A primeira série desta investigação mostrou que uma nota não consegue traduzir, sozinha, a realidade da educação pública. A apuração, porém, começou meses antes da divulgação do IDEB. Desde maio de 2026, o jornalista e pesquisador em Educação Márcio Felipe vem acompanhando a realidade da rede municipal de Teresina, ouvindo profissionais e reunindo informações sobre condições de trabalho, estrutura, saúde e gestão. Em agosto, a investigação ganhou um novo recorte com os resultados do IDEB 2025. A primeira série, publicada em 21 de agosto, analisou o que existe além dos números.
Agora, na segunda etapa, o Portal AZ volta o olhar para dentro das escolas. A reportagem reúne relatos de docentes que apontam falta de equipamentos, espaços inadequados e dificuldades para desenvolver atividades pedagógicas. Entre as reclamações estão a ausência de computadores e notebooks, falta de papel A4, mesas e cadeiras e a utilização de ambientes sem estrutura apropriada para o trabalho das coordenações. Há também relatos de profissionais que atuam doentes em salas consideradas insalubres e de espaços improvisados para receber famílias que procuram a escola para conversar com a coordenação.
A realidade descrita pelos profissionais inclui ainda problemas relacionados às relações de trabalho. Uma entrevistada que pediu anonimato relatou situações que, segundo ela, envolvem assédio moral, desgaste socioemocional e falta de autonomia da coordenação pedagógica. Na avaliação da profissional, existem gestores que não estariam preparados para exercer a função e acabam criando um ambiente de desânimo, competição e falta de respeito entre os trabalhadores.
“Tem muito a questão do assédio moral dentro da escola e situações voltadas para o equilíbrio socioemocional dentro das escolas. Há profissionais que não estão preparados para ser gestores e acabam criando um clima de desânimo entre os demais profissionais, provocando competição e falta de respeito. Também existe falta de autonomia da coordenação pedagógica, que muitas vezes fica dependendo de decisões da direção escolar, o que atrapalha toda a dinâmica do trabalho do pedagogo.”
O relato coloca a gestão escolar no centro de uma discussão que vai além da estrutura física. Para a profissional, a autonomia da coordenação pedagógica é afetada quando decisões relacionadas ao trabalho precisam passar constantemente pela direção. A consequência, segundo ela, é uma interferência na rotina dos pedagogos e no acompanhamento das atividades desenvolvidas nas escolas.
Outro relato ouvido pela reportagem é da professora E.M.. Ela contou que, após o nascimento da filha, precisou entrar em licença e, segundo seu relato, sofreu diversos descontos em sua remuneração. Entre eles, estaria o auxílio-alimentação, no valor de R$ 250. A experiência, segundo a professora, trouxe impacto financeiro justamente durante um período de mudanças familiares e necessidade de cuidados com a filha.
O caso levanta uma questão que a reportagem considera relevante: quais são os efeitos financeiros das diferentes modalidades de licença sobre os profissionais da educação? Quais benefícios são mantidos, quais podem ser suspensos e quais descontos estão previstos nas regras administrativas? Para os trabalhadores ouvidos, o afastamento por motivo de saúde ou licença legal não deveria representar uma penalização financeira que agrave uma situação já delicada.
A questão se conecta a outro ponto da investigação: o modelo de gratificação relacionado ao desempenho das unidades. Em Teresina, segundo o ex-dirigente do Sindserm Sinésio Soares, existe um agravante na forma como o resultado é utilizado.
“O agravante aqui em Teresina é que o resultado é Rankeado e transformado em gratificação escalonada o que discrimina profissionais que não são os únicos responsáveis por qualquer que seja o indicador. Um absurdo!”
Sinésio acrescenta que a posição defendida pelos trabalhadores de Teresina não seria isolada. “O sindicato de Florianópolis tem o mesmo posicionamento nosso”, declarou.
A crítica coloca uma questão importante sobre a relação entre resultado e reconhecimento. Uma escola não produz seus resultados por meio de um único profissional. Professores, pedagogos, gestores, coordenadores e servidores que desempenham funções distintas participam diariamente da organização, do acompanhamento dos estudantes e do funcionamento da unidade. O resultado final, entretanto, pode acabar sendo convertido em um parâmetro para estabelecer diferentes níveis de reconhecimento.
Enquanto isso, os relatos que chegam à reportagem descrevem uma realidade menos visível. Há profissionais que afirmam trabalhar sem equipamentos básicos, em espaços improvisados e com limitações físicas para exercer suas funções. Há também quem relate impactos financeiros decorrentes de licenças. São histórias que dificilmente aparecem em uma tabela de resultados, mas fazem parte da experiência profissional de quem trabalha na rede.
O posicionamento do sindicato
Para assegurar o contraditório e ouvir a posição da atual direção sindical, este jornalista encaminhou, por meio do WhatsApp e das redes sociais do Sindserm, questionamentos ao colegiado da entidade. A assessoria de comunicação se prontificou a encaminhar o posicionamento oficial da direção do sindicato, que respondeu aos pontos apresentados pela reportagem.
Sobre o ranqueamento das escolas e a gratificação escalonada vinculada ao IDEB, a Direção Colegiada do Sindserm-THE declarou ser “categoricamente contrária à política de meritocracia, ao ranqueamento de unidades escolares e à concessão de gratificações escalonadas atreladas a metas do IDEB”. Para a entidade, os profissionais necessitam de “reconhecimento e valorização salarial real e linear, e não de prêmios seletivos”.
O sindicato também questionou a utilização do IDEB como parâmetro isolado para avaliar a qualidade da educação. Segundo a entidade, o indicador não contempla toda a complexidade do ambiente escolar e a análise precisa considerar condições de trabalho e infraestrutura, fluxo escolar, perfil socioeconômico dos estudantes e valorização dos profissionais, incluindo saúde mental, bem-estar e remuneração.
Em relação ao reajuste de 14,9%, às mudanças de nível e aos chamados 20 minutos por turno, a direção sindical afirmou que considera o reajuste cumprimento do piso nacional e reposição de perdas salariais. Sobre a jornada, classificou o modelo como penalizante e afirmou que as cobranças já foram formalizadas junto à Prefeitura de Teresina, inclusive com atuação jurídica e mobilizações. O sindicato diz exigir cronograma para pagamento da reposição, quitação das mudanças de nível represadas e regularização da jornada.
A manifestação oficial também reforça a posição da entidade sobre o IDEB 2025. Para o sindicato, o avanço da aprendizagem deve estar acompanhado de investimento contínuo nas pessoas e na estrutura da rede municipal, e não concentrado apenas em índices e métricas.
A segunda série desta investigação conduzida por Márcio Felipe, jornalista e pesquisador em Educação, coloca essas vozes no centro da apuração. O trabalho busca reunir documentos, números e relatos para mostrar as diferentes dimensões existentes dentro da rede municipal de ensino.
A pergunta que permanece é direta: como cobrar resultados sem garantir condições adequadas para quem trabalha nas escolas?
A resposta passa necessariamente pela estrutura oferecida aos profissionais, pelos critérios utilizados para reconhecimento e pelas consequências das regras administrativas sobre a vida de quem está na ponta. É nesse cotidiano, entre salas, equipamentos, famílias, professores e estudantes, que a educação acontece antes de qualquer número chegar às estatísticas.
Por isso, esta segunda série mantém o caráter investigativo da apuração conduzida por esse jornalista e pesquisador em Educação. O objetivo é colocar diante do leitor aquilo que não aparece na nota: as condições, as dificuldades e as experiências de quem está diariamente dentro das escolas.