Brasília — A frase que circula em Brasília nesta quinta-feira é que o timing certo é a única coisa que importa. A 5ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada com o senador Ciro Nogueira (PP-PI) na mira da Polícia Federal, chegou em um momento que a capital federal já transformou em narrativa antes mesmo de a poeira baixar.
Há menos de dez dias, Ciro Nogueira constava na lista do PT como voto certo para aprovar Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. O senador não entregou. O resultado foi 34 votos favoráveis, bem abaixo dos 41 necessários, e a primeira derrota de um indicado presidencial ao STF desde 1894. O mandado que colocou a Polícia Federal na porta de Nogueira nesta manhã foi assinado pelo ministro André Mendonça.
O capital político que Mendonça perdeu
Para entender o peso do timing, é preciso recuar algumas semanas. Mendonça não apenas apoiou Messias discretamente. Ele foi o principal cabo eleitoral do indicado dentro do próprio STF, abrindo gabinetes, fazendo telefonemas e apresentando o advogado-geral a senadores conservadores. Quando o Senado rejeitou Messias, Mendonça foi às redes sociais lamentar publicamente que o Brasil perdia "um grande ministro".
A derrota não foi apenas do governo Lula. Foi, de forma visível e constrangedora, uma derrota pessoal de Mendonça. O ministro apostou seu prestígio numa operação que fracassou por um motivo simples: senadores que eram contabilizados como votos garantidos não cumpriram o que sinalizaram.
A leitura política de Brasília é direta: Ciro Nogueira estava nessa lista. E agora está na lista de alvos da PF.
A investigação que já estava madura
O argumento jurídico em defesa da operação é sólido. Segundo apuração do g1, o caso relativo a Ciro Nogueira acumulava uma das maiores quantidades de indícios dentro do inquérito do Banco Master. A PF é categórica ao apontar que o senador era o "destinatário central" das vantagens oferecidas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, descrevendo uma estrutura de corrupção que incluía pagamentos mensais, despesas pessoais quitadas, uso de bens de alto valor e a compra de participação em empresa avaliada em R$ 13 milhões por apenas R$ 1 milhão. O primo de Vorcaro, Felipe Cançado, foi preso nesta manhã em Minas Gerais.
Se os indícios já estavam presentes, Mendonça tinha não apenas a prerrogativa, mas a obrigação funcional de autorizar a operação. Qualquer atraso imotivado, nesse cenário, seria ele próprio questionável. Do ponto de vista estritamente jurídico, a operação se sustenta.
O problema é que Brasília raramente funciona no plano estritamente jurídico.
A armadilha do timing
A questão que os aliados de Ciro já colocam publicamente é precisamente esta: se os indícios estavam maduros e o pedido da PF são do dia 10 do mês passado, por que a operação não saiu antes? Inquéritos no STF têm ritmo próprio, diligências precisam ser concluídas e decisões precisam ser fundamentadas. Mas a pergunta sobre o calendário não desaparece só porque a resposta técnica é razoável.
Do ponto de vista político, a sequência é explosiva. O senador não votou com o governo na sabatina. Dias depois, tem a PF na porta por ordem do ministro que mais perdeu com aquela derrota. A narrativa da perseguição política já está sendo construída nos bastidores do Congresso e será o argumento central da defesa de Nogueira nas próximas semanas.
Esse tipo de narrativa tem peso institucional real. Quando um parlamentar investigado consegue transformar a investigação em vitimização política, o desgaste migra do investigado para o investigador. Mendonça, que já acumula atritos com o presidente do Senado Davi Alcolumbre por causa dos inquéritos do INSS e do próprio Master, pode estar alimentando uma guerra em múltiplas frentes.
O STF como campo de batalha
Há uma dimensão interna ao Supremo que precisa ser considerada. A derrota de Messias expôs uma divisão clara dentro do tribunal. O grupo formado por Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, ministros com maior interlocução com o Senado e o Congresso, foi identificado pelo entorno do próprio Messias como o polo de resistência à indicação. Mendonça ficou do lado que perdeu.
Num tribunal onde maioria é poder e minoria é isolamento, Mendonça saiu da sabatina de Messias mais frágil do que entrou. A operação desta quinta o recoloca em posição de protagonismo institucional. Não resolve a derrota política, mas sinaliza que o ministro ainda tem capacidade de mover peças num tabuleiro que vai além das sessões de julgamento.
O medo que já chegou ao Congresso
Interlocutores ligados ao Progressistas, ao União Brasil e ao centrão em Brasília, ouvidos pela reportagem nesta quinta-feira, compartilham a leitura política de que a operação contra Ciro Nogueira não é um episódio isolado. A percepção que circula nesses círculos é a de que o senador piauiense seria apenas o alvo mais recente de um padrão que combina investigação legítima com conveniência política.
Um deputado federal ouvido reservadamente foi além: teme que o movimento possa alcançar o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ou figuras próximas a eles, numa escalada de pressão sobre o Legislativo. Para esse parlamentar, a sinalização enviada pela operação desta quinta ultrapassa Ciro Nogueira e funciona como recado para quem, no Congresso, não entrega o que o Supremo ou o governo esperam.
No PL, a preocupação ganha contornos mais específicos. Interlocutores do partido avaliam que Mendonça pode ter se desviado do ponto central do caso Master, que é a investigação sobre o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro, para usar o inquérito como instrumento de acerto de contas com Ciro Nogueira. A leitura é de que o foco original da operação, que envolve bilhões em ativos e uma crise sistêmica no setor financeiro, teria sido instrumentalizado para um objetivo mais imediato e pessoal. Para esses interlocutores, isso não apenas compromete a lisura da investigação como pode enfraquecer juridicamente o próprio inquérito caso a defesa de Nogueira consiga demonstrar desvio de finalidade.
Um senador, também em caráter reservado, foi mais direto: "Ciro é só a mais nova vítima política". A frase resume o estado de espírito de parte do Congresso nesta tarde: uma mistura de indignação contida, cautela e o reconhecimento de que ninguém quer ser o próximo nome numa lista que, segundo esses interlocutores, parece ter critérios que vão além dos autos.
O que Brasília sabe e não consegue provar
Nenhum documento nos autos aponta motivação política. Nenhuma fonte identificada afirma que Mendonça conectou a operação à sabatina. E provavelmente nenhum elemento concreto jamais estabelecerá esse vínculo de forma inequívoca.
Mas Brasília não funciona por provas documentais. Funciona por leituras de poder. E a leitura que circula nesta quinta é a de que Ciro Nogueira descobriu, da maneira mais dura possível, o custo de decepcionar um ministro do Supremo Tribunal Federal numa semana em que esse ministro tinha muito a perder.