades extraclasse, como planejamento, formação continuada, correção de avaliações e atendimento à comunidade escolar.
Segundo Irene Lustosa, a incorporação dessas atividades à jornada representa um avanço histórico da categoria, uma vez que formaliza e remunera tarefas que anteriormente eram realizadas fora do ambiente escolar.
A secretária executiva também destaca que, desde 2013, há um esforço institucional para garantir a correta aplicação dessa organização da jornada. No campo da saúde mental, afirma que a rede dispõe de mecanismos de acompanhamento, com orientação para que gestores realizem escuta qualificada e encaminhamento adequado dos profissionais.
Esse suporte inclui a atuação de núcleos multiprofissionais em mais de 30 escolas, compostos por psicólogos, assistentes sociais e psicopedagogos, além de fluxos que preveem atendimento médico, avaliação pelo IPMT e, quando necessário, afastamento temporário ou readaptação funcional.
A rede municipal conta atualmente com 323 unidades escolares, 323 diretores, 117 diretores adjuntos, 2.613 professores efetivos e 856 temporários, atendendo aproximadamente 92 mil estudantes. Há ainda cerca de 2.500 auxiliares de apoio à inclusão, além de programas institucionais voltados ao bem-estar, como o projeto “Fortalecendo Laços”.
Apesar da estrutura apresentada pela gestão, os relatos da base revelam uma realidade mais complexa. Em entrevista concedida ao Portal AZ, uma professora da rede municipal, que terá sua identidade preservada e será identificada como Luiza, descreve um cotidiano marcado por limitações estruturais, sobrecarga e adoecimento.
“Algumas escolas têm estrutura antiga, muitos prédios eram do Estado, carecem de espaço físico e de estrutura material. Muitas escolas sequer possuem sala de coordenação ou sala de leitura.”
A docente convive com três diagnósticos clínicos — fibromialgia, transtorno de ansiedade e episódios de depressão — e associa diretamente o agravamento do seu quadro às condições de trabalho.
No campo da inclusão, sua avaliação reforça os dados apresentados pelo sindicato:
“A demanda de apoio para inclusão está longe de ser suprida. Além disso, as turmas têm, em média, 30 alunos e chegam a ter de quatro a sete alunos com deficiência. É totalmente impossível um professor, com apenas um apoio, dar conta dessa realidade.”
A sobrecarga também se intensifica diante da ausência de profissionais em razão de afastamentos médicos:
“Os déficits ocorrem por adoecimento de docentes, e a demanda por doenças e cirurgias faz parte da realidade das escolas.”
Outro fator de desgaste é o acúmulo de funções:
“Ocorre, muitas vezes, uma sobreposição das dimensões burocrática, administrativa e pedagógica.”
E complementa:
“O preenchimento de relatórios e tabelas demanda muito trabalho. Além disso, há reuniões técnicas e formações que acabam ampliando ainda mais a carga de trabalho.”
Do ponto de vista clínico, a fibromialgia — caracterizada por dor crônica e frequentemente associada ao estresse — encontra no ambiente descrito um fator agravante. A exposição contínua a situações de pressão e excesso de demandas contribui para o agravamento de quadros de ansiedade e depressão, como o relatado pela entrevistada.
No cotidiano escolar, os sinais de adoecimento tornam-se visíveis, com registros frequentes de estresse, esgotamento emocional e afastamentos médicos, impactando diretamente a organização das unidades e redistribuindo a sobrecarga entre os profissionais que permanecem em atividade.
A análise integrada das falas de Diana Aquino (SINDSERM), Irene Lustosa (SEMEC) e da professora Luiza evidencia um ponto central: há um descompasso entre a formulação das políticas públicas e sua efetiva execução. Enquanto a gestão apresenta diretrizes, programas e estrutura formal, os profissionais relatam dificuldades concretas que persistem no cotidiano das escolas.
Outro aspecto sensível refere-se aos servidores em processo de adoecimento crônico e em fase de aposentadoria, que enfrentam dificuldades para assegurar direitos, muitas vezes comprometidos por entraves administrativos ou ausência de acompanhamento adequado. Em um regime estatutário, essa realidade evidencia fragilidades na proteção ao servidor.
O cenário delineado aponta para uma conclusão inequívoca: a saúde mental dos educadores tornou-se um indicador direto da qualidade da gestão pública na educação. Quando o professor adoece, o impacto se estende ao processo de ensino e aprendizagem como um todo.
O SINDSERM informa que, desde fevereiro de 2026, intensificou sua atuação por meio de visitas às unidades escolares, realização de assembleias e articulação institucional com o poder público, buscando encaminhamentos para as demandas da categoria.
Em nota ao Portal AZ, a Assessoria de Imprensa do IPMT informou que não conseguiu levantar os dados solicitados em tempo hábil até o fechamento desta matéria. O espaço permanece aberto para atualização na próxima edição, em respeito aos princípios da transparência e do interesse público.
Esta reportagem integra a primeira etapa de uma série especial sobre a educação pública em Teresina. As próximas publicações abordarão a estrutura das escolas e, posteriormente, os desafios relacionados à qualidade do ensino, inclusão escolar e direitos dos profissionais da educação.
O Portal AZ dará continuidade à série, reafirmando o compromisso com um jornalismo crítico, responsável e voltado ao interesse público, aprofundando o debate e garantindo visibilidade às múltiplas vozes que compõem o sistema educacional.