Pesquisadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI) identificaram fósseis de uma preguiça-gigante no município de Arraial, no centro-norte do estado, região onde esse tipo de registro era até então desconhecido. O achado é resultado de uma dissertação de mestrado concluída no campus de Floriano e foi divulgado na sexta-feira (24).
O animal em questão é o Eremotherium laurillardi, uma das maiores criaturas que já pisaram no território brasileiro. A espécie podia atingir cerca de 6 metros de comprimento e pesar até cinco toneladas - tamanho que equivale ao peso de um elefante adulto africano. Apesar do tamanho intimidador, o Eremotherium era parente dos bichos-preguiça atuais, um dos mamíferos mais inofensivos que existem. A espécie se extinguiu no final do Pleistoceno, período que terminou cerca de 11 mil anos atrás.
A pesquisa foi desenvolvida pela mestranda Mariana Miranda de Sousa, orientada pelo professor Daniel Fortier, do departamento de Ciências Biológicas do campus de Floriano (CAFS). A datação por carbono-14, técnica que mede a decomposição de isótopos radioativos em matéria orgânica, indicou que o animal encontrado em Arraial viveu há aproximadamente 33 mil anos, bem antes do colapso da megafauna nas Américas. Parte das análises foi feita em parceria com uma universidade no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, por exigir equipamentos especializados.
Segundo a pesquisadora Mariana Miranda a relevância do achado está, sobretudo, na localização. No Piauí, fósseis da espécie são associados principalmente ao sudeste do estado, sobretudo à região da Serra da Capivara. O Parque Nacional contém um grande número de cavernas e abrigos rochosos nos quais centenas de fósseis da megafauna foram coletados. Arraial, no centro-norte, está fora desse circuito tradicional. “A importância dessa amostra que encontramos lá em Arraial tem uma relevância grande na questão da distribuição geográfica dessa espécie, pois a gente comumente encontra esses fósseis no sudeste piauiense. O Arraial, que fica no centro-norte do estado, é um registro diferenciado,” reitera a acadêmica.
Além de localizar o fóssil, o estudo reconstruiu a dieta e o ambiente do animal por meio de análises isotópicas, técnica que examina a composição química dos ossos para inferir o que o animal comia e em que clima vivia. Os resultados mostraram que o Eremotherium de Arraial se alimentava principalmente de gramíneas, plantas adaptadas a ambientes quentes, e habitava um cenário mais frio e úmido do que a caatinga atual, com maior disponibilidade de água. Isso confirma o que estudos anteriores já sugeriam sobre o clima do Nordeste no Pleistoceno.
O orientador Fortier destacou o alcance do trabalho. "A principal contribuição está na ampliação do conhecimento paleoecológico e paleobiogeográfico do Nordeste brasileiro, ao preencher lacunas sobre a ocorrência de megafauna no centro-norte do Piauí, uma área ainda pouco estudada", afirmou o professor. A pesquisa também utilizou modelagem de nicho ecológico com base em 97 pontos de ocorrência da espécie para reconstruir sua distribuição geográfica ao longo do tempo, ferramenta que cruza dados fósseis com variáveis ambientais para prever onde um animal podia viver.