Professores do município de Teresina adoecem e gestão silencia

Educação em colapso | Parte 2: Falta de estrutura, desumanização e ausência de dados expõem crise

A educação municipal de Teresina atravessa um cenário que já não comporta relativizações. O que se evidencia é um sistema sob pressão: profissionais adoecem, a estrutura é insuficiente e a gestão, diante de questionamentos objetivos, responde com protocolos em vez de dados concretos — negligenciando informações que deveriam ser públicas.

Foto: Imagem gerada por IA.

Durante a apuração, a equipe do Portal AZ percorreu diferentes fontes e contextos, buscando compreender a extensão do problema. O que se encontrou revela um quadro de desgaste contínuo, agravado pela falta de transparência em informações básicas, o que amplia a desconfiança e aprofunda as incertezas.

Levantamento realizado pelo Portal AZ entre os dias 2 e 5 de maio de 2026, com base em fontes acadêmicas, institucionais e entrevistas com profissionais da rede, aponta a inexistência de indicadores públicos consolidados sobre afastamentos por motivo de saúde, incidência de transtornos mentais, aposentadorias por categoria ou capacidade de atendimento médico aos professores.

A análise considera dados entre 2010 e 2025. Pesquisa da Universidade Federal do Piauí, baseada em registros institucionais, já indicava, entre 2010 e 2016, padrões de adoecimento docente associados às condições de trabalho. Passados quase dez anos, a ausência de continuidade desses dados revela uma fragilidade estrutural: a gestão não sistematiza nem divulga informações que deveriam orientar políticas públicas.

No campo previdenciário, dados administrativos divulgados em setembro de 2023 apontam cerca de 6.500 aposentados e pensionistas, além de aproximadamente 2.600 servidores com pendências cadastrais. Não há, contudo, recorte específico para os profissionais da educação, o que reforça a invisibilidade de uma categoria central para o funcionamento do sistema.


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A realidade após a aposentadoria

A professora aposentada Carmelita Torres de Lacerda Silva, com 31 anos de atuação na Escola Municipal Mário Faustino, no bairro Pedra Mole, relata dificuldades no acesso à saúde especializada:

> “Nosso plano de saúde deixa a desejar, principalmente quando necessitamos de médicos e exames de áreas mais específicas (neurologia, psiquiatria, geriatria etc.). Por esse motivo, a espera por uma consulta se torna muito longa.”

Ao ser questionada sobre a condição financeira após a aposentadoria e seus impactos na vida cotidiana, afirma:

> “Infelizmente não, porque, quando a aposentadoria chega, vêm junto as doenças da idade, aumentando as despesas com alimentação, medicamentos e atividade física.”

Sobre a valorização da carreira após o desligamento da ativa, acrescenta:

> “Seria muito justo que recebêssemos o salário integral, com todas as vantagens que tínhamos quando estávamos na ativa.”


Precariedade nas escolas

Nas unidades de ensino, os relatos evidenciam um cotidiano marcado por limitações estruturais. Uma professora da rede municipal, que também exerce função de vice-direção, com 12 anos de atuação e que pediu anonimato, relata deficiências significativas na infraestrutura escolar:

> “Há muitos equipamentos defasados, além da falta de impressoras, xerox, notebooks, mesas e cadeiras para os profissionais desempenharem suas funções. Os equipamentos existentes são antigos e não funcionam adequadamente. Os materiais de expediente também são insuficientes — a maioria está desgastada. No início deste ano, houve falta de itens básicos, como papel, enviado pela sede em quantidade insuficiente para impressão de provas e materiais para os alunos.”


Sobre os impactos no trabalho pedagógico e administrativo, explica:

> “Isso gera atraso na entrega de documentos e relatórios, além de comprometer o andamento das atividades em sala de aula e o desenvolvimento pedagógico.”

Em relação à organização das turmas, destaca:

> “As turmas são superlotadas, com um percentual elevado de crianças com deficiência. Há salas com 30 alunos, sendo cinco ou seis autistas, sem o apoio necessário. Quando há desestabilização, a aula não acontece ou o conteúdo sofre atraso.”

E conclui:

> “A conta está ficando cara para os docentes pagarem sozinhos pela não aprendizagem.”


Em outra escola da zona sul de Teresina, uma professora com 14 anos de atuação, que também preferiu não se identificar, relata:

> “Sim, há deficiência, pois a Secretaria Municipal de Educação não fornece os materiais necessários para trabalhar com crianças neurodivergentes.”

Sobre o impacto dessa ausência de suporte, afirma:

> “Sem o suporte adequado, como profissionais de apoio e materiais específicos, essas crianças ficam ociosas, sem concentração e desestimuladas, muitas vezes com crises emocionais que inviabilizam a continuidade da aula.”


Quanto às condições de trabalho, aponta:

> “A desmotivação está ligada à desvalorização salarial, ao não cumprimento do piso, ao acréscimo de 20 minutos na jornada sem remuneração e à falta de suporte para lidar com alunos neurodivergentes.”


E complementa:

> “A desvalorização que enfrento é resultado direto do descumprimento de direitos básicos.”

Finaliza:

> “O resultado é o adoecimento diante de condições de trabalho desgastantes.”


A professora Eloisa Francisca da Silva Lopes, com 18 anos de atuação na Escola Monteiro Lobato, também na zona sul, relata dificuldades estruturais recorrentes:

> “Há dificuldade com folhas A4 e cópias de atividades.”

Sobre o impacto no processo de ensino, explica:

> “Alguns materiais precisam ser impressos, pois o livro didático não contempla todo o conteúdo necessário.”

Em relação às condições de trabalho, afirma:

> “A carga horária é extensa, há dificuldade de lidar com as demandas familiares dos alunos e falta valorização profissional.”

E conclui:

> “A remuneração é baixa e a jornada é longa, estressante e cansativa.”


Recursos e contradições

No campo do financiamento, os números contrastam com a realidade vivida nas escolas. Em entrevista concedida em 5 de maio de 2026, Amanda Karyne Silva Nunes, vice-presidente do CACS-FUNDEB/THE desde 2024, apresentou dados oficiais.

Segundo ela, o município arrecadou, em 2025, R$ 669.875.969,73, com despesas de R$ 666.822.833,28. Desse total, cerca de R$ 637.523.447,09 foram destinados à remuneração dos profissionais da educação.

> “A gestão do FUNDEB em Teresina garante transparência ao divulgar informações e permitir o acompanhamento pelo Conselho. Os dados mostram o fluxo dos recursos.”

Ainda assim, reconhece limitações no uso prático desses recursos:

> “Na prática, os recursos acabam comprometidos com despesas operacionais, o que restringe investimentos estruturais.”

Sobre políticas de valorização, afirma:

> “Não se identificam políticas efetivas voltadas à saúde mental, ao bem-estar e à qualidade de vida dos trabalhadores.”

Quanto às condições nas escolas, acrescenta:

> “Persistem desafios como sobrecarga de trabalho e afastamentos por questões de saúde.”


E sobre a assistência médica:

> “Há número reduzido de profissionais especializados, especialmente na área de saúde mental, comprometendo o atendimento.”


Falta de respostas e esclarecimentos institucionais

Durante a apuração, o Portal AZ solicitou dados oficiais à gestão municipal, incluindo informações ao IPMT sobre saúde dos profissionais da educação, previdência e aposentadorias. A resposta institucional indicou a necessidade de levantamento técnico detalhado e trâmite formal.

O pedido foi formalizado conforme a Lei nº 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação), restrito a dados estatísticos. Ainda assim, não houve retorno imediato.

A assessoria da SEMEC informou que encaminharia material posteriormente, alegando excesso de demandas no momento.

A dificuldade de acesso à informação não reduz a responsabilidade jornalística. Ao contrário, reforça o compromisso com o interesse público.

Quando dados básicos não são apresentados, o problema deixa de ser técnico e passa a ter dimensão política.


A educação municipal não enfrenta apenas limitações estruturais. Enfrenta ausência de transparência, fragilidade na gestão e um distanciamento evidente entre o volume de recursos disponíveis e a realidade vivida nas escolas.

Os professores seguem trabalhando — mas cada vez mais adoecidos.

E cada vez mais invisíveis nos números que deveriam protegê-los.

A assessoria da SEMEC foi novamente acionada e informou que pretende encaminhar informações posteriormente, conforme disponibilidade da equipe.

A cobertura continua nesta quarta-feira, 6 de maio de 2026, com a última reportagem da série sobre os problemas da educação municipal.

O Portal AZ reafirma que não atua com fins partidários e ampliará a apuração para a rede estadual, abordando irregularidades e situações de negligência.

Este trabalho jornalístico é guiado pelo compromisso com a informação, a responsabilidade pública e o direito da sociedade de conhecer os fatos.

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